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Rititi

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INÍCIO

  • Rititi no #MariaCapaz

    Hoje escrevo na Plataforma Maria Capaz. Sobre o que me ensinou um vestido de princesa.

     



    Por Rititi @ 2015/01/12 | 3 comentários »


    Liberdade

    Gozem com Mahomé, com o Papa, com os budistas vegetarianos, com os devotos da Nossa Senhora de Fátima. Ridiculizem as tipas que não se depilam, os forcados, as fãs da Maia e os seguidores do Benfica. Façam piadas com as mães que dão a mama em público e com os que não perdem a Casa dos Segredos, com o Marcelo e com as comentadoras da Barca do Inferno. Riam, façam rir, satirizem, pensem, falem o que quiserem. Sempre.



    Por Rititi @ 2015/01/08 | 3 comentários »


    2014

    2014 foi o ano da descoberta da minha fragilidade. Afinal não é todos os anos que ficamos a saber que só temos um rim, que se fode o banco onde trabalhamos, que vemos como aqueles que nos eram tão próximos se vão distanciando, que a vida se vê transformada num castelo de naipes. Mas nem tudo é frágil. O amor nunca o é. Nem a família de sangue e a que vamos construindo. 2014, no fundo, foi o ano de descoberta do que realmente sou e do que tenho. Do que temos.



    Por Rititi @ 2014/12/31 | 7 comentários »


    Sobre o Feminismo

    Os Filhos são de Todos:

    “Maria Beatriz esforçou-se durante três semanas para marcar uma reunião com o sub-Secretário Adjunto do Ministério. Fez dezenas de telefonemas à secretária, escreveu e-mails tremendamente eloquentes onde explicava os pontos a tratar e a importância da reunião ao sujeito, soube que o tipo gostava de música clássica assim que lhe enviou as melhores entradas para o grande concerto do ano na Gulbenkian patrocinado pela sua empresa, fez mais telefonemas suplicantes à secretária, até que conseguiu a reunião para terça-feira às onze da manhã. Todo um êxito, fruto da persistência e da infinita paciência que a caracterizavam e que fez que o chefe da Maria Beatriz a elogiasse em frente a todos os seus colegas de secção. Um orgulho para a Maria Beatriz, trabalhadora exemplar, aplicada e responsável, que durante anos deu o calo na empresa para ser respeitada e promovida pelo seu esforço. Na terça-feira lá está ela no escritório, bem vestida com o melhor fato de calça e casaco que transmite a executiva eficiente que é, com os expedientes bem estudados para a importante reunião que tinha preparado durante várias noites, arranhando horas ao sono e sacrificando a harmonia familiar. E quando já está pronta para sair, de casaco vestido e discurso ensaiado, recebe um telefonema da escola do filho mais novo: o puto tem febre, delira, não pára de vomitar, por favor venha buscar a criança à escola que nós não damos conta do recado. Maria Beatriz nem acredita no que lhe está a acontecer. Liga ao marido, mas ele também tem um dia complicado e não pode sair do gabinete agora, adeus e um queijo da serra. Maria Beatriz, que não tem uma mãe nem uma sogra que a auxiliem, está a ver a vida a andar para trás. Telefona à empregada, que obviamente a manda dar uma volta ao bilhar grande, pois tem mais duas casas para fazer e não pode perder o ordenado livre de impostos do dia. Merda. Maria Beatriz recusa-se a faltar à reunião que tanto lhe custou conseguir e que tão importante é para a  empresa, para a sua carreira, para os seus objectivos, para o bónus de final do ano com o que pagaria as obras do quartos dos miúdos, e volta a telefonar ao marido, vá lá meu, não me lixes, caralho, eu depois vou para casa e trato do puto, levo-o ao médico, ajuda-me. Mas o marido tem um chefe novo, uma besta de trinta anos sem coração, que não parece emocionar-se com as vicissitudes de quem tem filhos e que lhe espeta um “então, a sua mulher, não pode resolver o problema?”, e Maria Beatriz faz o último malabarismo: procura na agenda o telefone da vizinha artista que trabalha em casa e pede-lhe o imenso favor de ir buscar o miúdo e jura-lhe que em duas horas estará em casa, suplica-lhe, promete que lhe arranjará o autoclismo ou um namorado de vinte anos, que cozinhará para ela durante um mês, o que ela quiser, com tal que vá buscar o miúdo à escola e a salve. Por sorte, a vizinha acede e lá vai a Maria Beatriz à reunião, não sem antes pedir autorização, desculpa e clemência ao chefe para depois ir para casa tratar do filho.

    A reunião foi um sucesso, ela seria a estrela da secção, a inveja das gajas do departamento de Contabilidade, o chefe iria promovê-la, finalmente iria mudar o quarto dos putos, mas em vez de estar orgulhosa pelo resultado obtido, Maria Beatriz não deixou por um minuto de se sentir culpada por não ter mandado o chefe, o trabalho e o sub-Secretário Adjunto do Ministério às urtigas e ter ido a correr socorrer o filho, levá-lo ao hospital, dar-lhe mimos e beijinhos e calor de mãe. E quando já está em casa com o computador ligado ao trabalho a responder a dezenas de mails e a atender os telefonemas fundamentais para a existência da Humanidade enquanto ouve a voz moribunda da criatura desde o sofá, Maria Beatriz não pode evitar pensar que esta coisa da conciliação, a igualdade dos géneros e o futuro brilhante das mulheres trabalhadoras que lhe prometeram é capaz de funcionar lá nos países nórdicos ou no Canadá onde as gajas dão de mamar até aos dez anos e há fraldários nas casas de banho dos homens, mas que no sul da Europa não passa de uma utopia que só existe no papel. Uma criança está doente e da escola ligam sempre à mãe, como se o puto tivesse nascido via inseminação artificial. O calendário escolar, com as suas férias da Páscoa, do Carnaval, do Natal, do Verão e da Festa do Unicórnio Transparente, perpetuam a ideia que as mães não têm mais nada que fazer que esperar os meninos à porta do colégio, ignorando que em casa trabalham todos e obrigando a malta a maquinar engenharias mais próprias de astrofísicos nucleares cada vez que alguém descobre um feriado inesperado a meio do mês de Março. A publicidade das fraldas, das papas, de biberons, da roupa infantil exibe imagens delirantes de meninos loiros e sorridentes e das suas adoráveis e não menos sorridentes mães, aparentemente as únicas responsáveis pelo bem-estar das criaturas. Os pais devem estar na bola, ou em reuniões na ONU ou a descobrir a cura do cancro. Ou seja, a gravidez não acaba no parto, estamos prenhas até os gajos saírem de casa. E no entanto, os horários de trabalho duram até o cair da noite, sem as empresas terem em conta que as escolas não são internados de onde as crianças saem já criadas com vinte e três anos e o curso acabado. Exigem-nos que nos esfolemos, que demos os nosso melhor, sempre até à última hora, como o mais esforçado anãozinho da mina, independentemente que tenhamos os putos doentes, que haja festa na escola, como se não tivéssemos filhos. Então, em que ficamos? Somos mães ou não?

    A pergunta não é esta. Não deveria. Enquanto exista só a maternidade e não a parentalidade, enquanto os filhos forem assunto só nosso, enquanto os chefes continuarem a perguntar “então, a sua mulher, não pode levar o miúdo ao médico?”, enquanto as escolas continuarem a fingir que nós temos que estar sempre disponíveis para três meses de férias, enquanto formos nós a quem se nos exige decidir se trabalhamos ou ficamos em casa, iremos sempre a reboque, exaustas, com a sensação que não chegamos, que falta sempre alguma coisa, com o peso na consciência de que deveríamos estar mais tempo com os filhos se nos dedicamos mais ao trabalho, ou então culpadas se não somos mais empenhadas na carreira, mais ambiciosas, derrotadas no final do dia porque não era assim que a coisa deviam ter saído. E isto não é justo. Nem para nós, nem para os filhos, nem para os pais das criaturas. E não chega já de nos martirizarmos como as protagonistas das telenovelas mexicanas? Porquê temos que suportar este peso, como se a culpa fosse nossa? E, sim, sempre haverá cadáveres no caminho. É uma questão só de pôr as coisas em perspectiva e de saber o que é importante. A carreira ou chegar a horas razoáveis para fazer os trabalhos de casa com os miúdos? E que tal o pai reduzir o horário de trabalho, que seja ela a pedir autorização para levar os putos ao médico? Não? Mudar às vezes é mais fácil do que parece, basta não esperar que que os grandes tratados do femininismo universal tratem da nossa vida.

    Maria Beatriz, no dia seguinte quando voltou ao trabalho, mesmo tendo tido uma reunião fabulosa, de ter conseguido um grande contrato para a empresa, de ter alcançado os objectivos propostos, foi repreendida pelo chefe. Não se deveria ter ido embora para casa. Estava a ser irresponsável. Todos na empresa tinham filhos e não por isso deixavam de estar comprometidos. Talvez não merecesse ser recompensada.  Só lhe faltou chamar-lhe cabra egoísta. Ouviu tudo. Respirou. Sorriu. E com um par de tomates telefonou para a empresa da concorrência e ofereceu os seus serviços, os seus contactos e um contrato milionário com o  Ministério. Tudo a troco de um horário laboral flexível que a deixasse ir buscar os filhos à escola sempre que estivessem doentes.”

    (publicado no meu “Manual de Instruções para Sobreviver  aos 40″, editado pela Cego Surdo e Mudo)

    E em dia quando tiver vagar (talvez no  autocarro ainda de noite quando vou trabalhar) escrevo sobre o Maria Capaz.



    Por Rititi @ 2014/12/21 | 5 comentários »


    E continuando com caricaturas

    Entretanto, na mesma semana em que a Renée decidiu ser outra pessoa, os meios espanhóis destaparam um escândalo milionário sobre a utilização fraudulenta de cartões de crédito que os administradores do banco resgatado Bankia (pela módica quantia de 22.424 milhões de euros) andaram a fazer durante anos para uso pessoal (sem pagarem impostos sobre isso, ou informarem o Banco de Espanha, as Finanças, a Troika). Uma fraude de 15 milhões de Euros. Entenda-se “uso pessoal” viagens, safaris, compras de supermercados, restaurantes, roupa de marca, mas também bares, pubs, bebidas alcoólicas, clubes, discotecas, levantamentos em multibancos de milhares de euros a altas horas da madrugada, lingerie, flores… Putas, amigos, putas. Alguns destes indivíduos defraudaram as contas públicas espanholas exercendo o mais execrável dos machismos, detalhe que a nenhum dos opinadores e entendidos profissionais de este país pareceu estranhar. Parece normal (ou pelo menos não censurável), portanto, que um homem de meia idade, ao ver-se com um cartão com um limite de milhares de euros nas mãos, se dedique a gastá-lo em putedo e derivados. Isto sim revela um carácter do caralho, de homem graúdo, entrar no puticlube com o cartão de crédito na boca para ir montar umas meninas, porque no fundo sabe que será aplaudido, invejado, congratulado com uma palmadinha nas costas, ah valente! Eu bem sei que o nível de corrupção em Espanha é de tal magnitude, que ir às putas não é mais que a consequência menor da nojeira ética instalada e que de quem pertence a uma casta que defrauda milhões em contratos falsos, tem contas opacas na Suíça, recebe suplementos do salário do partido em B, cobra comissões por requalificações de terreno público o menos que se pode esperar é que seja um ser amoral e desprezível. Mas não deveria deixar de ser motivo de escárnio público. Um gajo que vai às putas não é mais que um triste desgraçado que tem que recorrer ao dinheiro para ter sexo, porque nem para foder serve. E devem ser os homens que comecem a censurar os putanheiros. O tal #heforshe não é abraçar a causa feminista como algo abstracto ou defender o rabo da Jessica Athayde com comentários ai és tão boa, filha. É a reprovação de quem exerce o poder através da submissão e humilhação das mulheres. É fazer destes tipos a caricatura, não a cara da Renée Zellweger.



    Por Rititi @ 2014/10/28 | 5 comentários »


    A caricatura

    Não têm sido tempos fáceis para o universo feminino. Desde o Jessicaathaydegate, passando às fotos roubadas ao iCloud das famosas americanas, até à cara da miúda com problemas de auto-estima conhecida como Bridget Jones, o escrutínio mediático à mulher não nos deu ultimamente um descansinho que fosse, transformando assuntos menores, ou quanto menos privados, em protagonistas das nossas timelines e destaque nas secções de sociedade dos telejornais. Assusta-me a urgência com que todas as semanas temos de encontrar a notícia explosiva sobre uma mulher que se operou, virou gay, cortou a franja, sobreviveu heroicamente a um cancro ou é apontada a nova sensação das gordas sem complexos. A mofa à mutação facial da Renée não é gratuita. E não sendo recente tomou uma magnitude a roçar o pornográfico. O que antes se ficava num comentário anónimo à volta do café agora é amplificado por qualquer comentador anónimo, internauta, tuiteiro, blogger ou cronista, como se cada um de nós tivesse efectivamente direito a postar uma foto da cara da Renée, dizer que está maluca, que flipou, fazer um collage com as sucessivas injecções de botox, exagerando absurdamente a opinião sobre uma má decisão, talvez, mas uma decisão que é dela e que só a ela lhe afectará. Comentar a franja da Byoncé como se a nossa vida dependesse disso. Ir a correr ver os vídeos sexuais íntimos da Jennifer Lawrence (e achar que quem anda à chuva molha-se). Transformar o vestido de noiva da Angelina Jolie num assunto de estado. Os desgraçados dos meus Trambolhos são uns amadores comparados com o gossip desenfreado que nos invade. Uma coscuvilhice de facebook destinada a analisar, comentar, gozar e diminuir as mulheres, neste caso umas famosas que se põem a jeito, que se operam, que são notícia por estarem ali, na red carpet ou na capa de uma revista. O que se julga não é o carácter, nem a pessoa: é a caricatura. A caricatura que todas nós somos destinadas a ser, face à pressão, não já dos meios, mas dos comentadores histéricos em que todos nos estamos a transformar. Que a Renée Zellweger se tenha transformado numa personagem qualquer da Anatomia de Grey é só uma metáfora, a nossa metáfora de um mundinho de merda onde todos perdem uma boa oportunidade para ficarem calados e não parecerem uns cretinos.

     



    Por Rititi @ 2014/10/27 | 3 comentários »


    Não morri, tenho andado ocupada.

    Com a vida, com o banco onde trabalho há 14 anos e que se fodeu com a vénia dos que tinham a competência e o dever de evitar o seu colapso e a nossa vergonha, com filhos que desenvolvem com a idade uma surdez selectiva (ou então devo ter um problema na boca), com a mudança de empregada (e vão três num ano), com a puta da vida de gente grande. Mas eu ando por aqui, companheiros. Atenta às vossas letras. Às vossas inquietações e ao infindável número de grandes dilemas que cada dia ocupa os vossos blogues, estados de facebook e tuits apaixonados. Tenho lido pouco, ou pelo menos nada de jeito, fui ao concerto dos Extremoduro e vi de enfiada a série Fargo. Orange is New Black vale pelas gajas e por sorte começou a 5ª temporada do Walking Dead. De Homeland nem falamos. Também descobri o Observador, que não se esquece de me citar quando é preciso comentar assuntos sisudos que atormentam o nosso país (caso Jessica Athayde, é óbvio). Leio o Observador e gosto. Tem boas análises, crónicas bem escritas e até textos “must do” que tanto êxito têm entre os leitores apressados. O problema é quando me encontro com um texto sobre “Os 5 livros que tem de ler aos seus filhos” (que EU tenho de ler, atenção). Sinceramente  amigos do Observador, chateia-me o imperativo. Porque, segundo o texto, não basta ler-lhes: tem de ser antes de dormir. Para já, a primeira conclusão a que chego é que os meus filhos estão condenados à estupidez. Não conhecem nenhum dos livros recomendados, os desgraçados. A segunda conclusão, menos prosaica, é que a livreira recomendadora não deve ter filhos. Ou vá lá, deve ter uns filhos que são uns anjinhos, um conjunto de perfeições, umas santas alminhas que à hora de ir dormir estão em estado zen gravitacional e com os chakras todos alinhados. Ou então estão drogados.

    Eu sei que vocês que estão desse lado do iPhone a ler-me no autocarro são uns pais extraordinários e focados no desenvolvimento psico-emocional e intelectual dos vossos filhos; até estou convencida que os que ainda não são pais já sabem que para ser um bom educador é fundamental dedicação, literatura e amor, a ser possível depois do jantar e antes do beijo amoroso de boas noites, mas queridos pais, amadas mães, precisamente a essas horas a última coisa que o meu corpo me pede é sentar-me ao pé do beliche e ler-lhes Onde Vivem os Monstros com voz serena. A partir das sete da tarde há de tudo na minha casa menos momentos “afectivos, tranquilos e únicos”, que eu nem sei como somos capazes de sobreviver sete dias por semana a esse suposto “tempo de qualidade”. A única qualidade real que conheço é a a dos meus berros quando os chamo para a banheira. Sim, amigos, o fim do dia é aproveitado para algo tão pouco gerador de boa onda como “banho-jantar-lavar os dentes-cama”, a um ritmo quase militar e com ordens que se repetem em média dez vezes: toma banho, não entornes a água que isto não é uma piscina, não metas o dedo no nariz do teu irmão, sai da banheira, tu também, seca-te, o rabo também conta, veste o pijama, está ao contrario, senta-te bem à mesa, fecha a boca, come a sopa, tira a mão da cabeça, põe a mão na mesa, o guardanapo não é um chapeu, não grites ao teu irmão, bebe o leite, não cuspas o leite, lava os dentes, os de lá atrás também, faz xixi, dentro da sanita já agora, beijo ao pai, beijo à mãe, deita-te, apaga a luz, o que queres, já bebeste água, mais um beijo, deixa de cantar, dorme, o que queres que eu faça se o teu irmão ressona, porra dorme, não tens  nada medo. VEZES DOIS. Imaginam por tanto a minha especial falta de vontadinha (e de corpo, repito) para todos os dias lhes estar a alimentar “a curiosidade”. Como se fossem ficar com a capacidade intelectual dum concorrente da Casa dos Segredos, incapazes de lerem as instrucções de um champô ou com medo dos livros. Poupem-me.

    Porque não há dia em que um jornal, revista ou blogue publique uma lista de tarefas sobre a educação dos meus filhos: alimentação biológica, música clássica, desportos alternativos, filmes que fomentam a tolerância, roupa ecológica, brinquedos sustentáveis, um sem fim de instrucções, porque eu lógicamente sozinha não atino. O mais certo é que acabem qual bestas, analfabetas, perdidas num mundo idílico onde todas as crianças devem falar várias linguas, nadar como campeões olímpicos ou conhecer um vasto leque de autores da literatura nórdica. No mínimo. Sem esquecer as actividades conjuntas, imprescindíveis para criar os tais laços íntimos e profundos com os meus rebentos, como reclicar caixas de sapatos que só me ocupam espaço e criam pó ou a confecção de bolinhos de arroz em bucólicas tardes de domingo. Não sei como é que ainda não me tiraram a custódia. Porque as crianças não podem apanhar secas sozinhas no quarto não vão sentir um tremendo vazio existencial.  Porque os pais temos de ser estupidamente pro-activos, divertidos, tenhamos resaca, sono ou uma hemorroide assassina. Porque isto cada vez mais parece uma puta de uma competição a ver quem é mãe mais original e o filho mais criativo. Depois a malta admira-se que os putos andam stressados. Estão é fartos de nós.

    (Já agora, o meu filho de 6 anos sabe ler perfeitamente. Em português e em espanhol.  Sozinho.)



    Por Rititi @ 2014/10/21 | 18 comentários »


    E porque já é verão, tomem lá um texto do meu último livro

    QUEM ROUBOU AS MINHAS MAMAS?

    31 de Julho. Cinco da tarde. Amanhã começam as férias. Tenho exactamente seis horas para ir à depilação, ao supermercado (com o objectivo de encher o frigorífico do apartamento no Algarve), atropelar cinco velhas, chegar a casa, fazer as malas, descobrir onde guardei as toalhas, as sombrinhas e as putas das cadeiras de praia; seis horas ainda para arrumar a casa, desejar a morte do meu marido e lamentar não ter dado para adopção os meus filhos quando eram pequenos, deixar notas à empregada (“não se esqueça de regar as desgraçadas da plantas”), dar a chave à vizinha para salvar as poucas jóias que tenho em caso de cataclismo nuclear e tentar­me suicidar com a corda de estender a roupa. Mas antes, porque a minha vida é este absurdo de pressas e lamentos, tenho que comprar o biquíni. Merda. Quando dou por mim estou dentro num cubíclo minúsculo no Corte Inglês, praticamente nua e cheia de pêlos, branca e com a pele por hidratar, com um foco de luz que me potencia as estrias, as dobras da barriga, a celulite das pernas e as minhas tristes e miseráveis mamas. Oficialmente, declaro este dia como o mais deprimente do ano. Considero, até, apanhar um avião para a Arábia Saudita e comprar um burkaquini, que me tape, me esconda. Ou então mudar o destino de férias para a Lapónia. Ou até cancelar as férias e deixar­-me estar escondidinha em casa, como uma freira de clausura até à chegada do inverno polar. Qualquer coisa que não me obrigue a enfrentar (a mim e ao mundo) com um corpo que não me pertence, que alguém trocou algures nos meus trinta e poucos e que só hoje, na secção de lingerie feminina de uma grande superfície comercial, me dei conta. Desculpem, mas este não é o meu corpo, não pode ser. Estou enfiada num biquíni que deixa bem sublinhado que não tenho 20 anos. Como é possível? Quando é que isso aconteceu? Quando é que cresci (em todos os sentidos)? Ainda ontem estava fabulosa, magra, rabo duro e mamas alvo de inveja e desejos a partes iguais e agora… sou uma lontra! Cabrão de biquíni este, que me esmurra com cada uma das minhas imperfeições e que, por muito que a funcionária competente da loja teime em mostrar­-me dezenas de modelos, insiste que as minhas mamas, antes vigorosas e potentes, se transformaram nuns sacos vazios, fofos e tristes, incapazes de se aguentarem dentro de um sutiã fabricado para fazer brilhar peitos juvenis e felizes. Merda, merda e mais merda. Compro um fato de banho de gola alta e desejo que chova todos os dias de Agosto.
    A vida pode ser miserável quando as nossas mamas não nos acompanham, quando o nosso corpo decide fazer anos e nós não, quando a imagem ao espelho não corresponde às nossas melhores previsões. Devia ser proibido. Temos quase 40 anos e o reflexo no espelho diz-­nos que o nosso corpo é o de uma senhora de 50 anos. Normal. Ninguém sabe como é o corpo de uma mulher com mais de 35 anos. Eu, pelo menos, não faço a mais pequena ideia, sobretudo quando toda a publicidade para as mulheres da minha idade é protagonizada por miúdas de 20. Marcas de cosméticos que usam modelos acabadas de sair da adolescência para vender cremes fortalecedores para os peitos são, no mínimo, um insulto à minha inteligência. Mas caio sempre na mentira. Todas caímos.
    Queremos acreditar que o brio das mamas da criatura do anúncio é fruto do trabalho de brilhantes engenheiros químicos após anos de árdua pesquisa – e não a natural consequência de ter 20 anos. Estúpida de mim, estúpidas de nós que nos deixamos sentir tristes, velhas, acabadas e a correr para comprar o creme de cento e tal euros que, obviamente, nem nos fortalece as mamas, nem nos tira a idade e muito menos os efeitos da amamentação, da gravidade e da vida em geral. Somos tão inocentes, tão crédulas, que ficamos arrasadas quando as revistas femininas publicam uma fotografia da Heidi Klum na praia com a maléfica legenda “fabulosa aos 40 após ter dado à luz 4 filhos”. E nós, deprimidíssimas, porque depois de um único filho pareceríamos uma baleia se nos fotografassem ao lado dela (estejam descansadas, jamais estaremos ao lado da Heidi Klum). Como é que a Heidi consegue e nós não? Como é possível ter a pele tersa, os abdominais duros, as mamas no sítio? Fácil: porque a Heidi tem estilistas, porque fez uma operação às mamas, porque se injectou de botox, porque faz mais ginástica num dia do que nós num mês inteiro, porque Deus nosso senhor lhe deu uma genética à prova de anos e PORQUE ELA É MODELO, porra! O trabalho dela é esse, estar magra, fabulosa. Caso contrário, não arranja trabalho! Se uma médica depois de parir se esquecesse de tudo o que estudou na Faculdade de Medicina também era capaz de perder o emprego, não acham? Mas em vez de nos insurgirmos contra esta falácia, de fazermos boicotes a este discurso que nos ofende chamando­-nos gordas, flácidas ou velhas, decidimos embarcar e achamos que normal é ter o corpo da Luísa Beirão e não o nosso, e ficamos tristes com as nossas mamas, o nosso rabo, a nossa horrível existência.
    Basta! A sério, chega. Por sanidade mental, há anos que não compro uma revista feminina. Em cada página sinto­-me tratada como uma profunda imbecil: dietas rápidas, cremes de última geração, terapias de choque, ginástica enquanto se sobem as escadas, as últimas colecções (a preços desorbitantes) – tudo para parecermos muito mais novas, como se a idade fosse uma ofensa, ou pior, uma doença. Não nos basta ser gordas (sempre), pobres (obviamente), enfadonhas (claro), ainda por cima somos velhas! As revistas, a publicidade, a exaltação das figuras públicas… Parece que o mundo ficou doido e, de repente, estamos à beira do degredo físico! Como se não bastasse já o nosso quotidiano, a gestão das nossas expectativas, o salário que não chega, os putos que ficam doentes a meio da semana e não temos a quem os deixar, um marido que só vemos ao final do dia, um emprego que nos obriga a cair da cama ainda de noite, ainda temos que levar com a conversa que somos uma merda? Vão­-se foder. Reparem nas capas das publicações, no discurso paternalista, na insistência em nos definir pelo que parecemos e não pelo que somos, pelo que construímos, pelo que amámos. Não dá, esqueçam. Comigo não gozam mais.
    E de volta às minhas férias no Algarve, visto o fato de banho de gola alta que me aperta nas virilhas recém­ depiladas e ainda em carne viva. O meu gajo, quando me vê nesse preparo, pensa: “Quem és tu e porque razão sequestraste a minha mulher?” Afinal, parece que o burkaquíni me fica mal como um corno. Pior: além de feio, de me fazer mais gorda e de me esmagar as mamas, dá­-me imenso calor. Estou tão desconfortável, tão apertada, tão pouco ágil que ao terceiro dia troco­-o pelo meu velho biquíni onde as minhas mamas balanceiam felizes e a minha barriga habita relaxada depois de ter emborcado três imperiais no restaurante “O Manel”. Olha, caguei. À minha volta, na praia, mulheres da minha idade passeiam as suas banhas nas ancas, passeiam sem complexos os seus rabos que tiveram dias melhores e as suas carnes até há pouco apertadas, todas elas maduramente satisfeitas (ou conformadas, vá), a correr atrás dos filhos à beira mar, a fazer castelos na areia, a ler a Caras nas suas cadeiras de lona. Estas são as mulheres perto dos 40 anos, mulheres cujos corpos são o reflexo de uma vida, não de um conceito de beleza irreal que não inclui partos, horas com o rabo pegado à cadeira no escritório, noites a acordar cada duas horas por culpa de uma virose infantil, assaltos clandestinos ao frigorífico a meio da tarde, sapatos que magoam os pés, amantes esquecidos, maquilhagem que não se limpa por excesso de cansaço, enfim, de uma vida que nos faz sentir seguras e sexys quando estamos vestidas.
    As nossas mamas estão desinchadas, o nosso rabo caiu, a nossa pele tem celulite? Sim, e depois? O que esperávamos? Se isso vos preocupa, martiriza, têm bom remédio: operem­-se sem complexos, sem medos e com todas as consequências; submetam­-se a tratamentos com choques eléctricos, injectem­-se de botox, matem-­se no ginásio, façam transfusões de sangue. Outra opção, mais barata e menos dramática, é ir aprendendo a aceitar no corpo o passo dos anos, conhecendo os pontos fortes e potenciando­-os, relativizar (cada dia mais) as imperfeições e, sobretudo, gozar a vida sem histerias, mais próprias de adolescentes complexadas do que de mulheres maduras. Eu opto pela segunda opção. Prefiro ganhar calorias a perder um belo prato de caracóis. Acho que já tenho idade para ter juízo.
    (In “Manual de Instruções para Sobreviver aos 40, continuar sexy, com alguma vida sexual e não parecer uma lontra”. Edições Cego Surdo e Mudo)



    Por Rititi @ 2014/06/29 | 4 comentários »


    Callar Madrid

    Madrid no respeta el silencio. Vocifera en los bares, en las puertas de los hospitales y de los colegios, en las estaciones de metro y en las esquinas donde los amantes buscan esconder sus besos. Las calles amplifican el rastro de los coches, de las motos, de los autobuses, en un murmullo chivato, como si fuera obligatorio dejar tatuado en los oídos el paso cansado de la vida ajena. Madrid no guarda secretos, toda la ciudad es testigo de un susurro enamorado, del lloro del niño, del número del cupón que nunca ganará la lotería, de la llamada telefónica, de la vida agotada de los que la habitan. Madrid no calla ni en Las Ventas, rodeada que está de avenidas, vendedores ambulantes, bares, mierda de perro, banderas, casi desgarrada por una M30 donde rugen urgentes el tráfico y los horarios apretados. Invaden la plaza las prisas, las críticas y sus ruidos y entre vasos de whisky y cigarros mal apagados se repiten a cada tarde los paseillos y las rutinas taurinas. Sí, la Feria de San Isidro es un ritual, pero a Madrid le cuesta dejar fuera de la plaza el e-mail al cliente y el recado a la asistenta, porque en esta ciudad la vida nunca se queda al otro lado de la puerta. Tal vez a Madrid le duela el silencio, tal vez sea una responsabilidad que no quiera asumir, enfrentarse así a su propia conciencia. Cuando Talavante, en esa tarde de Santa Rita, se plantó, señor de su faena, allí en los medios, en los tendidos de Las Ventas se pedían más cervezas y menos artistas. Ruido, mucho ruido, de un público habituado a la mediocridad y la vagueza. Pero entonces, sucedió. Silencio. Algo tan sencillo como una mano izquierda, algo tan hermoso como unos naturales largos y templados, como dibujados en el aire por un dios inventor del toreo. Silencio. Un modo honesto de entender la faena. Quietud y hondura. Al final a Madrid se le silencia así, con honradez, con serenidad, con inteligencia. Y todo lo que parecía imprescindible antes, todo el run-run y el murmullo, toda la impaciencia de la vida allá fuera, se desvaneció, se vaciaron las gargantas irascibles, a nadie le importó lo que podría suceder al otro lado de la puerta. Por una vez la belleza calló a la bestia enfurecida. Y Madrid, durante los minutos que duró la preciosa faena de Alejandro Talavante ese 22 de Mayo, pudo descansar un poco. El llanto del niño dejó de escucharse, ya a nadie le importunó el precio de los billetes de lotería, no pasaron los coches en la M30. Y los amantes incluso pudieron besarse en una esquina clandestina sin que a nadie pareciera importarle.



    Por Rititi @ 2014/05/27 | 3 comentários »


    Sempre

    Hoje, há quarenta anos, a história do meu Pai mudou para sempre. Depois desse 25 de Abril a preto e branco o meu pai soube da decepção, da vida no exílio, dos atentados, da impotência, da dor de não abraçar a mãe, das saudades do cheiro da terra. Morreu cedo demais para perceber porque pegou nesse tanque em Estremoz e tomou a PIDE, por que valeu a pena honrar com um golpe de estado toda uma geração perdida nas guinés e angolas que agora já ninguém recorda. A ele que um ano depois numa carta de duas folhas disse que assim não, que Portugal não merecia desperdiçar-se nas mãos de gananciosos e miseráveis aduladores da liberdade, deve ter-lhe custado assimilar o fracasso dos homens. E agora, neste meu país infestado de supostos patriotas, imbecis que adoram hinos, neste Portugal dele onde qualquer banco viola a bandeira para vender produtos financeiros, se estivesse vivo, rodeado de traidores que se enriqueceram vestidos de sindicalistas e meninos de papá que votam por sms no Salazar sem sonhar o que é viver numa ditadura e morrer na guerra, tenho a certeza que voltaria a pegar nesse tanque, honroso da farda. Quando releio essa carta, a da deserção de 75, a que nos levou a todos em viver em hotéis e a ter guarda-costas, vejo um homem digno, profundamente democrata e entregado ao País, que se levantou da cama e da burguesia para democratizar um Portugal analfabeto, mutilado em África, estupidificado pela solidão e o fado. O que aconteceu depois, a manipulação dessa ousadia, o roubo de terras e a estupidificação do povo faminto nada tem a ver com essa madrugada esperançosa.
    Por isso, se me repugna a apropriação da esquerda da luta pela liberdade mais ainda me enoja esta onda pós-moderna dos betinhos da direita, que ofende com o seu desprezo e falta de patriotismo estes homens, capitães e jovens, que num dia como hoje, há quarenta anos atrás, só quiseram um país melhor. 25 de Abril, para sempre não, mas hoje sim.
    (Re-post antigo)



    Por Rititi @ 2014/04/25 | 3 comentários »