Quarta-feira, Março 24, 2004

Querido Blogue,

Frágil, esta noite estou tao frágil e assim que chego a casa deposito-me no sofá a lamentar-me. Nao sei muito bem de quê, mas concentro-me neste meu estado de espírito a atirar pró suicida e tento disfrutá-lo ao máximo. Ai eu, mas assim que me despisto começo a mexer nos pelos das pernas e distraio-me com a imagem da depiladora Claudia. Ora que grande merda, nem para depressiva sirvo. Trato logo do assunto e ponho a Mariza a cantar, tentando que o fado me mantenha com esta lágrima fácil que tanto bem me faz à pele, mas nao dá. Lembro-me logo que a areia da gata está para limpar há pelo menos três dias; se calhar é por isso que nao se cala.
Que Mundo malvado, que nem permite umas horinhas de espontânea auto-comiseraçao ao gajedo trabalhador.
E isso que há uma data de complexos, doenças e traumas a que uma gaja se pode agarrar numa hora destas. Édipo, Peter Pan, tensao menstrual que me inferniza antes, depois e durante, um rabo que balança (obrigada, meu amor, pela alembradura), o calo do pé esquerdo imune a todos os ácidos existentes no mercado farmaceutico, o stress pós-compras compulsivas, as adolescentes de mini saia que me recordam que eu estou quase nos trinta e elas nao.
Cá por mim que o que eu tenho é Complexo de Pandora, que nao deve existir mas que a mim fica-me a matar. Uma caixa que se abre com anuncios das fraldas multi-task e interactivas ou, mais recentemente, com a verificaçao que as minhas férias se resumem a trinta dias naturais que devem incluir três fins de semana que por lei se mantêm dentro de um esquema tridimensional e socio-equitativo. Tudo isto carimbado e validado num acordo de trabalho que pelos vistos assinei e nao me lembro.
Se isto nao é para arrancar as veias à dentanda entao que me internem.



(Maitena, no seu melhor)

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