Querido Blogue,
"Se um gajo for agnóstico mas não praticar, em que é que se converte?”. É o que dá ter um marido que lê os clássicos russos por princípio moral, o coitado tem destas dúvidas filosóficas que nem respeitam o domingo nem nada. E é que para nós o domingo tem o mesmo valor que para os católicos, meio místico e respeitador do silêncio, só que sem missa, com os jornais da semana espalhados pelo chao e com menos perfil evangélico-procriador. E claro, quando o meu amor tem crises destas, a mim o coraçao fica-me como partido pela metade e só tenho uma opçao: ignorá-lo e continuar a ler a Hola. Porque quando me casei jurei muita coisa, mas aturar problemas vitais à frente dos ovos mexidos e do El País nao estava incluido no contrato. Nos dias de correm as esposas temos que ter os nossos deveres conjugais muito claros.
Porque a mim muito me custou estar onde estou, e nao penso abdicar dos meus direitos constitucionais, entre eles a leitura dessa grande Biblia da classe média, a Hola. Rainhas, desencontros, vestidos de noite, casaronas e archiduquesas milionárias, há uma fauna out there que me fascina e ainda me faz acreditar que os milagres existem.
Num mundo cheio de desgraças e gente pobre, que alegria ver a Letizia agarrada do braço da real sogra, que amigas e que sinceras! É o que acontece quando uma se casa com a aristocracia, que as coisas fluem naturalmente e nao como no meu caso concreto, que com a minha sogra a relaçao mais parece um orgasmo fingido.
Ah, a Letizia, de siricaia a rainha! Estou convencida que ela também era das que decorava a Hola na intimidade do lar, enquanto pintava as unhas dos pés e tratava dos calos jornalísticos. Entre borbulha esprimida e pelo arrancado sonhava que chegasse um principe que a tirasse da mediocridade do extra-radio madrileño. E de ter que trabalhar para comer, que continua a ser o grande fardo do mulherio com expectativas. Claro que com aquela ambicao toda, à Letizia nao lhe bastava um principe como os outros, metafórico e de classe média. Nem daqueles sem trono nem património, do género D. Duarte. Tinha de ficar com o real one, alto, rico e com coroa. La muy puta.
Mas que nao se leia aqui invejinha da porca, que estou muito bem com o que me tocou a mim na rifa dos solteiros. Pelo menos nao me perseguem os fotógrafos, o que de certa maneira também é injusto, que eu tenho muito jeito para acenar e mandar para fora um sorrizinho amarelo. Deve de ser da experiencia com a minha sogra.

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