Terça-feira, Maio 25, 2004

Querido Blogue,

Uma vez ultrapassado o trauma da boda, dos vestidos bordados em ouro, da transformaçao de Madrid numa Jerusalém blindada, enfim, de volta à realidade citatina e chuvosa, eu cá me reencontro com os meus eternos traumas civilizacionais.
Porque uma coisa é ter a ¡Hola! como bíblia sociológica e outra cair na futilidade espiritual. Cada um com a sua paranoia, e talvez porque a semana se apresenta televisivamente medonha sinto-me mística, elevada, tipo Santa Teresa de Jesús, mas sem visoes apocalípticas. Deve ser da falta de psicotrópicos, de certeza.
Assim que com esta espiritualidade urbana e renovada enfrento a nao-chegada do cabrao do verao, com os olhos postos no verdadeiro problema do mundo: a falta de fé.
Quais alcaedos, quais fotos do iraque, quais problemas orçamentais! O mal desta sociedade espectáculo-dependente está na falta de um sentimento religioso verdadeiro. Que saudades desse antigamente do interior profundo, quando tudo se resolvia à base de parlapié no confessionário. Bateste na vaca da tua mulher? Duas avemarías-puríssima-sem-pecado-concebida e lá ia o TóMané todo contente da vida, convencido da sabedoria infinita do sinhor, pásdastantas, só cá estamos dois dias, nao vale a pena andar com grandes dilemas de consciência. Ó senhor padre, tive pensamentos impuros, ai sim, filha? conta lá e alegra-me o dia e o ouvido, que isto anda pobre de meninos, e vai lavar essa boca porca em agua benta, sua ordinária, e já podes ir de joelhos à eremita da aldeia redimir os teus pecados.
Agora, com tanto nihilismo ocidental, com tanto questionamento das básicas regras de comportamento europeo, sou confrontada com novas perspectivas religiosas e eu, por ser de Estremoz e tipicamente conservadora, sinto-me orfa de espírito. O meu amor, ao ver-me assim tao desolada, anima-me comprando dêvêdês do sexo e a cidade, mas a mim, misticamente, nao me chega.
Porque, como vou eu encarar o duro dia a dia se a unica referência trascedental que é admitida pelos esquerdalhos anticlericais é o Paulo Coelho? Como posso sobreviver neste vale de lágrimas, se mataram a virgem, a cruz e os sinos das igrejas? Devo converter-me ao budismo, essa treta ecologista? Ou talvez tenha que a alinhar os shakras e respirar como se fosse parir um elefante? Faço de conta que sou fixolas e compro livros de auto-ajuda para fumadoras grávidas no Extra da esquina? Ou dedico os meus tempos livres ao yoga mental e à posiçao do gato cagao?
Mal devemos andar, pá, se agora, por vergonha de nós próprios, precisamos de nos agarrar a estas religiosidades flutuantes para alcançar uma certa paz mística.



Porra, onde será que meti o tabaco?

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