Quarta-feira, Junho 02, 2004

Querido Blogue,

Os anos passam, os vestidos vao ficando (cada vez mais) justos ao corpo, e o relógio biológico, tic-tac, tic-tac, o arroz que se passa, tic-tac, tic-tac, e as crianças na rua que se reproduzem como cogumelos, bolas, quando eu tinha vinte anos nao havia tanto bebé nos parques, tic-tac, estás a ficar velha, tic-tac, nao queres ser mae, já ficaste grávida, de boa esperança, à espera, tic-tac, agora que casaste, tic-tac, que bonito que seria ter um filho, tic-tac.
Que pressao, dasse, lá por ter os ovários em pefeito estado já sou encarada como uma vaca parideira por esta sociedade acomplexada pela baixa natalidade e pelos modelos familiares a respeitar. Sinais dos tempos modernos estes, e eu, tic-tac, toma lá com anuncios de fraldas e carrinhos de bebé com ABS de serie incorporado, só para o caso de te esqueceres da tua obrigaçao natural, encher este mundo de putos cagoes a reclamar chupa-chupas, pipocas cor-de-rosa e estudos universitários.
Tic-tac, tenho uma vontade louca eu de engordar vinte quilos e que me rebentem as varizes qué pá qué. E de estar seis horas no parto de perna aberta, a expulsar um ser de quatro quilos enquanto me racham as partes mais sensíveis do corpo. Tic-tac. E de ser acordada todos os sábados às sete manha com cheiro a merda verde e peganhenta que nem te conto. E de trocar os meus neurónios por conversas de vómitos, percentís elevados e pediatras esquizofrénicos. Tic-tac. Adoraria ver cinco milhoes de vezes o rei leao e o primo urso e peixe nemo, e ir de ir à praia carregada de sombrinhas, paletes, cremes e lanches. Uff, porra pró tic-tac escravizante…
Tic-tac, que me desculpem o mundo, as taxas e os subsidios de procriaçao, que me perdoem a familia e o estado de direito, que eu ainda nao tenho capacidade emocional para me transformar numa MAE, no roll model, na explicaçao a todos os complexos futuros no psicanalista argentino, na encarregada de educaçao e das reunioes da escolinha do menino.
Tic-tac, que eu cá vou vivendo como mulher da maneira que bem me praze, carregando este meu tic-tac que me faz babar-me toda ao ver vestidinhos com laçarotes e tocar-me a barriga e imaginar o quartinho do bebé. Tic-tac fodido este.

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