Quarta-feira, Julho 07, 2004

Ode às tardes estivais

Estendida no sofá conjugal de cabedal, perna morta e ligada emocionalmente ao ar condicionado, que bem que se passam as tardes na soporífera Madrid pré-ferias helénicas (apesar da derrota). Por muita capital ibérica, muito passeio do Prado, muito Thyssen- Bornemissa que tanto encantava os tugasinhos que vinham à cata das rebajas no Ikea e o caraças, há sempre espaço para o tédio e nisso eu sou a perita por excelência, que esta capacidade que me deram os deuses para desperdiçar o tempo até a mim me espanta.
Quantas empresas deveriam contratar-me para ensinar os executivos stressados a relaxar enquanto espremem as borbulhas na casa de banho! Porquê o Estado continua a ignorar os benefícios dos domingos a pastar com os episódios duplos de Rex, o cao polícia? Já que estamos nisso, já se fez algum estudo sobre os danos causados pela nao renovaçao da Buffy, a Caça-Vampiros, no karma dos ressacados nacionais? Dúvidas que me assaltam…
E eu, dividida entre a urgência de pôr em práctica a necessária operaçao bikini e a paz espiritual que me dao Las Aventuras del Joven Superman, opto por deixar-me levar pela preguiça estival, sempre na horizontal e agarrada à Vogue ediçao de Julho. Interessantes reportagens, diz-me o meu amor, a ignorância masculina para a moda mundial tem destas bocas, mas eu continuo na minha, ao ritmo do meu gin tónico com pipocas, nova descoberta em lanches caseiros. Nada conseguirá afastar-me das tendências para este verao, juro pela minha nova dor de rins, e lá subo o volume à voz da Cecilia Bartoli, que feliz que estou, embalada pelo álcool e as cançoes de Vivaldi, meu amor, serves-me mais um copo?
Que fácil que é viver de cuecas na sala, passo à página seguinte, quase a atingir o êxtase quando me topo com as sandálias da Gucci que sempre aparecem nas minhas fantasias mais ocultas. Mas nao, o holocausto chega pela minha janela via pátio interior, pelos vistos nao sou eu a unica a chegar ao orgasmo! Quem, meu deus, é essa vizinha cujos gemidos estereofónicos derrumbam a minha calma interior? Quem se atreve a vir-se publicamente à hora do meu tangarai com tónica e limao, interrompendo a intima elevaçao mística com tal gritario vaginal?
Meia hora, hora e meia, e a queca que nunca mais acaba. Destruido o meu retiro, entrego-me ao passatempo preferido da classe média: a cusquice. O meu amor aposta no sexo em grupo, mas eu cá nao ouço gajo nenhum a partilhar com a vizinhança o gozo sexual. Será um filme? Um vibrador com as pilhas do coelho da duracell? Nao resisto, vou à janela. Quem é, quem é?
Nao somos os únicos a espreitar o sexo dos outros, que engraçado, está tudo debruçado no parapeito.
Nao descubrimos a mulher mais satisfeita do Universo, mas as relaçoes com o casal da frente melhoraram muito desde esse dia. E ficámos a saber que a pianista do 3º-D vai mudar de casa. E que os putos do primeiro andar fumam às escondidas da mae. E que a gaja do segundo usa tangas amarelos.
Quem disse que as tardes no sossego do lar eram chatas?

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