Que hoje não me falem da escolha do Sampaio. Quero lá saber da lagriminha infantil do Ferro Rodrigues, dos futuríveis do Santana, da birra da Ana Gomes. Caguei para a ilegalidade do muro do Sharon, para os mortos de Israel e a comissão do 11-M. Quero lá saber das mulheres maltratadas, das mortes na estrada e dos tubarões da Austrália. Que se foda o mundo e a SIDA na Ásia, as eleições do Real Madrid e a ida do Deco par o Barça. Até o facto do meu carro ter sido possuído pelo espírito do Lorenzo di Medicis e agora só apanhe rádios italianas me deixa indiferente num dia como hoje.
Há um ano, num outro 12 de Julho, casei-me.
Há um ano um padre de esquerdas foi a sensação da festa e essa noite mais de um velho casal voltou a encontrar-se debaixo dos lençóis. Há um ano a minha mãe, linda de azul e felicidade, foi proclamada musa da comunidade gay por dois costureiros panascas que ignoravam a noiva e a sua criação. Há um ano o Alentejo acolheu uma comitiva internacional que causaria inveja a qualquer organizador de conferências e falava-se um português com sotaque estranho, mistura de Espinho, vodka e algum engate precipitado. Há um ano um vento cabrão quase que me arruína o jantar e a paralisia facial, tal a histeria e o nó no estômago, afinal a gente só se casa uma vez.
Há um ano a minha sogra ficava parente do meu pai, que orgulhoso me levava do braço até aos meus amigos mais queridos vestidos de gente séria com gravatas e saltos altos. Há um ano, ao som de Purcell, os padrinhos eram a confirmação do amor sem fronteiras ou como o Erasmus é mais que um intercâmbio de conhecimentos. Há um ano as irmãs, as solteiras mais bonitas, liam poemas de amor e nem São Paulo deixou de ser romântico entre tanta flor e familiares chorosos. Há um ano vi todos os que faltavam e os que estavam davam as mãos num aperto que continha saudades e memórias de outros tempos. Há um ano um bolero abriu o baile e as avós voltaram a ter vinte anos em sapatos cómodos. Há um ano dançavam apaixonados os meus pais, lembrando a menina que não se queria casar e rezando para que a minha irmã demorasse anos a encontrar o amor da vida dela.
Há um ano eu disse que sim, que queria ficar com ele até que a morte batesse à porta, que queria envelhecer ao lado do meu homem e partilhar filhos, dores e penas, que o amor resiste até à dentadura postiça. Há um ano trocámos alianças, moedas de prata e uma vontade infinita de estar juntos. Para sempre.
Há um ano casei-me e a minha vida é melhor e mais feliz.

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