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Rititi

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INÍCIO

  • querido blogue o povo ama me que eu bem

    Querido Blogue,

    O Povo ama-me, que eu bem que reparo nas mostras de carinho assim que ponho o pé direito na rua às oito e um quarto da manhã. Como a nova Lady Di da zona Centro madrilena, é assim que me tratam os populares, mais eles do que elas, claro, que para isso as senhoras espanholas são muito mais discretas nos seus elogios a terceiros, sempre que não se trate do macho-man Júlio Iglesias. É que não há rival para esse maravilhoso baloiçar da mão esquerda ao ritmo de “Tropecé de nuevo com la misma piedra” no Festival Internacional de Benidorm, a César o que é de César e ao Júlio os mocasins vermelhos e sem meias.

    Para o meu público sul-americano mais fiel, que se posiciona religiosamente à mesma hora nos andaimes das obras do prédio ao lado do meu, entre cimento, gruas e bocadillos de jamón, há exigências muito claras que eu tenho que cumprir para continuar a ser considerada a top total do meu bairro, o ícone da gaja boa. Pelos decibéis emitidos, gostam mais de mim com decote pronunciado do que com uma reles camisa, e sinto como os aplausos são super efusivos cada vez que me lembro de vestir a mini-saia justa da levy’s. Do mais observadores, oyes, não há nada que se lhes escape a esses pequenos peruanos sem papéis e com família para alimentar. Agora compreendo o stress dos famosos das revistas, porque para não defraudar as expectativas tão elevadas dos meus dedicados fans passo horas a olhar para o armário, com a consequente bronca conjugal, porque o meu gajo não acha nada simpático que o acorde a meio da noite com crises estilísticas provocadas por outros homens, tal é a pressão com a que vivo!

    E é incrível como se espalha a palavra neste Madrid, e isso que é Verão e está tudo em Alicante a dançar a Macarena. Pelos vistos os meus aduladores falaram de mim a anónimos e agora não há trolha que não gabe o meu estilo: tía buena, niña hay que ver que culo, madre de dios que poderío, pisa, pisa con garbo… Uma maravilha, não há ego que resista a esta explosão de amor verdadeiro e sem ânimo de lucro. Não sei do que se queixam as feministas, com o bonito que é que nos façam sentir desejadas de uma maneira tão altruísta. Aliás, estes simpáticos elogios só potenciam o estreitamento dos laços entre os povos e a aprendizagem de línguas estrangeiras. Eu, quase sem esforço, já sei dizer “ó caralhinho ta foda” em ucraniano, que para mim é um grande passo civilizacional, já queria o Fórum de Barcelona favorecer assim o diálogo entre as raças do mundo!

    Não há dia na minha vida madrilena em que os homens não aplaudam os atributos que Deus me deu, por não falar das vezes em que corro como uma maluca para apanhar o autocarro, o balancear da minhas mamas provoca nos transeuntes verdadeiras explosões de fé no Ser Supremo: Dios Santo, qué melones! Até os apressados executivos esquecem por momentos as curvas de balanços para observar como a minha dianteira põe em causa a lei da gravidade, pá que veas tú.

    Tudo faço para alegrar o meu Povo tão amado, por isso não poupo esforços nem esmolas ao meu mendigo favorito da Puerta del Sol; é que por muito indigente que seja tudo farei para continuar a usufruir dos piropos mais autênticos da cidade. Afinal de contas, não é todos os dias que nos dizem “niña, que estás más buena que la cocaína!”. Nem que me arruíne toda, mas esse homem seguirá vivo, na esquina com o Metro, à pala de vinho, drogas y lo que haga falta!



    Por Rititi @ 2004/08/23 | Sem comentários »

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