Terça-feira, Agosto 10, 2004

Querido Blogue,

As minhas amigas fufas, super devotas elas da depilação brasileira e do movimento de anca do Ricky Martin, entre viagens ao Brasil e compras de ultima hora no Mercado de Fuencarral, ainda arranjam tempo para assistir às anuais reuniões internacionais de feministas, que pelos vistos é dos sítios onde melhor se engata nestas alturas do campeonato lésbico. Enfim, sinais dos tempos, troca-se o romantismo do soutien queimado pela esfrega da mama de silicone, que as minhas amigas bem podem ser fufas mas de estética sabem muito. E elas, que comigo se confessam porque sabem que não há segredo que consiga guardar, estavam em estado de choque total, assim como estupefactas do ego feminino, fora de si e muitos mais etecéteras que impliquem surpresa. Um fim-de-semana em contacto com feministas portuguesas e quase que dissecavam a fufice, tal o espanto causado pelos discursos das lusitanas.
Coitadas, estas fufas espanholas, tão habituadas a uma vida de delírio igualitário, que quando são confrontadas com a pequenez mental do grelame luso nem se acreditam no que ouvem. E eu, claro, toca de explicar que não, que por Portugal no que calha a igualdades as coisas ainda são a preto e branco, dois canais e missa diária. Que o feminismo é coisa que por cá não foi assimilado como no resto desse mundo global.
Que uma gaja estude e trabalhe, pague impostos como um homem e mude o óleo ao carro com as próprias mãos sem medo ao estrago da manicura, que fale em público vestida de gente séria e exerça por esse mundo fora de directora geral é uma coisa, que para isso foram escritas a Constituição e as leis penais, mas no mundo privado, de portas para dentro, a cantiga é bem diferente. E isso as minhas amigas fufas não percebem, não atingem que dentro de casa a mulher trabalhadeira se transforme nessa esposa perfeita, jantar pronto e os meninos com banho tomado e na cama depois do tele-jornal e conta lá meu amor, como correu a reunião com os camionistas, espera só que arrume a cozinha, estenda a roupa e deixe um recado à mulher-a-dias, queres um conhaque enquanto vês o resumo dos melhores golos da liga sueca?
Porque há duas mulheres ainda em Portugal, e não há convénio laboral que se oponha a que a mesma funcionária seja depois a mulher privada que os homens sempre quiseram e que as gajas adoram ser, a irrepreensível dona de casa, a que nunca envergonha o maridinho, com o frigorífico cheio e a exuberância de outros tempos bem guardada, que para isso te casaste, para te comportares como a senhora que a tua mãe sempre foi. Cruza as pernas, senta-te direita, não rias muito alto, ele sempre tem razão à frente dos amigos, melhor fala só de compras e saldos, escolas e vómitos dos meninos, sim meu amor, não quero beber nada e quando te apetecer, deixa-me em casa para ires às putas com os teus colegas.
Pobre Portugal, quando a mulher ainda se agarra com a vida ao machismo mais ostracista, elas que têm medo de perder essa identidade de avental e a loiça lavada, papel que tão bem assentou durante séculos e agora, que fazem elas? Como levar essa vida dupla, de reuniões de manhã e cigarros com os colegas, elas que querem demonstrar ao cônjuge que afinal também são as ideais gestoras da economia doméstica? Como conjugar o passado de solteira e bezana ao fim de semana, festas universitárias e engates de madrugada, elas que agora aspiram à família numerosa e ao crédito habitação? Apagando da memória os anos passados, a gaiata gira e bem disposta que um dia foram, e negando-se a acreditar que outra maneira de viver é possível.
Fodido, este Portugal, em que as próprias mulheres se defendem frente aos avanços dos tempos com a desculpa desse role que no fundo lhes incomoda, mas que lhes assegura queca semanal e reconhecimento social, que é o que importa, senhora de e sem apelido de solteira.
Não admira que as minhas amiga fufas tenham cancelado o feriado em Lisboa
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