Querido Blogue,
À falta de praia, country club ou piscina no telhado, o jovem casal Pinheiro aproveita o fim-de-semana de Agosto para emigrar para a serra, como qualquer contribuinte madrileno, em bicha na auto-estrada e sem complexos de classe média. Depois do que eu passei para obter este bronzeado, horas debaixo do sol grego ao ponto do cancro da pele, nem que me tenha que besuntar com óleo para fritar batatas que por cojones me mantenho morena até a chegada da infelicidade do Outono. A minha pele há-de cair quando o fizerem as folhas das árvores do Paseo do Prado, a Dios pongo por testigo.
O meu amor, talvez possuído pelo espírito olímpico, ainda se atreve a propor uma manhã de desporto e expulsão de álcool do organismo, ó minha querida, não gostavas imenso de andar de canoa? Mas eu nego-me rotundamente, até que os cayaques não venham com cinzeiro e mini bar de série eu não me atrevo a por o meu corpo em tal instrumento do diabo, sabe Deus como sou alérgica ao exercício físico fora do leito conjugal. Uma vez tentei transformar-me numa exemplar jogadora de basquetebol e acabei expulsa em plena final universitária por fumar debaixo do cesto das adversárias. De nada serviu explicar ao árbitro que o único sítio possível para assistir a um jogo era à sombra e ao lado da musculada claque masculina. Coisas que acontecem quando se quer lutar contra a natureza humana. Lo que no puede ser no puede ser y además es imposible.
E deitada na relva sobre o meu pareo estilo Ibiza, óculos escuros de cem euros e um sentido do dever inquebrantável, o importante é ter a certeza que uma piscina nas montanhas bem podia ser uma praia das Caraíbas (das ricas, género Saint John, que para Republicas Dominicanas não fomos feitos os leitores de Gonzalo Torrente Ballester), ora tosta a mama, ora tosta o rabo, juro por os pelos da minha virilha que não voltarei a estar amarela.
Mas o ruído da família de suburbanos que me rodeia, com a avó celulítica a repartir tortilla de patatas aos netos mais parecidos à menina do exorcista, afasta-me maleficamente do meu sonho de verão. Se queres ficar morena sem ter vontade de te suicidares com uma overdose de cloro, o melhor é emulares o conde drácula e esconderes-te num ataúde de solarium, que os raios uvas sempre respeitam o silêncio de sábado pós-laboral.
Centenas de crianças demoníacas, berrando à volta deste meu corpo esculpido à base de gins tónicos, dão-me vontade de trazer de volta o meu tão adorado Rei Herodes, herói dos que prezam o descanso acima de todos os bens terrenos. Berros estereofónicos, atropelos à minha paz interior, pontapés ao meu calo, pior é impossível. Peço ajuda a quem está obrigado por contrato a tratar da minha saúde mental, mas já se sabe que quando um marido está concentrado num jogo de gamão fica automaticamente inutilizado para o homicídio infantil.
E as mães dessas pequenas feras? Porque não me livram de levar com bolas de voley na cabeça? Míralas, las muy putas, a fumar ducados como possessas, ignorando a minha infelicidade, nem o El País sou capaz de ler. E elas, felizes, para um dia que se podem estar a cagar para esses monstruinhos de meio metro não se vão estar a chatear. É para isto que se têm filhos? Para que os cidadãos que ainda vivemos num mundo ideal sem infantários e cáries infantil sejam infernizados até ao infinito? Para quando uma lei de protecção ao sossego, para quando valium obrigatório no cerelac? É hoje que arranco os ovários à dentada!
Ainda bem que o bar da piscina estava aberto. E que o restaurante argentino tinha mesas livres para jantar. Só um bife de chorizo, duas garrafas de vinho tinto e uma intoxicação de uísque com gelo me devolve à normalidade urbana.
E o domingo, passado em casa, não há quem me obrigue a aturar os filhos dos outros, cum caralho!

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