Quinta-feira, Agosto 05, 2004

Querido Blogue,

La envidia es una cosa muy mala, oyes, já me dizia a minha Mãe mais querida, que disso sabe muito. É que a minha Mãe é uma coisa assim como a Isabel Presley do Alentejo, a Grace Kelly das quintas com cavalos, um clássico da elegância do sul da península com direito a legião de fans entre a comunidade gay com sotaque de Badajoz. Um ídolo para jovens com pretensões a chiquérrimas e uma fonte inesgotável de inveja para as velhas gordas e celulíticas da Extremadura espanhola. Ou seja, um horror para uma filha. Uma gaja tem a esperança ingénua de algum dia se parecer à progenitora e esse dia que nunca mais chega, cada vez mais longínquo, mais irrealizável, una verdadera putada, vamos.
Que a nossa Mãe seja mais bonita, mais bem vestida e mais rica que nós, ainda vá que não vá, mas que seja mais alta, que dance melhor e que nos arrume a um lado às oito da manhã numa festa, nós de pés desfeitos, e ela radiante dentro de um conjunto da Prada, depois de ter encantado o resto dos convidados com um charme que só os eleitos por Deus possuem, ó pá, isso dói cá nos interiores do ego feminino em continua construção. Não há estudos universitários que compensem o poder da simpatia natural. E só nos resta viver com a consciência que nunca brilharemos com luz própria, qual tristes planetas dependentes da estrela que irradia a luz mais forte. E, claro, o terror à banalidade, a não ser nunca uma pessoa completa e genial, assalta-me nesses momentos em me toca partilhar a vida social com a rainha dos corações ao sul do Tejo, que eu cá até penso no meu futuro e nunca me vejo rodeada de bajuladores e escravos que me idolatrem até à morte.
Mas a gente habitua-se. Sobretudo quando o resto da casa compõe a constelação dos mais bonitos e maravilhosos da galáxia familiar. Uma irmã linda, metroitenta encima de qualquer sandália de saltos impossíveis, um mano mais parecido a uma estrela mediática que a um jovem pós-adolescente, um pai poço de santa e católica paciência e uns cães com mais personalidade que qualquer funcionário das finanças, são razões mais que suficientes para me entregar a uma vida de anti-depressivos misturados com álcool etílico. Basta acordar com indícios de uma noite de desenfreada dedicação ao uísque para me apetecer fazer a estética ao corpo inteiro quando confrontada com um mundo de perfeição e traços de deuses do Olimpo.
O meu querido, a tudo isto, procura-me uma clínica de repouso, antigos manicómios, se calhar internada passa-me tanta estupidez adquirida e complexo de baixinha, ele que me acha genial e sempre impecável, boa pessoa e um charme de mulher. O que faz o casamento e o amor verdadeiro

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