No me gusta que en los toros
Te pongas la mini-falda
(Manolo Escobar)
Querido Blogue,
Pois eu cá compus-me toda, mini-saia, penteadinha e perfumada nos cantinhos íntimos e com três quilos de maquilhagem restauradora, que quando uma gaja vai aos touros com o Pai, o mínimo que pode fazer é ter bom aspecto, orelhas lavadas e hálito refrescante tipo anúncio da colgate. Ou então ia mascarada de assassina-canibal-má-pessoa-papadora-de-meninos e eu dessa roupa de genocida internacional não tenho em casa. Coisas da vida, que eu ainda não me habituei a ser insultada quando entro numa praça de touros, e olha que é giro, a gente paga dez contos e a troco levamos com paus, pedregulhos, filha da puta se fosses tu a levar com uma bandarilha já não gostavas tanto. Mas não sou eu que levo, paciência, a lei da natureza e das tradições, que mais pena tenho eu de mim do que de um bicho que pasta quatro anos na boa, fornicando as vacas todas, massagem dia sim, veterinário dia não, tadinho do bicho e a vida resolvida num dia. Eu cá estou-me bem cagando e entro na Praça como uma lady total, olé para mim, ande yo caliente y ríase la gente. Olé!
E com um cartaz de primeira numa praça de terceira, que bonita que é a cultura do Povo, aqui pelo menos há quinze mil terroristas analfabrutos e eu ralada, claro, com o Cossío debaixo do braço e concentrada no fim de tarde com três matadores e seis-toros-seis. Ti-to-ro-rí, lá vai a banda, olé e uma verónica, olé, este Juli tem jeito, olé, mais uns molinetes, e aonde é que se pedem os copos, olé, banderillas recortadas, banderillas tem cuidado, ti-to-ro-rí, lá vai outro tércio e eu com uma sede que nem vejo. E mais muletazos, mais temple, mais poderío e muitos naturales, olé, olé e olé, mais um touro sem beber um copo e desfaleço aqui entre desconhecidos neste pueblo madrileño.
Ti-to-ro-ri, que festival de passes, quites por gaoneras, o que levará a estes pobres rapazes a deixar uma vida de namoros no liceu pela luta cara a cara com o touro, estes têm quinhentos quilos e o público acha que são poucos. Meio loucos devem de ser, pirados da cabeça, suicidas totais, desde tão pequenos e já sem medo a olhar aos olhos da Morte e, eu que me cago toda a ver o Exorcista, como admiro estes homens sem pêlos no peito mas com o tomatame bem no sítio, porque hay que tenerlos, olé. Ninguém lhes tira o ar de macho, nem as meias cor-de-rosa, nem as calcinhas justas, que aliás, favorecem bastante as partes posteriores e anteriores dos Maestros. Olé, Pai depois desta orelha eu vou mas é para o bar da praça ver como se fala de derechazos ao ralenti de um gin tónico e da personalidade dos animais. Já volto, que por nada no mundo perco eu a coreografia do Paquito el Chocolatero do público nos tendidos de Sol, nem como o Presidente da coisa nega a segunda orelha, cabrón que parece que es tuya, como gosto eu de ter os super peritos em touradas a cagar sentenças ao meu lado, mira como se agallina el toro, fuera, fuera.
E o meu Pai a olhar-me de lado, e tu está mas é quietinha e calada, que não viemos à corrida para te meteres no bar da praça, já não se te pode levar a nenhum lado sem que bebas a garrafeira todas, e calada, que já dizia Belmonte, toda a Praça é do torero e o respeitinho é muito bonito.
Olé, olé e olé, que bonita é a Fiesta, e isso que não é pública nem obrigatória, de Machado a Dali, muito bestas não eram estes gajos.
Depois, jantar e uísque num bar de jazz e a conversa, que pai e filha só vão aos touros para estar juntos, sozinhos enfrente ao touro, uma vez ao ano, como Dios manda.

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