Segunda-feira, Outubro 11, 2004


Querido Blogue,

Chove lá fora, estou tesa que nem um carapau e o Super-Homem morreu de um ataque cardíaco. Só me falta que me digam que o meu carro precisa de pneus novos para me atirar do Puente de Sogovia abaixo, vestida de Miu Miu, com o Palácio Real de fundo e a Lady Leti a acenar, que posso eu bem posso ser suicida mas o glamour ninguém mo tira. Esmagada mas penteada, eis uma regra a nunca esquecer.
Porque a mim dói-me que se me morram os mitos, mesmo que estejam tetraplégicos e com o caracol da testa caído, sou assim de sensível às recordações de infância em frente à televisão a preto e branco. Uma mulher tem os heróis incrustados na genética e com os anos eles vão-se embora, transmutam-se, ou simplesmente deixam de fumar, como o coitado do Lucky Luke, que agora prende os mauzãos de espiga na boca. Um desastre. Os censores esqueceram-se que nem os bonecos de BD podem contrair cancro de pulmão e nem as crianças fumam por causa de um francês que mata índios nas Américas longínquas. Contra a censura, fumar, fumar (Momento de pausa para ir comprar tabaco ao estaminé do lado. Inté.)
Já não sei que faça com esta minha decepção, super acentuada mais ainda com a recente leitura sobre o Cascão, que pelo bem da higiene dos meninos das favelas brasileiras, vai começar a tomar banho de espuma e esponja exfoliante. Um dia destes ainda vamos saber que a Mónica põe aparelho nos dentes e faz uma lipoaspiração para apaixonar o Cebolinha que entretanto esteve internado numa clínica logopeda para começar a falar com todos os erres. Se o Zé Carioca arranja trabalho então é aí que eu me converto em santanete, faço madeixas super loiras e dou um arranjo gravitacional às mamas.
O mundo está perdido e eu nem me encontro dentro destes valores pós modernos do politicamente correcto. As palavras que têm que ser medidas para não ofender as mentes pudicas e governamentais, vícios inalienáveis ao individuo que se põem de lado em nome da saúde dos outros que nunca saem de casa para não se infectarem, e a Vida que se encolhe ante tanta censura da alma. (Outro momento de pausa para ir procurar um isqueiro decente.)
Permite-se o freak show, o circo da morte em directo e a democracia da televisão do povo, a Joana que não aparece e o fio dental de um siliconado vestido de Gucci, mas a mama da Janet Jackson é pecaminosa e a matança do porco está censurada. O circo já não pertence só à família Cardinalli.
Vou fazer um café, fumar um cigarro e ver as corridas de touros na Feira do Pilar por televisão. Pode ser que entretanto se descubra que o Batman é politicamente gay e o Robin mulato.

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