Domingo, Outubro 31, 2004

Querido Blogue,

Domingo conjugal, o lo que es lo mismo, Mr. and Mrs. Pinheiro marcam reunião amorosa no sofá amarelo debaixo do edredon rodeados de bolachas OREO e litros de Coca-Cola, que quando a ressaca ataca não há melhor remédio que os gases do xarope açucarado inventado com base na cocaína. Porque quando na cidade chove granizo assassino o mais sensato é ficar-me abraçadinha ao meu amor seguindo as sondagens das nada fraudulentas eleições americanas via televisão zapatera. Isso ou ver interessantes programas sobre a luta dos produtores de castanha autóctone contra os importadores da abóbora capitalista yanqui. Ao que chegámos para manter as nossas tradições ancestrais vivas, cagonlaleche.
Eu até entendo o desgosto dos puristas do Dia de Todos os Santos, o que até a mim me estranha, porque toda a gente sabe que prefiro uma bela noite nos copos a passar uma manhã no cemitério a limpar a campa de um ser querido, e isso que tenho vários enterrados. Deve ser por respeito aos meus mortos, ou por um selecto sentido do bom gosto mas sobretudo pela minha incapacidade total para entender donde coño está a graça de passar uma noite mascarada de bruxa pindérica e com um nariz de plástico atado à cabeça, que para nariz superlativo já me basta o que a minha herança judia me deu. Não se me leia aqui qualquer anti-americanismo primário, eu que amo sem limites ícones culturais dos States como Woody Allen, Os Sopranos, Paul Newman e a Levy’s. Os gajos não têm culpa nenhuma de terem sido educados no mito de Halloween, mistura explosiva de tradições celtas e muitas horas a mamar filmes merdosos de virgens mutiladas por psico-killers com falta de bofetadas maternas. Não, os americanos, por muito que lhes doa ouvir isto aos esquerdalhos com complexo de culpa cada vez que comem pipocas no cinema, os americanos, digo, não podem ser responsabilizados pela estupidez da nossa boa gente.
Queremos Carnaval? Bora importar em Janeiro umas mulatas brasileiras para sambarem debaixo de uma chuva demoníaca pelas ruas de Ovar semi-nuas. Super típico e super português. Páscoa na aldeia? Que simpática ideia pôr os putos a pintar ovos, tradição alemã que tem imenso a ver com o nosso costume de comer cabrito e folares.
E se importam como nosso o Halloween, olha que engraçado, esqueçamos o carácter trágico da festividade, que a vida já é muito triste se ainda por cima temos que nos lembrar dos que se foram embora e levar-lhes flores e rezar-lhes um bocado para ver se nos ajudam com o que está lá em cima. Porque se os ritos pagãos sempre impregnaram de futilidade e alegria a nossa religião tão dada a sentimentos de culpabilidade, então bem-vindas sejam as festas de abóboras e mortos vivos patrocinada pela Pepsi e com a banda sonora de um grupo hip-hop afroamericano machista num bar qualquer da cidade. Se me chamassem Jenny a festa estava completa.
O melhor mesmo é continuar escondida debaixo do edredon
agarradinha ao meu Pinheiro mais lindo que isto está difícil.


8 Comentários:

Na 4:27 AM, Blogger Noel Santa Rosa disse...

Debaixo do edredon, importado da Islândia, né?
Porque o que é Português genuíno e autêntico são as mantas do Alentejo ou as da Serra da Estrela.
Ai rititi tanto estardalhaço por causa da tradição e afinal...
Have a merry little christmas e páscoas felices!

 
Na 12:26 PM, Blogger papoila disse...

que lucidez! arre, que até irrita! :)

beijos!
vou já para debaixo do edredon!:)
papoila.

 
Na 12:35 PM, Blogger rititi disse...

Cara LC: touché!

E olha a minha grávida mais linda! Papoilinha querida, como vão esses vómitos? Quando me tocar a mim carregar um Pinheirinho já sei a quem recorrer... Beijinhos ao Mr. Meat e outro grande para ti!

 
Na 3:20 PM, Blogger Bruno disse...

Super-Rita, a qualidade das tuas crónicas têm vindo a subir a olhos vistos. Vem isto a propósito da última "Estou que não posso" no DNA: próxima do perfeito.
Bejufas

 
Na 1:44 AM, Blogger camellina disse...

Oh minha jóia...porra, que carregar a tradição é um fardo pesadote! É o fado, a tristeza e as mulheres de bigodaça! Já viste mais estonteante? Assim se percebe a importação!

Sim, mas também acho mega-ridiculo as mulatas importadas,mas,mais ainda, as tugas sambantes, sem conseguirem quebrar a anca, de tez branquérrima cheia de picos de frio! Arre...oh tradição a quanto obrigas! Um beijo querida;)
Marakatu

 
Na 11:20 AM, Blogger Victor Lazlo disse...

Eu "cá" sou a favor do Carnaval importado: Permite matar saudades do Verão e da abstinência forçada imposta pela gola alta. É que a visão de uma mulher em bikini no mês de Fevereiro vale tanto como um enlatado de cogumelos após um terramoto de grau 7 na escala de Richter.

 
Na 1:34 PM, Blogger vieira do mar disse...

OLá minha linda! certeirinha, certeirinha, como sempre...
Um dia destes, vou dissecar aquela pouca-vergonha que o rat(o)zinger dedicou às mulheres. vai ser divertido. Uma boa semana para ti. Beijocas!

 
Na 2:01 PM, Blogger Angela disse...

A globalização, ou "blogalização" traz-nos destas abóboras. Mais cedo ou mais tarde este planeta vai ser todo parecido. O pior é quando os putos portugueses se lembram de nos ir tocar à porta a pedir doces e se não abres te espirram a madeira importada com mercúrio, vermelho, vermelho, que não sai. E agora? Lembranças duradouras do dia das bruxas! E parabéns aos seus queridos pais: acabaram de ganhar a hipótese de comprarem portas novas para os seus queridos vizinhos!!!

 

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