Querido Blogue,
Pequeno-almoço na Puerta del Sol com o meu mendigo de estimação a quem lhe conto a minha tristeza hormonal por não ver a versão portuguesa da Quinta das Celebridades. Sim, porque nestas terras do touro ibérico já temos nuestra Finca, com direito a uma pneumática Miss Playboy, um magnifico exemplar masculino representado pelo Mister Venezuela, um travesti velho e decrépito (que não se convence da heterossexualidade do tal mister e atira-se a ele a torto e a direito entre o ordenhar da vaca e o despejar do balde na sanita), uma toreira reformada pelo machismo das praças e outra gentinha habitual no sempre estimulante mundo rosa do papel cuché. Ou seja, uma seca. Tudo bem comportado, simpatias absolutas e um nível intelectual que já gostaria eu de ver na TV Parlamento, tudo na quinta é obrigado, se faz favor, adoro-te, bla, bla, bla. O meu mendigo acha que com isto já me deveria chegar: não é por acaso que ele me tem em alta consideração física e cultural, porque a nossa relação vai mais além da esmola e do piropo diário. Somos o que se chamaria neste mundo cruel um casal tipicamente literário, se bem que com ele é impossível chegar a qualquer consenso quando se trata discutir a mais-valia dos autores contemporâneos. Ainda me lembro da nossa acalorada discussão sobre a relevância universal de Paul Auster, ele que sim, e eu que não, e a nossa relação pelas ruas da amargura durante quinze dias. Esmola nunca lhe faltou, mas aquela desafortunada comparação do escritor americano com a genialidade musical de Beck nunca mais lha perdoei.
Por todas estas contingências de carácter cultural o meu mendigo não alcança a entender a minha pena por perder, em directo e em português na televisão do povo, as aventuras das meias de vidro do meu adorado Zezito do Castelo e Branco, saltitando no meio da merda das vacas e a tomar banho de água fria, que para isso os programas-franchising são todos iguais e as quintas pré-fabricadas. Porque o meu mendigo não compreende que personagem celestial seja o Zé, nem porque estranha razão se terá casado com a querida da Betty, nem porque são alvo de chacota pelos tristes lá da minha terra. Nem vale a pena explicar o socialaite português ao meu mendigo, porque ele vive no mundo das ideias e das garrafas de vinho de pacote e se não dá importância às vinte grandezas da Duquesa de Feria, quanto mais às tristezas de quatro tesos que se vendem à Caras a troco de uma viagem às Maldivas.
A única famosa que o meu mendigo conhece, admira e quando crescer quer ser como ela, é a Tita Cervera, antes capa chungosa da Interviú e hoje viuvíssima baronesa Thyssen-Bornemisza, toma ya. De mãe solteira a Mecenas, de insultada por louca bêbeda a invejada por multi-milionária pela finíssima sangue azul com contas bancárias a negativo. A isto chamo eu subir na vida, dando razão ao amor do meu mendigo por esta mulher lutadora e sempre de cabeça bem alta. Mas afinal não é por nada disto que a adora, que enganada que estava. “La quiero porque se arregla ella misma el pelo, las uñas y se depila en casa”.
Ah, se é por isso, tudo bem. Está visto que com este meu mendigo é complicado chegar a um acordo.

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