Segunda-feira, Novembro 15, 2004

Querido Blogue,

Uma gaja já não tem idade para isto, e isso que a minha vida social ainda não chegou a essa maturidade que obriga ao casal moderno a uma sessão de cinema semanal, ao domingo e depois do almoço em casa da sogra. Quando não se têm trinta anos na pele não vale a pena fingir-se adulta e responsável bebedora do cafezinho e uma água das pedras, se faz favor.
Por isso a leitura pela nossa blogosfera de bujardas como “A mulher só se completa com a maternidade”, deixa-me fora de órbita, out total. Até se me caiu a pestana, como te lo cuento chacha. Como se não me bastasse a onda de frio polar que ameaça a cidade e a macabra visão de Aznar a tentar falar inglês numa universidade facho-liberal lá nos Estates, toma lá com a Teoria da Mulher Completa ao pequeno-almoço e patrocinada pelo cristianismo new age que tanto parece estar na moda na Internet lusitana.
Completa, como? Porque os ovários funcionam correctamente? Porque escuta a chamada da natureza, essa que nos faz perpetuar a espécie e os apelidos pelo tempo fora, como se a extinção do género humano fosse eminente? Completa porque o sentido da existência feminina é parir, amamentar, limpar cus a putos e transmitir valores como a família tradicional, o T-3 com dois lugares de garagem e as férias na Quarteira?
E que acontece às mulheres estéreis? Estarão condenadas ao ostracismo dos lares da terceira idade, sozinhas e sem netos que as visitem cada quinze dias para receberem quinhentos paus para rebuçados? E as freiras de clausura, serão menos mulheres só porque decidiram entregar a vida à oração e à confecção de doces conventuais?
Serei eu pouco mulher se decido não parir? Começarão a nascer-me pelos no peito e a falar com voz de camionista se continuar a adiar a minha inevitável condição biológica? Devo sentir-me amputada na feminilidade, de acordo com a Teoria da Mulher Completa, se me ficar pelo papel de tia porreira, dessas que sacam os filhos dos outros para os copos na adolescência e lhes ensinam a dizer caralhadas? Poderei aspirar a algum lugar de respeito nesta sociedade politicamente correcta se continuar indiferente às montras com vestidos de bebés e canções sobre patinhos e ursinhos? Haverá para mim redenção se considerar que me completo só com o amor do meu marido e jantares a dois e serões de ronha e carinhos em silêncio? Não há quem ponha limites a tanto disparate e convenções materno-sociais?
Por agora, a pressão parideira, o comummente chamado relógio biológico, parece não me afectar demasiado. Porque tenho uma Mãe jovem, moderna e muito decente que não me chateia com o tricotar de pantufas. E porque as minhas prioridades não passam por mudar de casa e de tamanho de soutien. E porque as minhas madrinhas de casamento, as duas e em simultâneo, decidiram engravidar, preenchendo assim a minha quota de maternidade.
E sobretudo porque não me apetece, cum caraças. Que se metan la teoría de la Mujer Completa por el culo!

44 Comentários:

Na 1:52 PM, Blogger Khibli disse...

Muito bem. Gostei muito! O "novo" blog, mais intervencionista, mas com o mesmo sentido de humor, está a fazer sucesso por estes lados!

 
Na 2:24 PM, Blogger papoila disse...

Como te compreendo, querida Rititi!
Já por várias vezes disse isso..e chovem logo lições de mestre-escolas.
Essas iluminadas que "ninguém" (que não pertença ao grupo) entende, e que são pessoas "muito melhores" e que se põem num degrau-acima de nós - infelizes ou encalhadas por não termos a experiência "única" da maternidade...até metem nojo.

Por mim, minha querida, como achei sempre, é tudo igual.
Ficamos um bocadinho mais histéricas, certamente.
Se formos gajas porreiras, nota-se mais.
Se formos umas secas idiotas, nota-se mais.
Acho que a gravidez é um "potênciador" do feitio.

Não contes, por isso, até eu "desovar", e depois de eu "desovar", com lições ou explicações de como as coisas "são".

És tão mãe como eu. Entendes este amor, tão bem como eu. Ou melhor. Muito melhor.

Um beijinho sincero.

 
Na 2:34 PM, Blogger rititi disse...

Querida Papoila,

Muito obrigada, que isto de ter uma real-mother a mandar passear as outras "maes mentais" tem muito que se lhe diga!
Bem me lembro da tua catana! E agora que estás prenha ainda tens mais razao para a usar (e me ensinar a usa-la). Nao há cú para os ensinamentos das iluminadas da prenhice, essas reencarnaçoes da Nossa Senhora da Conceiçao, re-virngens e portadoras de Vida e o caralho!
Viva, viva, as maes de verdade!
Um beijinho, querida mama pro-bicho!

E Ghibli, obrigada e aparece (e comenta) sempre que te apetecer! Nao é que eu esteja mais reivindicativa, tenho é os ovários super trabalhadeiros!

 
Na 3:04 PM, Blogger Mãe disse...

Olá Rititi!
Olha, eu sou mãe de uma menina de 14 meses. Nunca senti pressões para ser mãe, nem nunca, depois de o ser, me pus um degrau acima dos comuns mortais (eu incluída). Decidi ser, pronto. Tal como tu decides não ser (por agora, ou pelo tempo que entenderes). É tudo uma questão de decisões pessoais, a que ninguém tem o direito de apontar ou tecer comentários.
Amo a minha filha acima de tudo, mas também gosto muito de mim. Se uma mulher "vive para os filhos" acaba por se anular a si própria, e acabará, a longo prazo por não ter o respeito da prole.
Gostei do teu post. Aliás, como gosto de todos. Continua.

www.mama-a-maneira.blogspot.com

 
Na 3:48 PM, Blogger clô disse...

ok, não estou a aguentar ficar fora desta tertúlia! Aqui vai o meu guia de respostas rápidas para a pergunta "e não gostavas de ser mãe?", normalmente lançada pela Irmandade das Designadas Portadoras do Milagre da Natureza:

1. Gostava, mas laquearam-me as trompas ontem por causa de um quisto
2. Gostava, mas sou infértil.
3. Não, eu detesto crianças. Não te importas de limpar a baba do teu filho dos meus sapatos?
4. Não, prefiro ter sexo todas as noites.
5. Não, gostava de poder continuar a ter outras conversas com as minhas amigas que não estivessem relacionadas com o número de gracinhas que um puto que nem falar sabe faz. Prefiro ir ao circo.

 
Na 5:47 PM, Blogger Catarina disse...

É tão legítimo que uma gaja beba àgua das pedras e cafézinho, como beba gin tónico ou bloody mary ao pequeno almoço. Também não me perturba se ela vive numa assoalhada com 40 m2 se num T3 com 2 lugares de garagem e se a gaja vai almoçar à sogra ao Domingo ou se tem uma mãe jovem, moderna e decente. Enfim, eis a questão....parir ou não parir?! Assunto mais que referendado e sobre o qual já se escreveu rios de tinta. Eu deixaria a coisa ao critério dos ováriozinhos de cada uma. Há lugar para todas e ainda bem. Viva a diferença!

 
Na 6:31 PM, Blogger Miriguida disse...

Nao há nada como ser a irmã mais nova. Nao há stress!!!!
O pessoal nao está à espera q sejas mãe, e muito menos se nao estás casada. Só se preocupam se a mais velha fica prenha algum dia!
Mas não há cú para a puta de pergunta: Então, a tua irmã não quer ser mãe? Não te faz tia?? Há varias respostas:
1- Eles querem ser pais (sim, pq nunca perguntam quando é q ele vais ser pai)
2- Quando a eles lhes apetecer
3- (a minha preferida) Vais ser tu a tratar do puto, a educa-lo e a pagar todas as despesas?

Pois é minha querida mana, eu acho que fazes bem em decidir o que fazes com os teus ovários!!!!
Se for tia e madrinha fixe, se não, serás tua a tia e madrinha.

Mas já agora, achas que é justo aguentar o periodo toda a vida para nada?

Beijinhos

 
Na 6:33 PM, Blogger Miriguida disse...

Nao há nada como ser a irmã mais nova. Nao há stress!!!!
O pessoal nao está à espera q sejas mãe, e muito menos se nao estás casada. Só se preocupam se a mais velha fica prenha algum dia!
Mas não há cú para a puta de pergunta: Então, a tua irmã não quer ser mãe? Não te faz tia?? Há varias respostas:
1- Eles querem ser pais (sim, pq nunca perguntam quando é q ele vais ser pai)
2- Quando a eles lhes apetecer
3- (a minha preferida) Vais ser tu a tratar do puto, a educa-lo e a pagar todas as despesas?

Pois é minha querida mana, eu acho que fazes bem em decidir o que fazes com os teus ovários!!!!
Se for tia e madrinha fixe, se não, serás tua a tia e madrinha.

Mas já agora, achas que é justo aguentar o periodo toda a vida para nada?

Beijinhos

 
Na 6:43 PM, Blogger ng disse...

Como primeiro homem a pôr os pés neste post como comentador, prometo andar em bicos dos pés. Mais uma vez as tuas considerações se revelam relevantes e elucidadas.
Penso que para os homens a questão da mulher completa não se coloca no sentido da maternidade, mas percebo o quanto ostracizante esta poderá ser entre as mulheres.
Quando é que vamos parar de pensar em termos como 'melhor', 'completo' e 'normal' para nos referirmos a pessoas?
Temo que isso ainda esteja longe. Entretanto: O 'melhor' era certas pessoas pararem com o 'completo' disparate de procurarem o 'normal' da vida. PN

 
Na 7:54 PM, Blogger gracinha, a artista do burlesco disse...

Esta mensagem foi removida por um administrador do blogue.

 
Na 8:01 PM, Blogger gracinha, a artista do burlesco disse...

Rititi, vou fazer copy paste do teu mail e enviá-lo não só à minha mãe, como a uma série de gente. Só tiro é a última frase, por razões óbvias.
Isso faz lembrar um artigo que li no Expresso, uma vez, em que já não sei quem dizia que não haveria problemas da população estar a diminuir, se por ventura as mulheres decidissem ter mais filhos em vez de trocar de carro todos os anos.
E já agora, o que é uma mulher completa? Não Para além do trabalho, da competição desenfreada, o cansaço e a pressão, o termos de levar dinheiro para casa e com toda a porcaria possível, só conseguimos afirmar-nos se tivermos filhos? Principalmente quando uma mulher que tem filhos é discriminada, precisamente por causa disso?
Realmente, é ser preso por ter cão e por não ter...
Gracinha

 
Na 8:02 PM, Blogger gracinha, a artista do burlesco disse...

Esta mensagem foi removida por um administrador do blogue.

 
Na 8:03 PM, Blogger rititi disse...

Isto de ter ovários dá cá um jogo... ;D
Maes, solteiras e lutadoras da difencia, um gajo e até a minha mana... qué barbaridad! Sinal que o tema ainda não está esgotado e muito menos resolvido!
beijinhos

 
Na 8:06 PM, Blogger rititi disse...

Gracinha,
Na boa, tens é que indicar o meu nome no mail!
;D

Obrigada e beijinhos!

 
Na 8:17 PM, Blogger Victor Lazlo disse...

Na qualidade de segundo homem a participar nos comentários ao post de hoje, apenas posso dizer o seguinte:

1. A malta da Opus Dei não vai gostar de ler isto;
2. O Rocco, ex-amigo pessoal do Durão Barroso, não vai gostar de ler isto;
3.A malta do PP (excluindo o líder, que se está marimbando) não vai gostar de ler isto;
4.A malta das associações pró-vida não vai gostar de ler isto;
5.A malta muito católica não incluída nos números anteriores não vai gostar de ler isto;
6. Os gajos com fetiches esquisitos com grávidas não vai gostar de ler isto.

O resto adorou!

 
Na 10:32 PM, Blogger cafajeste disse...

Xiiii.... esse relogio biologico está aos saltos...

Dou-lhe um ano para ficar gravida.

Bj

 
Na 2:14 AM, Blogger ISA disse...

Pois olha o que te tenho a dizer é curte o teu casamento e o teu Mr. Pinheiro o mais possível, viaja o mais que puderes ou faz o que bem te apetecer durante o tempo que te apetecer. Sem filhos e sem problemas de consciência por não seres o que se espera que sejas. Isso era dantes, a história de casar e ter filhos logo de seguida. Ainda nem sequer tens 30 anos por isso, e mais uma vez te digo, curtam muito os dois. Que isso de filhos exige muito. Parece-me natural que a vida mude e muito quando eles aparecem, nomeadamente no que se refere às prioridades, principalmente nos primeiros anos. E se entendes que não estás para isso não vejo mal nenhum. Melhor assim do que pensares, daqui a 10 anos, que podias ter curtido muito mais. E tem-nos quando achares que estás preparada, se os quiserem ter, obviamente. Que não os ter não é crime e além disso ninguém tem nada a ver com isso! Mas acredito que tenhas uma visão totalmente diferente desta que descreves neste teu post, caso venhas a ter. ;-)

 
Na 3:05 AM, Blogger vieira do mar disse...

Querida rititas, minha linda, desculpa, desculpa, mas não aguento, tenho que o dizer, é mais forte que eu: faço minhas as palavras do cafageste, um bocadinho mais acima!!!
hihihihihi. :):):)

 
Na 10:08 AM, Blogger rititi disse...

Pues sí... isto de ter ovários saltitantes tem destas coisas...

 
Na 11:51 AM, Blogger juaquinito disse...

Krida Rititi,
tena toda a razão no teu desabafo.
Penso que maternidade é vocação e nunca bitola de feminilidade. Além disso, parir não significa maternidade. Nem toda a mulher que pariu é mãe e nem toda a mãe pariu.
Aqui vai parte dum texto giro sobre o assunto de uma amiga brasileira. a Paula:
"Peitos enormes. Oh céus, que sorte, peitos enormes! Raios, barriga enorme também, tudo inchado. Não podia ser só os peitos? Bem, mas tem os peitos, quem liga pra uma barriguinha de nada? Gah, mas os peitos enormes doem muito. Que ódio! Não, não me toca que está tudo doendo! Mas PORRA, me toca que eu estou carente e quero carinho! Assim tá bom. Não, nã-ão, assim não tá dando. Chega pra lá, tô morrendo de calor. E esse cabelo? Que horror, o jeito é prender. Ai, que frio no pescoço agora. Diabos. Ai, finalmente chegamos em casa. E eu sou uma mulher moderna e independente que sabe estacionar o carro. Comé que é? O pneu está longe da calçada??? VAITOMÁNOCU então! Estaciona essa porra se quiser! [abre porta, fecha porta, PAFT!] Tchau. Não, não vou voltar. Ei? Quer saber? Some da minha frente!!! Grrrrrrrrr! Não!, não, espera, volta aqui, me dá colo, fica comigo pra sempre e mais um pouco? Eu me odeio. Eu te amo. Não, eu me amo. Eu te odeio. Quer dizer. Bah, quem se importa? Eu quero mais é que o mundo se foda. Ih, a pílula está acabando. Tá explicado".

 
Na 2:20 PM, Blogger m.inês disse...

rititi tou há-que tempos para comentar aqui en su blog que o acho de perder a cabeça! quase literalmente! :D eu acho que a decisão de ter filhos -ou não- não se deveria prender com convenções sociais sobre o assunto, principalmente quando essas convenções são o resultado de séculos de influência social masculina. eu por exemplo escolhi ser mamã assim jovencita que é para daqui a uns anos me abster de tricotar pantufinhas...partindo do principio que eu aprendo a tricotar até aos 40 anos!! enfim, como tudo na vida tem o seu lado bom e o se lado mau, somos todas diferentes e todas iguais yada-yada-yada mas com filhos ou sem filhos (ou vontade de os ter) somos todas MUJERES!!!
um beijo de uma madrecita que continua a "curtir" e muito!! hahaha

 
Na 2:35 PM, Blogger ziz@ disse...

Eu cá sou uma iluminada assumidíssima e também estou como a vieira e como o cafajeste: estou para ver quando nascer uma ritita ou um rititito..

 
Na 3:12 PM, Blogger ziz@ disse...

...a menos que - como pressagias - sejas daquelas mães que deixa o subnutrido filho de 15 dias com uma avó para ir para a neve com o marido. A mãe que fez isto e que infelizmente conheço bem, intitula-se uma "mãe muito moderna". Do melhor.

 
Na 6:43 PM, Blogger aNa disse...

adorei!

 
Na 7:25 PM, Blogger Luís F. Simões disse...

Ó "Rititi", problema não é seres mãe, é seres pai ;)

Por falar nessa merda da natalidade, aqui há tempos uns cientistas disseram que muito em breve os pais poderão escolher o sexo dos filhos. Já poderão, aqueles que assim entenderem (no entender deles), optar por ter uma filha ou um filho. Vai daí, escrevi para um jornal um artigo em que desmontava toda essa evolução de merda, dizendo mais ou menos o seguinte: eles pensam que podem fazer/conceber tudo - cambada de cornos! - pois eu quero um filho "gay".

Acho que chega, não chega?!

Abraço

 
Na 10:44 PM, Blogger martelo disse...

Sendo eu padre e reconheço conservador considero este texto verdadeiramente arrasador, quero dizer herético!!
Como pode Rititi ter uma posição destas perante a imagem sacrossanta da mulher?? Não acredito.
A mulher fez-se para o croché, para as panelas, para limpar as bilhas a putos cagados e satisfazer as necessidades biológicas do macho!
Porra oh Rititi aindas acreditas nesta treta que estou para aqui a debitar...
vou linkar e desejo que tenhas bebes e se não quiseres não tenhas...
Padre Inácio ou hammer, sa

 
Na 10:58 PM, Blogger ॐJohn disse...

Olá Rititi, estou-me a estrear depois de muita leitura.
Tenho todos os dias mais de 100 criancinhas a meu cuidado, tenho os ouvidos cheiinhos de choros, risos, lamúrias, queixinhas e birras. Não me sinto completa, sinto-me a trasbordar. E sinto o relógio biológico longe e o instinto maternal calminho e tranquilo. As crianças dão-nos muito, mas não são elas que nos completam. O amor completa mais. E esse pode ser maternal ou não.

 
Na 11:11 PM, Blogger 100 nada disse...

Minha cara
Concordo...e discordo.
Há só um pequeno senão em relação às 'iluminadas', categoria na qual me incluo, e não tenho vergonha nenhuma disso:
as 'iluminadas' são muito maltratadas, sabes?
(mas isso é matéria para uma resposta mais comprida).
De resto, estou como a Vieira e a Luísa...;)
Beijocas!

 
Na 11:51 PM, Blogger rititi disse...

Tanta gente, bolas!
Ante tanto comentário, só posso agradecer!
Beijinhos

 
Na 12:57 AM, Blogger PreDatado disse...

Ó minha querida Rita, desculpa lá o palavrão, pois sei que é uma heresia escrever coisas destas aqui, mas só me apetece dizer Foda-se! Teorias são teorias. Se alguém acha que uma mulher é completa só se for mãe que o diga. Outra vez foda-se, não merece tanto comentário de engraxadela. E um post é um post e os teus posts são o que tu pensas. Eu já não me lembro, devia ser muito pequenote na altura, quando o Eça disse que um homem só é homem depois de escrever um livro, plantar uma árvore e escrever um livro. Tenho de dizer Foda-se outra vez. E as gajas que escrevem livros são homens? E eu que nunca escrevi um livro sou gay? E eu que não tenho um filho, mas sim dois, sou super-homem ou bishomem? E árvores? Eu, que a única que plantei há 6 anos ainda nunca deu uma pera-abacate, sou estéril? Olha minha querida, uma vez o meu filhote era pequeno e perguntou-me: pai quando é que eu sou homem? Eu disse-lhe quando jogares as mãos entre as pernas e sentires duas bolas bem cheias então és homem. Mas atenção, se sentires 4 não penses que és o super-homem!
Ó minha querida quem tem razão é a vieirinha (acho eu não sei) andas com esses ovários aos saltinhos.
Caga nas teorias.

 
Na 2:52 PM, Blogger toka disse...

9 meses sin beber!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

 
Na 5:22 PM, Blogger Stephen King disse...

Bem, para já o produtor de frase tão imbecil só pode ser o César das Neves, criador de estupidez tão intensificada que seria possivel destilar e vender como essencia, á guisa de perfume.
É absurda esta ideia de algumas pessoas, especialmente de quem já tem filhos, que devemos começar a pensar na paternidade/maternidade como uma inevitabilidade, quase tão certo como a morte ou os impostos. E pior ainda, aquelas pessoas que a partir do momento em que são pais, morrem para o mundo e simplesmente transformam toda a sua actividade cerebral numa descrição gráfica das habilidades do petiz, que não raras vezes incluem cagar e outros quitutes escatológicos. Ou falam constantemente do amor aos filhos, numa repetição absolutamente enjoativa, precisamente porque não há outro assunto.
Tenho grande respeito pela geração de descendência, e é provável que também me toque um dia, mas sinceramente, esta ideia, (junto aos comentários como: "então, não acham que já está na hora, ou, vocês estão é a precisar de um filho, ou, sabem lá, a vida muda completamente...")de que estamos incompletos sem a transmissão de genes e cromossomas parece-me, para dizer o mínimo, idiota, e característica da beatada.
Por isso, cara Rititi, não poderia estar mais de acordo contigo.

 
Na 6:26 PM, Blogger ISA disse...

Quem te dera a ti, filho, teres metade da inteligência do César das Neves. E da humildade, já agora. Podes descordar das opiniões dele, e até aqui tudo bem, agora chamares-lhe estúpido? Ele ao menos SÓ fala do que verdadeiramente sabe. Desde economia a religião. E fundamenta! Incomodam-te assim tanto os valores que ele defende? E porquê? Não merece o teu respeito, como a Rititi merece, por partilhar as suas opiniões com quem as lê? O respeito é só quando convém, pergunto eu?

 
Na 11:03 AM, Blogger Stephen King disse...

CAra Isa:

Ponto nº 1, não vou de forma alguma por em causa os méritos científicos/económicos do César das Neves, até porque não era esse o contexto deste comentário ou post. Como economista, nada a dizer.

Mas perante alguém que, entre outras pérolas, diz que a homossexualidade é a causa de grandes malefícios da humanidade, que a mulher só tem dois estados interessante e relevantes, ou seja, quando está grávida ou quando é virgem ( só só eu que vejo a contradicção idiota aqui?), que julga que a educação sexual nas escolas é um disparate imoral ( que se lixe a saúde pública), dar-lhe o cognome de estúpido peca apenas por defeito. As "opiniões" deste senhor são no mínimo uma expressão dos preconceitos mais infundamentados, próprios de uma visão intolerante e estupidificante da realidade, escudada numa moralidade baseada na culpa e na contenção do potencial humano.
Humilde? César das Neves humilde? Bem, não devemos ler as mesmas crónicas com certeza. Mas basta passar pelo DN e ver o ror de disparates que este senhor profere relativamente ao que não corresponde á sua lógica beata e retrógrada, num ataque cerrado sem qualquer fundamento que não seja uma visão teocrática que cada vez mais afasta a Igreja das pessoas, porque não é de forma nenhuma enquadrável com o que estas são e podem ser.
Se alguém expressa preconceitos sem fundamento, agredindo por rebaixamento, eu não tenho qualquer pejo em chamar-lhe estúpido, porque estúpidos são aqueles que não tem capacidade de ver outras realidade, precisamente porque não querem. Ainda por cima vindo de alguém que supostamente professa uma religião de tolerância e acolhimento do próximo.

Espero ter esclarecido.
Quanto aos méritos científicos do senhor, volto a dizer, não estão em causa.

Saudações

 
Na 11:16 AM, Blogger rititi disse...

Haja paz, meninos!

 
Na 12:11 PM, Blogger ISA disse...

Caro,
Leio o João César das Neves no DN há anos. Nunca li, nestas crónicas, que a mulher só tem 2 estados possíveis e, tal como tu vejo, a contradição e acho que ele, como inteligente que é, nunca na vida diria tal barbaridade. E muito menos li as afirmações que fazes em relação à homossexualidade.

As opiniões que manifesta em relação à igreja católica, e como crente que é, são para mim perfeitamente aceitáveis porque são fundamentadas, com HUMILDADE e veemencia, porque nelas acredita piamente. Defendendo a igreja católica o casamento, a família, com figura de pai, mãe, filhos e por aí a fora, parece-me bastante lógico que entenda que o casamento dos homossexuais fique de fora, por razões óbvias.

Quanto ao papel da mulher, não me parece que se enquadre nas afirmações que escreveste porque, sendo uma pessoa bem informada, ponderada e com dois dedos de testa, e quanto mais não seja como economista, deve saber bem melhor do que tu e eu que as mulheres têm um papel relevante na sociedade, que não passa pela virgindade ou pela gravidez. Que são bem mais do que simples parideiras ou mulheres eventualmente frustradas, excepção feita às que oferecem a vida a Deus e que passam bem sem os prazeres da carne.

E mais, tem um papel activo no acordar e esclarecer das mentes adormecidas não só no que se refere à economia como à educação, à democracia... Basta leres a crónica desta semana, a título de exemplo.

Ainda quanto à religião, ele baseia-se apenas no que acredita. Não vejo mal nenhum em defender os valores no quais acredita porque, e mais uma vez, são fundamentados com rigor. Não lhe peças independência. São opiniões e por isso mesmo tratam-se de uma visão apenas, a de quem opina, com todo o direito. Tal como tu tens o direito de defender o que quer que seja em relação às mulheres e aos homossexuais desde que não seja crime nem ofenda as regras da moral e da ética, figuras do Direito português, tal como os códigos e a constituição.

E digo mais, fazem falta pessoas que manifestem as suas opiniões sem cairem na hipocrisia do politicamente correcto. E ainda bem que ele está nas condições para o fazer, que não são para todos. O Buttiglione, por exemplo, por dizer o que pensa a nível PESSOL, foi condenado.

Não te preocupes Rititi, que a paz impera, pelo menos na parte que me toca.

E olha, caro, terei todo o prazer em ler essas crónicas de que falas, é só mandares o(s) link(s).

Fica com Deus ;-)

 
Na 12:36 PM, Blogger ISA disse...

As palavras nem sempre têm o significado que gostaríamos. Portanto, cá vai:

"Estúpido: Que não tem inteligência suficiente ou delicadeza de sentimentos. Grosseiro; muito desagradável; bruto; enfadonho." In: Grande dicionário da língua portuguesa, ediclube, 1990.

Se há coisa que César das Neves não é, é estúpido, desculpa lá...

 
Na 12:44 PM, Blogger Stephen King disse...

Para começar:

QUEM PROMOVE O OBSCURANTISMO?
RESPOSTA A JOÃO CÉSAR DAS NEVES

A Associação para o Planeamento da Família é uma organização não governamental criada há 35 anos e que tem por finalidade, inscrita nos seus próprios estatutos, “Ajudar as pessoas a fazerem escolhas livres, informadas e conscientes no âmbito da sua vida sexual e reprodutiva”.

Este objectivo tem sido traduzido pela APF na promoção de uma actividade de informação alargada à população jovem e adulta sobre o planeamento familiar e, nas últimas duas décadas, numa intensa intervenção junto de milhares de professores e outros profissionais de saúde na promoção da educação sexual nas escolas e na comunidade.

Em Portugal têm havido melhorias claras nos indicadores da saude sexual e reprodutiva, apesar de ainda haver muito por fazer. O aumento do uso de contracepção segura (e consequentemente, a diminuição do recurso ao aborto e do número de gravidezes não desejadas), a diminuição da gravidez na adolescência, a melhoria de todos os indicadores de saúde materna e infantil, a luta contra a ignorância que caracterizava a sociedade portuguesa nestas matérias até épocas recentes, são mudanças que foram alcançadas através de uma acção persistente de muitos milhares de profissionais de saúde e de educação. Foram alcançadas através da promoção de milhares de actividades de informação, de campanhas, de distribuição de materiais educativos e da promoção do acesso a cuidados e serviços de saúde que dêem resposta às necessidades da população.

A APF tem orgulho de ter tido neste processo um papel pioneiro. Falámos de planeamento familiar nos anos 60, quando ninguém ousava. Ousámos falar, já nos anos 80, da sexualidade dos jovens, do seu acesso à contracepção quando dela necessitassem, e do esforço que era preciso ser feito para promover a educação sexual nas escolas e fora das escolas. Contribuímos para o esforço nacional na luta contra a SIDA e outras infecções sexualmente transmissíveis. Denunciámos o problema do aborto clandestino, debatemos o problema quando alguns o queriam silenciado e pedimos a sua despenalização. Mas sempre trabalhámos e continuaremos a trabalhar para que haja cada vez menos mulheres e casais, jovens ou adultos a serem confrontados com este problema por ignorância ou porque correram riscos desnecessários.

A APF ao abordar a questão da educação sexual, e da intervenção dos profissionais nesta área da vida, das relações e dos valores humanos, junto de crianças, jovens e das suas famílias, sempre procurou fazê-lo e formar os profissionais para o fazer, de uma forma séria e baseada em claros e sólidos critérios de natureza técnica, científica e deontológica, e com um profundo respeito pela diversidade moral existente.

Vivemos hoje numa sociedade que é plural na sua forma de pensar e viver a sexualidade e na qual é impossível haver um pensamento único sobre estas e muitas outras matérias. Qualquer profissional que trabalhe nestas áreas, sabe bem que é errado tentar promover esta ou aquela forma de comportamento, esta ou aquela forma de estar na vida, porque os caminhos são muitos e as escolhas são diversas.

Nesta perspectiva, a APF pauta-se por um modelo de educação sexual que procura promover o respeito pelo outro, a responsabilidade na tomada de decisões, a autonomia pessoal, a valorização da sexualidade como uma dimensão positiva da vida e das relações afectivas e a adopção de comportamentos que previnam a coacção e a violência, as gravidezes não desejadas, o contágio da SIDA e de outras infecções sexualmente transmissíveis.

Há pessoas e grupos que não aceitam e não nos perdoam por sermos assim : por sermos o que somos e fazermos o que fazemos.

Há pessoas e grupos que não aceitam e não nos perdoam por falar de contracepção. Há pessoas e grupos para quem a informação e o acesso à contracepção é a promoção da promiscuidade.

Há pessoas que não aceitam uma educação sexual que aborde a sexualidade ,o prazer e os afectos, que fale da liberdade de escolhas na vida amorosa, sexual e reprodutiva porque não aceitam opiniões diferentes da sua ética estrita e rígida e cheia de caminhos definidos à partida.

Há pessoas para quem é perigosa a liberdade para fazer escolhas na vida sexual e reprodutiva e, por isso, tentam denegrir quem ache o contrário

Só assim se podem entender as acusações infames e falsas que João César das Neves faz à APF na sua coluna de opinião no “Diário de Notícias” de 18.11.02.

Queremos explicar que JCN fala do que não sabe: a APF não lecciona a educação sexual nas escolas mas apoia as escolas e os professores para fazê-lo. O programa a que JCN se refere não foi feito só pela APF mas por um grupo que reuniu dezenas de técnicos da educação e da saúde e que colheu cerca de uma centena de pareceres junto de especialistas de áreas e posições morais muito diversas.

O programa a que JCN se refere não “finge tratar de temas sanitários e de regras higiénicas” mas defende, como quadro ético orientador, entre outros valores” o reconhecimento de que a autonomia, a liberdade de escolha e uma informação adequada são aspectos essenciais para a estruturação de atitudes e comportamento responsáveis no relacionamento sexual” ou “o reconhecimento da importância da comunicação e do envolvimento afectivo na vivência da sexualidade”.

Nunca promovemos, “a promiscuidade, o adultério, a homossexualidade e o aborto” nem condenámos “ a castidade, a fidelidade, a temperança e a elevação do amor” porque, pura e simplesmente, não trabalhamos assim, nem nos movem estes objectivos. A APF existe para outras coisas, para aquilo que vem nos seus estatutos e não para o que JCN acha que existimos. Quem connosco trabalha, quem conhece ou recorreu aos serviços da APF sabe que é assim o nosso trabalho.

Afinal quem impõe o quê? Afinal onde está o obscurantismo?

Lisboa, 18 de Novembro de 2002

A Direcção Nacional da APF

 
Na 1:06 PM, Blogger Stephen King disse...

Para continuar:

http://barnabe.weblog.com.pt/arquivo/077458.html
Tem o link para o inominavel artigo de César das Neves.

http://dn2.sapo.pt/cronica/mostra_cronica.asp?codCronica=4054&codEdicao=1020
Sem comentário, especialmente esta passagem:

"Se a alguns ainda choca pensar que daqui a uns anos será banal considerar o horror das práticas pedófilas, é porque esqueceram o passado. Há uns anos era com a mesma náusea que se considerava o aborto e a homossexualidade. Há umas décadas era com o mesmo asco que se via a pornografia e o preservativo. Há umas gerações era com a mesma aversão que se olhava para o adultério e as uniões de facto. Em todos estes casos, a campanha venceu. O repúdio natural passou a oposição violenta, evoluiu como aceitação contrariada e terminou em banalização neutra. Hoje quem manifestar (sempre humilde e respeitadoramente, claro) opinião contra o divórcio, a pílula ou a pornografia será queimado como herege."

http://dn2.sapo.pt/cronica/mostra_cronica.asp?codCronica=4764&codEdicao=1020
Este então é uma maravilha..
"Se falarmos de lixos tóxicos, de racismo ou de exploração laboral, aí não há qualquer piedade, nem para os actos nem para as pessoas. O nosso tempo não aceita estas coisas de forma nenhuma e persegue sem remissão quem as comete. Mas se falarmos de adultério, de evasão fiscal ou de homossexualidade, aí o legítimo respeito pelos envolvidos pretende anular a indiscutível desordem das acções. Nos primeiros males não há compaixão possível; nos últimos não há mal nenhum. O recente repúdio pela guerra transformou-se em ataque aos americanos, enquanto se desculpa o divórcio pelos divorciados. Seria como gostar da cegueira por amor aos cegos.

Não se podem tolerar todos os estilos de vida; muitos têm de ser repudiados."

E posso continuar...
Pronto, o tipo não é estúpido.
É um preconceituoso reaccionário e homofóbico, além de intolerante.
Isso faz toda a diferença...

 
Na 5:50 PM, Blogger ISA disse...

A prática e o procedimento são comuns. Sempre que convém, fazer julgamentos e eventualmente influenciar outros, com base em frases retiradas do contexto. E o contexto, meu caro, é tudo. É um erro, falta de respeito, por quem escreve ou fala, e acima de tudo uma injustiça. Desculpa Rititi, estar a (ab)usar (d)o teu espaço, mas aqui tens, Stephen, as crónicas COMPLETAS, para veres como tudo fica diferente dentro do contexto.

“Obscurantismo
Quase 30 anos depois do 25 de Abril, é estranho ver em Portugal hoje alguém a clamar por uma liberdade fundamental.

A nossa sociedade está longe de ser perfeita, mas orgulhamo-nos justamente de termos garantidos todos os direitos cívicos.

Todos, menos um: não há liberdade educativa. O encontro do Fórum para a Liberdade de Educação, realizado este fim-de-semana em Lisboa, chamou dramaticamente a atenção para esta grave falha democrática do nosso sistema.

Mas o problema não é apenas de direitos.

A falta desta liberdade, como antes das outras, também se está a traduzir em sérios prejuízos para o desenvolvimento do País.

O desastre da educação é, sem dúvida, a mais preocupante das nossas dificuldades. Os testes internacionais mostram bem que aí Portugal não está na cauda da Europa. Está mesmo no meio de África.

Gerações de estudantes perdem o seu tempo nas escolas para saírem sem os conhecimentos mínimos. A maioria chega aos empregos e universidades com fortes vícios de raciocínio e lacunas graves de conhecimento e metodologia. Não sabem pensar, calcular, escrever; não conseguem trabalhar, analisar situações, resolver problemas. São antes especialistas em matérias abstrusas e minúcias pedagógicas. Os nossos estudantes são vítimas do obscurantismo.

A causa desta situação é simples e evidente: Portugal adoptou um sistema de ensino estalinista. Naturalmente que os resultados são soviéticos.

Vivemos num modelo de programa único, de pedagogia única, de exame único, de ensino único. Só não temos livro único porque é preciso mudar todos os anos para alimentar autores e editoras. Os professores adoram o conforto do funcionalismo. O ministério delicia-se com o poder do gigantismo. Os custos explodem. Os resultados estão à vista. Os mais desastrosos sentem-se nas línguas, sobretudo o Português, e na Matemática. Mas os mais patentes e prejudiciais registam-se no campo da moral.

A escola tem um papel essencial na formação humana dos seus estudantes. Isso é verdade em todos os graus de ensino, mas vital no básico. Neste tema, o modelo estalinista do Ministério da Educação embate contra a evidência: só é possível fazer educação moral dentro de um quadro cultural específico. Não existe uma ética geral e abstracta. Fora dos princípios genéricos (quase) consensuais, toda a aplicação da moral se faz dentro de uma atitude vivencial particular. Há uma ética cristã e uma ética muçulmana, uma ética marxista e uma ética liberal, uma ética positivista e uma ética burguesa.

Como nas viagens, o caminho é determinado pelo destino. Mas o Estado quer ser neutro, laico, imparcial.

Que fazer?

A solução passa por um método simples: a fraude.

O Estado assume explicitamente que a formação ética tem de ser específica e pede a colaboração da sociedade nessa leccionação.

Mas tem usado dois tipos de embuste na resposta a este problema. O primeiro, utilizado por exemplo na célebre disciplina de Educação Sexual, é o de impor um quadro cultural particular sob a aparência de neutralidade. O ministério adjudicou discretamente a leccionação dessas matérias à Associação para o Planeamento da Família. Esta, afirmando ensinar resultados científicos e informações rigorosas, está de facto a canalisar modelos de comportamento e opiniões muito particulares.

O programa previsto finge tratar de temas sanitários e regras higiénicas, mas é a condenação da castidade, da fidelidade, da temperança, da elevação do amor e a promoção declarada da promiscuidade, do adultério, da homossexualidade, do aborto.

A segunda fraude, ainda mais atrevida e infame, foi utilizada na questão da Educação Moral e Religiosa.

Aí, a instituição contactada às claras foi a Igreja Católica. Naturalmente, o ministério não pode impor a obrigatoriedade da versão católica.

Isso é liberdade de educação. Mas depois não consegue arranjar alternativas para os outros alunos do básico (de facto uma pequena minoria). Isto é falta de liberdade de educação.

Perante esta sua fragorosa incompetência, o ministério envereda pelo paroxismo do ridículo: retira a Educação Moral das horas normais de ensino. Com um desplante cândido, os nossos pedagogos assumem que a moral passa a ser optativa, que a ética não pertence ao programa lectivo, que os valores são actividade circum-escolar. Dizem isto sem pestanejar! Anunciam uma tal aleivosia sem corar de vergonha! Promulgam uma coisa destas sem serem castigados!

Estes são apenas dois exemplos entre mil. Por isso é tão importante que se compreenda que a luta por esta liberdade cultural é tão candente e decisiva como os antigos combates pela libertação política. Tal como então, uma clique de iluminados, em nome de um modelo arcaico, está hoje apostada no obscurantismo e no atraso do País.

É fundamental que saiam frutos de iniciativas como o Fórum para a Liberdade de Educação. A nossa democracia e o nosso desenvolvimento dependem disso."

Esta crónica é de 2002. Não sei se entretanto, e depois do parecer da APF - que erroneamente entende que, nas palavras de JCN, é esta associação que “promove a condenação da castidade, da fidelidade, da temperança, da elevação do amor e a promoção declarada da promiscuidade, do adultério, da homossexualidade, do aborto.” E o que ele DIZ é que é o programa, o programa da disciplina de Educação Sexual, criado pelo Ministério da Educação – JCN se pronunciou mais sobre o assunto.

“Tolerâncias
Num tempo que se diz tolerante, é estranha a ignorância geral do princípio mais básico da tolerância. Bem sei que se trata de um princípio cristão, uma das poucas coisas que os nossos tolerantes não toleram. Mas, mesmo assim, surpreende esta omissão porque, afinal, as ideias-base da sociedade moderna são cristãs.

Trata-se da distinção fundamental entre o mal praticado e a pessoa que o pratica. O mal deve ser sempre repudiado, precisamente porque é mal, enquanto a pessoa deve sempre ser respeitada, precisamente porque é pessoa. Não se toleram erros, abusos, crimes; o que se tolera são cidadãos, pessoas, irmãos.
...
Esta distinção, evidente e essencial, é difícil de fazer no quotidiano. Por isso se vê continuamente condenar as pessoas com os seus actos ou absolver o mal por causa da clemência com o maldoso. Na nossa sociedade, que se diz tolerante, estes dois erros são cometidos a todo o momento, mas em áreas distintas.

Se falarmos de lixos tóxicos, de racismo ou de exploração laboral, aí não há qualquer piedade, nem para os actos nem para as pessoas. O nosso tempo não aceita estas coisas de forma nenhuma e persegue sem remissão quem as comete. Mas se falarmos de adultério, de evasão fiscal ou de homossexualidade, aí o legítimo respeito pelos envolvidos pretende anular a indiscutível desordem das acções. Nos primeiros males não há compaixão possível; nos últimos não há mal nenhum. O recente repúdio pela guerra transformou-se em ataque aos americanos, enquanto se desculpa o divórcio pelos divorciados. Seria como gostar da cegueira por amor aos cegos.

Não se podem tolerar todos os estilos de vida; muitos têm de ser repudiados.

O que se deve, mais que tolerar, respeitar e amar são todas as pessoas, qualquer que seja o seu estilo de vida. Mas a opinião comum diz exactamente o contrário disto.

O mais curioso é que esta confusão está agora a cair no extremo, penetrando no insólito. A intolerância impiedosa das pessoas verifica-se em acções cada vez mais inócuas, enquanto a benevolência culposa chega já a crimes de sangue. Quem sujar uma praia, fumar em recintos fechados ou tiver excesso de alcoolemia é tão repudiado quanto os nazis.

Mas um drogado, uma mãe que aborta ou quem defenda a eutanásia é, não só absolvido, mas visto como um herói.

Estes últimos casos são particularmente graves, porque aí o violento é também uma das principais vítimas da sua violência. Isso, muito justamente, suscita a nossa simpatia e compaixão.

Mas não pode ser motivo para aceitar a maldade ignóbil que ele fez... e o atingiu.

O grande respeito e carinho que nos merecem as mulheres envolvidas no aborto, por exemplo, não desculpa o mal que cometeram no filho.

Não se pode negar a evidência da morte dos bebés no acolhimento dado às mães. O recente lema eleitoral «Aborto não é crime absolutamente» constitui, pois, uma mentira patente e uma magna aleivosia.O que, claro, não nos impede de tratar com respeito esses políticos, apesar da sua maldade."

“Para lá do bem e do mal
A campanha nacional para a promoção da pedofilia desenrola-se normalmente. A primeira fase, agora terminada, até foi mais longe que o previsto. Não só se banalizou o horror, como pretendido, mas passou mesmo a assunto central das discussões. Já começou a segunda fase, revelando algumas personalidades respeitáveis ligadas à prática. Não falta muito que alguém faça a pergunta sacramental: «Qual é o mal?», iniciando-se então fase decisiva.

O fenómeno segue as regras estabelecidas. Ainda há anos realizou-se um processo equivalente à volta do aborto, logo a seguir ao mais bem sucedido de todos, com o preservativo. Junto com a homossexualidade, estes já atingiram a fase final, a consagração nos programas escolares. Era tempo de passar a outros campos. Por isso há muito eram evidentes os preparativos para nova campanha nacional. A única dúvida era no tema escolhido, que tanto podia ser o estupro como a pedofilia. As tentativas iniciais, centradas à volta do assédio sexual, pareciam indicar o primeiro. Mas, de facto, começar pela pedofilia permitirá melhor: depois passar para os outros tipos de violência.

Se a alguns ainda choca pensar que daqui a uns anos será banal considerar o horror das práticas pedófilas, é porque esqueceram o passado. Há uns anos era com a mesma náusea que se considerava o aborto e a homossexualidade. Há umas décadas era com o mesmo asco que se via a pornografia e o preservativo. Há umas gerações era com a mesma aversão que se olhava para o adultério e as uniões de facto. Em todos estes casos, a campanha venceu. O repúdio natural passou a oposição violenta, evoluiu como aceitação contrariada e terminou em banalização neutra. Hoje quem manifestar (sempre humilde e respeitadoramente, claro) opinião contra o divórcio, a pílula ou a pornografia será queimado como herege.

Não se deve pensar que estas campanhas são planeadas por poderes ocultos e sinistros. Os piores movimentos da História resultam de impulsos triviais. O deboche nunca precisou de partidos clandestinos. A ele juntam-se forças laterais, visíveis e identificáveis, mas apenas coadjuvantes e secundárias. Os media querem vender, os políticos procuram brilhar e os burocratas gostam de regulamentar. Todos entenderam há muito que o escândalo compensa. Se a isto se juntar a arrogância de parlamentares e técnicos ministeriais, a hipocrisia e o seguidismo populares, a campanha está montada, mesmo na ausência de cérebro planeador. Terá o sucesso das anteriores.

Se a busca do prazer se sobrepõe ao pudor e à família, onde estão os seus limites? Se é aceitável matar crianças dentro do seio da mãe, porque não se pode abusar delas depois de nascerem? Esta é a intuição genial de Nietzsche logo em 1886, ao compreender que, abandonadas as referências espirituais, passámos «para lá do bem e do mal». Tudo é permitido e pode ser recomendado.

Para lá do bem e do mal vive a miragem da libertação e o império do mais forte. O resultado é a dor e o sangue. A lógica de liberdade absoluta aplicada à propriedade e à raça deu a «ditadura do proletariado» e o «holocausto», tendências que estão a reaparecer. Aplicada à vida quotidiana dá ciúme, divórcio, promiscuidade, droga, a violência nos media, a clonagem, a inseminação artificial, as novas armas, o terrorismo e, claro, guerra. É o resultado de abandonar a árvore do conhecimento do bem e do mal."

Isto para te dizer, meu caro, que, independentemente de não CONCORDARES, ele fundamenta-se, esclarece a sua OPINIÃO, com base na história e em factos mais ou menos recentes.

É um preconceituoso reaccionário e homofóbico, além de intolerante., dizes tu.

RE: Preconceituosos são os defensores do politicamente correcto e do respeito pelas opiniões. Porque só o são quando lhes convém. Reaccionário, não me parece. Tem apenas a coragem de dizer o que pensa. Nunca leste, em qualquer crónica dele expressões do tipo: antes é que era bom, assim é que deveria ser etc. Intolerantes são os que não aceitam a opinião dele, tão válida como qualquer outra. Ele não é primeiro-ministro, não faz leis nem é responsável pela sua promulgação e/ou homologação. É professor de economia. Tive o prazer de estudar por livros dele e pude concluir que, para além de escrever bem e com uma linguagem acessível (sem querer armar aos cucos ou mostrar que sabe, que está muito na moda, digo eu) explica o que tem a explicar em relação às matérias económicas, não pretende mudar mentalidades nem condenar ninguém, apenas porque pensa de maneira diferente da dele. Independentemente de, em SEDE PRÓPRIA, condenar ACTOS. Mas nunca pessoas.

Homofóbico? Não encontrei no meu dicionário da língua portuguesa, de 13 volumes, se tiveres um tão completo e mais recente... Mas partindo a palavra, que acabas de inventar, os meus parabéns, diria que ele tem fobia dos homens, ou seja dele próprio... Não percebo!

O máximo que consegui, e por aproximação, foi: homófago, que se alimenta de carne crua... Não o estás a acusar, para além de tudo o resto, de ser canibal, não?

PS: tenho pena que os comentários não respeitem os bolds do word. Tinha posto a bold "o contraditório" para te facilitar a vida. Ao menos respeita as aspas. Podes assim ver, facilmente, onde começam e acabam as crónicas.

 
Na 6:42 PM, Blogger rititi disse...

Nunca pensei que neste meu blogue o João César das Neves tivesse tanto protagonismo...
Se isto não é serviço publico então que me expliquem...

 
Na 12:27 PM, Blogger papoila disse...

olha! uma chata...!

 
Na 4:11 PM, Blogger Stephen King disse...

No presente momento, por questões de trabalho, não tenho o tempo necessário para contrabalançar os argumentos aduzidos pela Isa.
Mas voltarei para demonstrar que a contextualização afasta o espectro do preconceito e da segregação de ideias e posições sem fundamento que não a beatice.
No entanto, um argumento parece-me mais falacioso que todos os outros.
Dizer que alguém que critica comportamentos e não pessoas, seria a mesma coisa que dizer que estas estão desresponsabilizadas e não se identificam com aqueles, ou o seus produtos. Alguém que critica comportamentos exercendo e demonstrando preconceitos, não se limita a agir de forma preconceituosa ( e em meu ver estupida, porque preconceito normalmente significa ignorância), como se as suas acções estivessem num parametro mágico de desresponsabilização. Se eu ajo com preconceito, sou preconceituoso, se descrimino em razão da cor da pele ou nacionalidade, sou racista, se mato, sou pelo menos homicida ( se doloso ou negligente é outra conversa). Ou seja, e penso que já era o Ovídio que o dizia, um homem (também) se define pelas suas acções.

Mas o contraditório voltará.

Saudações.

 
Na 7:22 PM, Blogger ISA disse...

E eu então... Estou no Brasil a curtir a minha família brasileira e não quero nem saber de discussão e muito menos de mau humor!!! Saudações bem calorosas!!!

 

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