Querido Blogue,
Hoje, a mais de seiscentos quilómetros de casa, acontece que me dói Portugal. Uma dorzinha que não mata nem mói, mas que dá azia, instalou-se encima do estômago, entre a alma e a vontade de comer bacalhau cozido com todos. Ser português não é fácil. Que despreocupação a dos espanhóis, tão plurinacionais, tão dados a debates no parlamento que duram oito horas, Espanha sim, Espanha não, y tan contentos que se quedan, oyes. E que inveja dos ingleses e da Rainha e da caça à raposa, e que respeito que têm pelo hino e as ex-colónias. Quem me dera ser americana e orgulhosa da minha bandeira estrelada, os gajos que invadem o que for preciso que para isso são o bastião da democracia e liberdades interplanetárias.
Mas não, tocou-me a lusitanidade no bilhete de identidade e assim tenho que viver, envergonhada cada vez que abro as páginas dos diários electrónicos nacionais a mais de seiscentos quilómetros de casa, porque nem direito tenho a ler em papel o que acontece para lá da fronteira do Caia. Portugal não existe mais que dentro dos limites mentais de quem nunca sai do seu bairro, onde se come bem e se bebe melhor.
Dói-me Portugal e o seu desleixo crónico com os que saíram, dói-me o umbiguismo e a mente pequena de quem desgoverna uma terra de emigrantes que enviam remessas de poupanças e saudades. Os que não estamos é porque não queremos, e somos condenados à musica pimba e ao Portugal no Coração via satélite. Pá mear y no echar gota, vamos, e jovens gestores, cientistas, filósofos e historiadores são obrigados a ganhar o pão e o sotaque longe da terra e dos pastéis de nata.
Dói-me Portugal e o destino que nos espera, empurrados que vamos por uma classe politica de merda, comichosa e com tendência ao boato e à metáfora medíocre. Uns são de colo, outros de senhoras, e até há quem se legitima pelo número de filhos que pariu a esposa, porque mulheres na política, está bem abelha. Política macha, que diria a Inês Pedrosa, y a quien coño le importa que o feminismo seja visto ainda como uma excesso de hormonas e falta de peso. O que tu queres sei eu, obrigada RAP pela a melhor caricatura do macho pátrio.
Dói-me Portugal e as contas mal feitas, amostra de contabilidade criativa e do pouco respeito à noção do Estado que somos todos, sempre à rasquinha para chegar ao fim do mês e ao limite orçamental, enquanto clubes de futebol, autarquias e mafiosos de província se beneficiam de produtos de investimento à medida e do sigilo bancário, tabu politico e símbolo da inércia mental dos partidos reféns de egoísmos e vivendas com piscinas de mármore.
Hoje, sentada em frente ao computador, não há quem me convença que Portugal está melhor que há vinte anos, hoje que o endividamento das famílias lusitanas atinge o 90% da riqueza ganha com ordenados precários e próprios do terceiro mundo. Hoje quero que me adopte um Estado que aprecie o meu trabalho, as minhas potencialidades, que respeite o meu direito a ser mãe e trabalhadora, mulher e bebedora, que não me prenda a uma ideia de feminilidade própria do islamismo.
Hoje, a mais de seiscentos quilómetros de casa, sem um café decente que beber e longe da minha língua, procuro a minha pátria nos cabeçalhos dos jornais on-line portugueses. E não vejo mais que tristeza mental e desrespeito a quem compõe uma nação com mais de oitocentos anos.

29 Comentários:
Genial, adorei, adorei, adorei ! Parabéns !
Se lhe interessar (mais do mesmo) espreite o Alberto Pimenta “E esta fatídica vocação para as pantufas... Conta-se que, depois do terramoto, alguns aristocratas que ficaram sem palácio instalaram-se em barracões onde é hoje o Rato, com grande promiscuidade e as couvinhas lá atrás. Quando os palácios ficaram prontos, não queriam sair, pois era ali que lhes sabia bem. Isto define a mentalidade portuguesa.” Aqui: http://www.delfim.info/lusomania/pimenta.htm
Pois é.Eu também ia dizer que adorei este post mas não digo.Não digo porque preferia sinceramente que nunca te tivésses lembrado de escrever uma coisa assim,que nunca houvésse razões para escreveres o que escreves,que não fosse preciso.Porque aqui também me dói um bocadinho.
Dói e de que maneira!
Portugal é belo, os políticos e criminosos afins é que dão cabo dele..
E nós, com a nossa inércia, que só queremos novelas e futebol, ainda os ajudamos a destruír mais isto!!!
Falando do interior, onde chegam os jornais mas não chegam as acções, apenas posso dizer que me dói mais a seca de ideias que vejo em todo o lado (e como me doi ver a apatia da maior parte dos meus alunos) do que esta seca passageira de que tanto falam. Mas cá vamos andando, cantando e sorrindo, que enquanto houver bola e boatos o povo fica contente.
Porra pá, já me tiraste a vontade de ir corrigir mais uns exames....
É que parece de propósito. Às vezes tenho ganas de emigrar. E logo hoje venho aqui ler isto (isto, sem qualquer tipo de acentuação negativa, porque está divino!). Agora é que se me aumentam as ganas.
Grande post... Concordo contigo quando dizes que isto não mata mas mói. É o que sinto e por isso é que já não me custa tanto pensar em emigrar.
Ai Ritinha, como te percebo... E agora que troquei Jacarta por Bruxelas ainda mais. Muitas vezes penso que devia voltar para Portugal e fazer parte do esforco para tirar o pais da esterqueira. OK, sou lirico e ingenuo... (e talvez me tenha em demasiada alta consideracao...) Mas tenho sempre a sensacao de que qualquer esforco nesse sentido vai ser sempre rapidamente absorvido e neutralizado pela merda dominante pouco dada a abanoes no staus quo.
Se houver por ai ideias brilhantes para mudar isto, avisem-me que eu tou la!
(Ja agora, os jornaleiros em Madrid tambem sao como os belgas que se riem quando lhes perguntas se recebem jornais portugueses? Por aqui ainda so vi umas quantas Nova Gente num supermercado...)
Beijo
Bernardo
É preciso matar o que existe para se erguer aquilo que merecemos. Eu faço a minha parte.
Saúdo este post e peço mais.
Mesmo concordando, sofro de uma paixão de corno manso por Portugal: penso em voltar pelo menos uma vez por semana. E sim, os pastéis de nata e o café decente têm a sua influência na minha melancolia:).
Beijos
Em Bruxelas? Mas ó rapaz tu nao paras quieto?
Bem... depois de tanto pessimismo (o meu claro) peço aqui um post alegre e saudosista, do género "Os portugueses é que sao bons!" ou "Portugal, esse karma".
Espero pacientemente!
Pois é... ouvi dizer que o seu blog estava a tornar-se um êxito e vim espreitar. Muito giro. Gostei. Os meus parabéns, e a promessa de passar a vir cá mais vezes visitar esta sua assoalhada.
;)
concordo plenamente com o post. falando do ponto de vista cientifico, e apesar das melhorias dos últimos anos, Portugal continua muito atrasado em termos de investigação científica. isto leva à famosa "fuga de cérebros" de que tanta gente fala, mas pouco faz para a reverter. e continuando como estamos, não se vêem grandes melhorias.
daí que o futuro mais próximo para quem, como eu, trabalha em ciência seja o de passar quem sabe quantos anos num país que não é o nosso. e que, por muito que tentemos, nunca o será. é por isso que só mesmo o português tem a saudade...
pois não serei eu a escrever o tal post alegre...
lembrei-me de muitas vezes em que, também a viver fora, senti exactamente o que descreves; essa contradição de sentimentos e vontades, essa saudade e raiva...
e infelizmente (...) agora tenho é por vezes saudades dos quotidianos passeios por hyde park, ou do bar da esquina em camden town, ou das cañas e dos pinchos, ou dessa muy espanhola fuerza...
cheira-me que virão dias de bilhete só de ida com indefinido intervalo para o regresso.
besitos!
Olá ritinha, minha querida, o texto está lindo, de tão sentido e verdadeiro, mas não fiques assim! Vou pensar num post bem alegre para te animar, hummm...xacáver. ;)
Tens razão, tens razão, tens razão. E é por essas e por muitas outras que um dia destes talvez nos cruzemos pelas ruas de Madrid, mesmo que não saibamos que partilhamos tão intimamente uma visão comum do (desgraçado) estado de coisas...
Hugo
http://embriaguezdametamorfose.blogspot.com/
Todos os países têm problemas. O problema de Portugal é que não os resolve. Quando (ao menos) tem consciência deles, quando muito queixa-se. Ou emigra. Ou as duas coisas.
Com sua liceença, vai para os meus links.
Excelente texto Rititi. Já fui emigrante durante 16 anos da minha vida e sei bem do que falas e sentes. Depois, tudo que dizes, sobre a incompetência dos que governam e comandam este país, assenta como uma luva na dinâmica do texto. E o lado das mulheres é muito bem retratado: nem sei porque é que votam, se nem sequer estão representadas... e fico por aqui.
Abraço
Excelente texto. Obrigado!
Os portugueses sofrem na sua maioria de uma espécie de doença aproximada à bipolar, com indícios de masoquismo oculto. Isto é grave, muito grave... Ficam inertes, quase em estado de queda vertiginosa. E continuam na velha pergunta, já corroída coitada: quem é que nos salva? O problema é que não vemos salvação possível...Avé.
Bjs e continua, claro! ;)
Permita-me o desacordo. Pior que tudo é ser diariamente forçado a suportar a choldra em que se transformou este meu/nosso Portugal do século XXI.
Quanto às ideias, estou de acordo. Mas que quer? Não seremos o único povo ao cimo da Terra que tem "fado"?
Pá, até tive vergonha de ler o que li... Não por ser português, claro, mas por ver algumas das opiniões aqui postadas. Sinceramente, nunca percebi muito bem as pessoas que emigram... Uma vida melhor? Duvido... Procura de oportiunidades que cá não têm? Duvido...
É, de facto, uma situação complicada, tentar ler o que passa na cabeça destas pessoas. E estou a falar de emigrantes com estudos e alguma cultura, que não os do interior do País (esses compreendem-se bem...).
Só faz falta quem cá está e é com esses que temos de (tentar) levar o país para a frente!
Agora pirarem-se e ainda terem a lata de dizer o que aqui foi dito, valha-vos nossa senhora!
(Get a country!)
Já dizia a Maria Rita, a também cantora filha de ÉLis Regina, quando lhe perguntaram se gostou mais de viver nos Estados Unidos ou no Brasil:
"Olha, os Estados Unidos é bom para viver mas é ruim; o Brasil é ruim para viver mas é bom."
Serve como pequeno paliativo para essa tristeza? ;-)
Querida Rititi, cá nos encontramos neste limbo que é o do português emigrante, de alma doída por aquilo que ama profundamente e vê tão mal tratado; incompreendido pelos que ficam, quer por escolha ou falta dela, auto-legitimados no direito de criticar ou defender a nação que tanto é dos primeiros como dos últimos. Levamos Portugal para fora, e quando voltamos, encontramos um país que não é o mesmo que levávamos dentro. Essa inconsistência dói a todos os que, emigrantes ou não, se apercebem de que as coisas podiam ser muito diferentes. Aquilo que tu escreves aqui, não me sai do coração, mesmo depois de calcorrear durante 60 dias a calçada portuguesa.
Volta depressa.
Muito bem, menina, muito bem. A referência a esta cambada de corruptos é que ficou pouco clara. Dá-lhes mais, se puderes.
Rititi, coloquei no meu blog um texto sobre Portugal, não sei se será alegre e saudosista, e até acho que tem um cunho algo ingénuo e infantil, mas foi o que saiu...
Acho que queremos mesmo é ver um post da Rititi sobre o seu país, mas positivo...ou será assim tão complicado encontrar coisas positivas???
Oh RiTiTi...
Tu és o máximo...
És uma ''pariga'' e pêras...
Gostei de tudo que escreves-te...
Caso fosses ''gajo''... diria... que ''os tinhas no sítio''...
Uma joquita.
Por cá, a 0 Km do destino do coração e da vida, também dói muito. Não há sabor de café e pastel de nata que nos dure mais do que o estritamente necessário para chegar ao estômago. Por aí, mais longe, dói a comparação ao que poderia ser...
FDX!!!
Lindo!
Parabéns! Mas olha que não é só quem está longe que sente isso... é quem cá está e não sabe o que fazer para resolver.
(nunoduarte.blogspot.com)
A despropósito, do lado de dentro do dito sitio,vim aqui parar, para daqui sentir a lufada fresca dos que estão desse lado de fora, mas dentro. Porque aqui, o que faz falta, são mentes abertas, lavadas, frescas, arrojadas e audazes, capazes de reinventar um país. Vamos a isso, criar uma networking com ideias, referências e contactos com todos os que não desistem deste Portugal. Nosso, não dos políticos...
Mié
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