Quinta-feira, Março 17, 2005

Querido Blogue,

A dois dias de me meter na aventura automobilística do IP 5 para ir jantar com a sogra a Espinho, vejo que o Nuno, portuense e emigra em terras da Cataluña, respondeu à minha desgarrada Norte-Sul-a-minha-terra-é-melhor-que-a-tua usando um tema tão delicado - por conjugal - para mim como a francesinha. E fê-lo com um texto magnífico, por sentido e apaixonado, defendendo o seu petisco como a amante que o espera na aldeia, tão linda e tão composta, vestidinha de limpo e com os olhos postos na saudade do homem que nunca mais volta a casa.
Acontece, querido Nuno, que tanto amor assolapado deixou-te cego e insensível aos prazeres quotidianos. Dizer que a francesinha é um prato “sem desperdício nem exagero” é como afirmar que a característica principal do Palácio da Pena é a simplicidade e a discrição. A francesinha é tudo quanto queiras: recompensante, delirante e até confratenizadora - se bem não entendo porque o povo não se pode encontrar à volta de uns belos de uns pezinhos de coentrada (de madrugada no Cais do Sodré e rodeada de putas velhas nunca me senti mais aconchegada).
Mas simples???? Só pela confecção “duas fatias de pão de forma, linguiça, salsicha fresca – olvidaste o inefável fiambre - carne assada ou bife, queijo fatiado, tudo dentro do pão, menos o queijo que ficará a cobrir”... Sem esquecer o molho, o tão afamado molho de tomate com sabe Deus com que ingredientes se mistura o conhaque ou outro álcool de terceira categoria (sic). Isto é uma ordinarice, um exagero, uma falta de decência com a gastronomia simples, um desprezo à composição culinária mais ordeira e um atentado ao estômago de uma pessoa de bem.
Para uma alentejana, arrumar numa só tacada esta argamassa de proteínas, é no mínimo impensável. Não que debaixo do Tejo a contundência seja proibida, mas querido Nuno, tudo tem um limite: o decoro. O Porto, além de burguês e rico, é também vaidoso e não resiste mostrar ao forasteiro o bem que se lhe dá a vida. Ante o ar assombrado da visita em frente à francesinha o portuense lança um risinho orgulhoso e “desculpa lá”, ah, mas isto são só as sobras... Pois. O bom vem depois, estamos só no lanche, atrevendo-se o local até afirmar que não custa nada comê-la, não enche. Um petisco. Enfim.
A francesinha é a miúda gorda da família a quem os pais dizem que assim é que está bonita – bem criada e rechonchuda - que aprendeu, à base de tanto repetir a lição, que as magricelas não valem um cu e devem ser achincalhadas por anorécticas. É o brutamontes da turma, tonto mas o mais forte, que bate nos que passam com boas notas a Matemática e a Latim. É o uirdo que só arranja amigos se convidar a turma para a piscina da vivenda. Não é má pessoa, mas não é lá muito esperta, coitada.
Já a açorda alentejana, de tão pobre, tornou-se limpinha e discreta, sem ter que dar nas vistas. Um molho de coentros, dois dentes de alho, azeite da terra e agua. O pão duro, de ontem, porque a vida não está fácil, alimenta a família e os que param no caminho esfomeados. Alguma coisa se arranja, diz o alentejano quando batem à porta os primos do Norte a caminho do hotel caro em Vilamoura, e aperalta a mesa com o que o campo ou a falta de dinheiro dispensam: toucinho da matança anual, figos do quintal e um par de tomates. Olha, uma sopa divinal! E os primos lá se vão embora para a praia dos ricos, dos que se esfolam o ano todo, deliciados, olha que terra tão simpática, afinal até não se come mal. Pena que sejam tão preguiçosos, diz o tio da Rua da Boavista, porque apesar do Alentejo ser fértil, generoso e com o prato na mesa para os que pedem um copo de vinho e azeitonas pretas, não é como eles: os esforçados trabalhadores que sacam o País da miséria.

A riqueza não é um prato orgiástico e pretensioso. É o ser sem o ter, sem a vaidade do riso matreiro e do carro novo na garagem, sem lembrar gratuitamente e a todas as horas que as sobras de uns são as necessidades dos outros.
Eu prefiro o gaspacho, Nuno, por muito que te reconforte a Cufra e o camarão surpresa.




8 Comentários:

Na 7:21 PM, Blogger Victor Lazlo disse...

O Nuno está de parabéns por duas razões: (i) o seu texto é bom na medida inversamente proporcional ao seu objecto (isto constitui um grande elogio), a fracesinha. Por outro lado, conseguiu escrever uma longa prosa sem nunca indiciar sequer a intenção de fazer o estafado trocadilho com o nome da coisa.
Rititi, para quando essa açorda, esse ensopado de borrego ou umas boas migas?

 
Na 1:10 PM, Blogger amok_she disse...

...bem "dezido", moça!!!;-)...viva a açorda (alentejana!) e abaixo os francesismos, perdão...essa coisa francesa!...o meu estômago não aguentaria...se experimentasse!:->

 
Na 12:59 AM, Blogger Peter disse...

Sou um ignorante e vou morrer estúpido: nunca comi uma francesinha (no prato ...). Vejo que tenho aqui compadres, ou comadres. Quinta-feira deliciei-me em pleno Alentejo, com umas belas migas de espargos com plumas de porco preto e acompanhadas com um belo tinto Monte Velho, colheita de 2003. A companhia comeu sopa de cação.

 
Na 8:25 PM, Blogger Sr. Zé disse...

Pois eu cá sou muito liberal:

- quando vou ao Porto, como Francesinhas
- quando vou ao Alentejo como migas com carne de porco
- quando vou a Trás-os-Montes como posta mirandesa
- quando vou ao Casanostra como pasta
- quando vou ao Carlton Valle Flor, como aquelas tretas minúsculas num prato gigantesco (não sou eu que pago!!)

Vetar comidas só por questões geográficas? Ná!

 
Na 2:57 PM, Blogger caterina disse...

opá, para que foste tu falar da açorda, num dia "chuvarento" como o de hoje, sem que eu possa atravessar o rio, entrar em casa e desatar a pisar alhos? Não, isso não se faz...

 
Na 3:46 PM, Blogger flossi disse...

Ó rintintin, anda mazé brincar comigo pró quintal... ;)

 
Na 6:14 PM, Blogger K.B. disse...

A açorda é um prato magnífico, na sua sábia/saborosa simplicidade, e os seus textos são ainda mais magníficos pela riqueza e argúcia do seu sentido de humor.

 
Na 1:31 AM, Blogger P. disse...

detesto francesinhas. uma agonia.
:(
Se ainda fosse uns caracóizinhos. *risos*

 

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