Querido Blogue,
A dois dias de me meter na aventura automobilística do IP 5 para ir jantar com a sogra a Espinho, vejo que o Nuno, portuense e emigra em terras da Cataluña, respondeu à minha desgarrada Norte-Sul-a-minha-terra-é-melhor-que-a-tua usando um tema tão delicado - por conjugal - para mim como a francesinha. E fê-lo com um texto magnífico, por sentido e apaixonado, defendendo o seu petisco como a amante que o espera na aldeia, tão linda e tão composta, vestidinha de limpo e com os olhos postos na saudade do homem que nunca mais volta a casa.
Acontece, querido Nuno, que tanto amor assolapado deixou-te cego e insensível aos prazeres quotidianos. Dizer que a francesinha é um prato “sem desperdício nem exagero” é como afirmar que a característica principal do Palácio da Pena é a simplicidade e a discrição. A francesinha é tudo quanto queiras: recompensante, delirante e até confratenizadora - se bem não entendo porque o povo não se pode encontrar à volta de uns belos de uns pezinhos de coentrada (de madrugada no Cais do Sodré e rodeada de putas velhas nunca me senti mais aconchegada).
Mas simples???? Só pela confecção “duas fatias de pão de forma, linguiça, salsicha fresca – olvidaste o inefável fiambre - carne assada ou bife, queijo fatiado, tudo dentro do pão, menos o queijo que ficará a cobrir”... Sem esquecer o molho, o tão afamado molho de tomate com sabe Deus com que ingredientes se mistura o conhaque ou outro álcool de terceira categoria (sic). Isto é uma ordinarice, um exagero, uma falta de decência com a gastronomia simples, um desprezo à composição culinária mais ordeira e um atentado ao estômago de uma pessoa de bem.
Para uma alentejana, arrumar numa só tacada esta argamassa de proteínas, é no mínimo impensável. Não que debaixo do Tejo a contundência seja proibida, mas querido Nuno, tudo tem um limite: o decoro. O Porto, além de burguês e rico, é também vaidoso e não resiste mostrar ao forasteiro o bem que se lhe dá a vida. Ante o ar assombrado da visita em frente à francesinha o portuense lança um risinho orgulhoso e “desculpa lá”, ah, mas isto são só as sobras... Pois. O bom vem depois, estamos só no lanche, atrevendo-se o local até afirmar que não custa nada comê-la, não enche. Um petisco. Enfim.
A francesinha é a miúda gorda da família a quem os pais dizem que assim é que está bonita – bem criada e rechonchuda - que aprendeu, à base de tanto repetir a lição, que as magricelas não valem um cu e devem ser achincalhadas por anorécticas. É o brutamontes da turma, tonto mas o mais forte, que bate nos que passam com boas notas a Matemática e a Latim. É o uirdo que só arranja amigos se convidar a turma para a piscina da vivenda. Não é má pessoa, mas não é lá muito esperta, coitada.
Já a açorda alentejana, de tão pobre, tornou-se limpinha e discreta, sem ter que dar nas vistas. Um molho de coentros, dois dentes de alho, azeite da terra e agua. O pão duro, de ontem, porque a vida não está fácil, alimenta a família e os que param no caminho esfomeados. Alguma coisa se arranja, diz o alentejano quando batem à porta os primos do Norte a caminho do hotel caro em Vilamoura, e aperalta a mesa com o que o campo ou a falta de dinheiro dispensam: toucinho da matança anual, figos do quintal e um par de tomates. Olha, uma sopa divinal! E os primos lá se vão embora para a praia dos ricos, dos que se esfolam o ano todo, deliciados, olha que terra tão simpática, afinal até não se come mal. Pena que sejam tão preguiçosos, diz o tio da Rua da Boavista, porque apesar do Alentejo ser fértil, generoso e com o prato na mesa para os que pedem um copo de vinho e azeitonas pretas, não é como eles: os esforçados trabalhadores que sacam o País da miséria.
A riqueza não é um prato orgiástico e pretensioso. É o ser sem o ter, sem a vaidade do riso matreiro e do carro novo na garagem, sem lembrar gratuitamente e a todas as horas que as sobras de uns são as necessidades dos outros.
Eu prefiro o gaspacho, Nuno, por muito que te reconforte a Cufra e o camarão surpresa.

8 Comentários:
O Nuno está de parabéns por duas razões: (i) o seu texto é bom na medida inversamente proporcional ao seu objecto (isto constitui um grande elogio), a fracesinha. Por outro lado, conseguiu escrever uma longa prosa sem nunca indiciar sequer a intenção de fazer o estafado trocadilho com o nome da coisa.
Rititi, para quando essa açorda, esse ensopado de borrego ou umas boas migas?
...bem "dezido", moça!!!;-)...viva a açorda (alentejana!) e abaixo os francesismos, perdão...essa coisa francesa!...o meu estômago não aguentaria...se experimentasse!:->
Sou um ignorante e vou morrer estúpido: nunca comi uma francesinha (no prato ...). Vejo que tenho aqui compadres, ou comadres. Quinta-feira deliciei-me em pleno Alentejo, com umas belas migas de espargos com plumas de porco preto e acompanhadas com um belo tinto Monte Velho, colheita de 2003. A companhia comeu sopa de cação.
Pois eu cá sou muito liberal:
- quando vou ao Porto, como Francesinhas
- quando vou ao Alentejo como migas com carne de porco
- quando vou a Trás-os-Montes como posta mirandesa
- quando vou ao Casanostra como pasta
- quando vou ao Carlton Valle Flor, como aquelas tretas minúsculas num prato gigantesco (não sou eu que pago!!)
Vetar comidas só por questões geográficas? Ná!
opá, para que foste tu falar da açorda, num dia "chuvarento" como o de hoje, sem que eu possa atravessar o rio, entrar em casa e desatar a pisar alhos? Não, isso não se faz...
Ó rintintin, anda mazé brincar comigo pró quintal... ;)
A açorda é um prato magnífico, na sua sábia/saborosa simplicidade, e os seus textos são ainda mais magníficos pela riqueza e argúcia do seu sentido de humor.
detesto francesinhas. uma agonia.
:(
Se ainda fosse uns caracóizinhos. *risos*
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