Segunda-feira, Março 07, 2005


Querido Blogue,

O homem move-se. A butes, de mota, em cima de uma trotinete, ao pé coxinho e de patins, em metro e até de carro, caso o mundo, o trânsito e até o dinheiro lhe favoreçam. Não é o meu caso, pobre desgraçada e sempre a contar os tostões ao fim do mês, porque ninguém me manda gastar o ordenado em copos, drogas e sopas miso. A vida, quando não é bem administrada, obriga-nos à locomoção pública, como o autocarro 51. Não me orgulho da minha condição de utente rodoviária, muito menos às oito e meia da manhã , com cachecol e cuecas de gola alta para evitar morrer de frio, e os olhos enfiados na Vanity Fair e na esperança de madrugadas no aconchego dos lençóis e do peito de Mr. Pinheiro.
Mas de nada me servem as queixas dentro do autocarro 51, cómodo, com aquecimento central e semi-vazio, que a vida não é assim tão puta e ainda me deixa ir sentada caminho do trabalho. Mulheres-a-dias, administrativos, estudantes de liceu, emigrantes caminho do consulado e da regularização de papéis e sobretudo mães, pais e muitas crianças. O cabrão do autocarro 51 é uma camioneta escolar. Na paragem de Sol entra uma alemã cavalona, ancuda e com três criaturas em idade escolar. Pendurado da mama esquerda traz um recém-nascido, escondido dentro de um fato de ursinho polar, encardido e totalmente demodé. Começa mal o meu dia, entre brigas das manas mais velhas para agarrar o coitado do bebé, entretanto esquecido pela parideira entre os braços de uma dominicana com o instinto maternal aos pulos. “Próxima parada”, calle Alacalá. Um pai divorciado, claramente de esquerda e sem empregada que lhe ajude, aumenta a quota infantil do autocarro com duas crianças despenteadas e com ar de quem precisa rapidamente de ser passado a ferro. Meto a cabeça dentro da reportagem sobre os protagonistas dos Óscares, uma maravilha com fotos do Javier Bardem em poses napoleónicas e impróprias para a lasciva madrugadora. Quando a baba começa a cair-me pelo queixo abaixo, lubrificando o meu ego matinal, sou arrancada do deleite cinematográfico por dois berros estridentes. Os despenteados mentais decidiram cantarolar as músicas favoritas dos Lunis, espécie de marretas espanhóis com pretensões pedagógicas. O Governo ZP é que sabe como entreter a infância, ah pois é. Nos vamos a la cama, hasta mañana, e ainda só engoli dez minutos de autocarro.
Em Cibeles a creche aumenta, uma criada mulata e fardada de Anjo Selvagem arrasta três candidatas a betas para o meio do corredor do autocarro. Fardas impolutas, sapatos resplandecestes e uns totós perfeitamente esticados e decorados com laços azuis gigantes. Mesmo que tenha desistido da Vanity Fair, finjo qual puta, e faço de conta que não reparo nos olhares da doméstica exigindo um lugar sentado para as betas. Do meu sítio não me levanto, não querias mais nada. As futuras betas não são lá muito amigas dos filhos do divorciado – cheiram mal e não têm apelidos conhecidos – e dedicam a viagem a falar da iminente operação às varizes da Tia Júlia, uma vítima do socialismo pelo que pude apurar, uma santa e uma exemplo para as mulheres religiosas da família. Entretenho os meus pensamentos com a imagem da Tia Júlia a lutar contra os esquerdalhos à saída da missa das oito. As crianças e a sua inocência... As manas alemãs tentam inutilmente fazer conversa com as betas usando o recém-nascido como isco, mas não chamam a sua atenção. Há muito que a geriatria substitui a puericultura. Nada dá mais jogo que uma boa hérnia e afinal, que são essas estrangeiras que querem integrar-se no nosso autocarro?
Falta pouco para o fim da minha viagem, mas mesmo assim na Calle Velazquez o 51 ainda tem tempo de apanhar duas irmãs gémeas alunas do Liceu Francês. A burguesia gala entra em força pela porta do autocarro, presumindo de sotaque, dinheiro velho e sobranceria genética. Que pedigree, que sotaque, que diferença. Não precisam de laçarotes nem de criadas internas para mostrar o seu status social. O cabelo curto mas feminino, óculos Armani, brincos minúsculos de ouro, assim se mantêm as classes. Ignoram todos os viajantes, excepto as alemazinhas e os filhos do divorciado, por quem nutrem uma sincera amizade linguística e uma compaixão a roçar a santidade. Combinam as férias de verão na Selva Negra, enquanto as fedelhas candidatas a betas se corroem de inveja arrivista. Aproveito esse momento de justiça social e cedo o meu sítio às francesas de óculos modernos. Sempre odiei as betas, essa recordação matutina dos anos de colégio de freiras, rodeada de meninas loiras com laços gigantes, de nariz empinado e desprezo pela emigração.
E assim se move o homem, vinte minutos nas madrugadas de Inverno. De carro, a trotinete ou de metro, eu prefiro o 51. Sempre há tempo para restabelecer a ordem mundial através de pequenas vinganças.

10 Comentários:

Na 6:00 PM, Blogger cris disse...

Fabuloso. Há sempre uma resquícia de esperança qd se arrancam os olhos à revista e se engole o mundo. Ainda q dentro de um 51. Observar para depois escrever, ainda pode ser a salvação desta minha semana.

 
Na 7:16 PM, Blogger C disse...

Bem tentei ler, mas tropecei logo de entrada numa coisa "encima" e em outra ao pé "cochinho" (será pé de porco pequenino?). De maneira que lá tive de desistir, por prudência, que a coisa estava mesmo perigosa, gramaticalmente escorregadia.

 
Na 7:26 PM, Blogger rititi disse...

Caro leitor C (?),
Agradeço a sua paciência em me informar dos lamentáveis e perigosos erros ortográficos que minam a leitura dos meus textos. Invejo-o pela sua coragem, não é todos os dias que um homem confessa o seu medo a tropeçar na falhada ortografia alheia!
Vou já mudar e cortar um dedo do pé em sinal de luto!
Obrigada

 
Na 11:34 PM, Blogger Carlos Azevedo disse...

Caro C,
Espero que não tenha partido uma perna. Eu, pela minha parte, e se não se importar de colocar a sua sapiência ao meu dispor, agradeço que indique os erros ortográficos dos meus textos. Infelizmente, ainda não consegui activar o corrector ortográfico.

Cara Rititi,
Com ou sem erros, os seus texros são (quase) sempre interessantes e acutilantes. Gracias.

 
Na 12:39 AM, Blogger ana disse...

1)Tu não te dès ao trabalho de responder a comentadores como o C. Não vale a pena Rititi e Carlos Azevedo

2) Sortuda! eu às 7h 33 entro no comboio a caminho de carcavelos. Vale-me a paisagem destes dias de inverno azul

3) amanhã mando-te a crónica, desculpa o atraso.

 
Na 3:36 AM, Blogger vieira do mar disse...

"Parideira", eu?!
;)

 
Na 12:09 PM, Blogger Zorze disse...

Bem a propósito… Lembro-me das frescas e agitadas manhãs nos melhores autocarros da nossa capital; a saber: o 50 e 85! Decorei, durante os quatro anos do meu curso, as personagens com destino a Algés e Buraca (ai Buraca, quase tão preciosa como Valparaíso, terra de Neruda – só falta mesmo é o Pacífico!) Hoje, movo-me sozinho num Getz descolorido e sem força alguma e, confesso, sinto falta dos meus amigos viandantes! Por mais estranhos que fossem, tinham sempre qualquer coisa para me ensinar…

 
Na 2:03 PM, Blogger Jack the Nipple disse...

Cara Ritinha, aprecei tanto o teu texto que nem dei pelos erros ortográficos, vê lá tu!

 
Na 5:06 PM, Blogger Raquel disse...

Bela blogada!
Gostei muito de a ler.
Beijinhos

 
Na 1:09 AM, Blogger sopeiro disse...

"A ortografia é a mãe de todos os erros".
como tive a sorte de só a vir ler depois da correcção ortográfica consegui chegar ao fim e tb gostei muito

 

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