Quinta-feira, Abril 14, 2005

Querido Blogue,

Trinta anos, uma gata e um marido, eis as minhas posses. Pouco para exibir nesta vida de urbanizações com piscina nos subúrbios das capitais da Europa de classe média e intenções de voto esquematizadas conforme as conversas nos jantares com casais amigos. A normalidade exige um não tenho opinião formada, não me sobra tempo para ler ou ir ao cinema, eu que acordo às seis e meia para chegar ao trabalho às dez, o trânsito está impossível mas eu não prescindo do meu monovolume novinho em folha, metalizado e que me faz sentir tão poderoso e confortável. E depois tenho que ir buscar as crianças ao colégio, privado e com fardinha, porque não quero que se me criem os filhos publicamente e rodeados de pobres, emigrantes e desdentados. E à noite, passar a ferro, arrumar a casa, preparar o jantar, fazer máquinas e cozer bainhas, porque o preço da casinha com piscina, jardim e cara de novo-rico não me deixa com que pagar uma empregada que me alivie a miséria das minhas noites. Que se me note o dinheiro fora de casa, que os vizinhos vejam que a vida me vai bem pelos anéis que levo no dedo, pelas férias de pulseira e tudo incluído nas Caraíbas, na roupa de marca que usa o meu marido, na conta do restaurante indiano do Colombo, nas malas LV e no telemóvel ultima geração, pelo Carnaval passado na neve e na feira da Golegã.
E o que penso devo-o ao Professor Marcelo, ao Pacheco Pereira e ao Nuno Rogeiro e se o Sócrates já está a fazer merda é porque o ouvi no Fórum da TSF. Muitas letras, demasiadas referências nos livros que recomendam os que formatam a mente do povo, eu que tenho a cabeça cansada do meu emprego de escritório que me enxovalha a pele e amolece o rabo. Mas vive-se bem no anonimato do subúrbio em que me enfiei, esforçando-me com ter em vez de ser - a mulher de César, já se sabe - , para que me reconheçam pelas marcas exteriores desta riqueza a crédito. Porque eu sou normal, assepticamente normal, banal, uma conta-ordenado, um número de cartão do Corte Inglês, um tiket no parque de estacionamento, uma ficha no ginásio, um recibo da luz.
E não um paneleiro, um desviado, uma puta, um emigrante, um militante ecologista, um poeta, um deserdado, uma mãe solteira, um africano, um livre-pensador, um químico quântico, uma feminista, um activista, uma pessoa independentemente do que regem as normas da normalidade.

2 Comentários:

Na 8:48 PM, Blogger soniaq disse...

Gostei muito do post!
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Na 8:49 PM, Blogger soniaq disse...

Gostei muito do post!
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