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AS GRANDES CABRAS DA FICÇAO:
EVE, O PERIGO DA BANALIDADE (All About Eve)
Eve. Eve the Golden Girl, the Cover Girl, the Girl Next Door, the Girl on the Moon.
A queriducha que sempre está disponível, o ombro amigo, a vítima da vida, a devota discípula. A que guarda a faca debaixo da almofada.
O que quer Eve? Êxito? Amor? Glória e um homem? Que lhe falta a Eve, que se dá com tanta facilidade? Um apartamento em Manhattan? Uma peça na Broadway? Nem por isso. À inocente e pura da Eve o que lhe dói é ser simplezeca, minúsculas, sem nada a acrescentar que um lambe-botismo irritante.
Eve precisa o que os outros têm: a vida de Margo, o marido de Karen, a fortuna de Max, a genialidade de Bill. O que lhe sobra a Eve – inveja, mediocridade, banalidade – falta-lhe em escrúpulos e valores. Eve não tem moral a que se agarrar, só raiva por não ser plena e feliz, como os demais, como Margo, a vítima perfeita no seu plano demente.
Eve, Eve, always Eve. Pois é Margo, sempre Eve, a sombra, a que espera que adormeças para te arrancar os olhos, a que não tem limites na mentira.
Não há personagem masculina no cinema que chegue aos pérfidos calcanhares de Eve. A filha da putice é algo tão feminino, que vem de dentro, uma víscera estranha que domina o carácter e a mente. Lecter era requintado, um génio do mal. Eve não procura a arte nem a perfeição nas sua obras, só foder, ser cabra, roubar a vida alheia, parasita ela das suas próprias tristezas. Que triste, Eve, ao fim premiada e sozinha. Afinal, Eve, de que serviu tudo?
Eve não suporta o êxito alheio, a glorificação do próximo, porque nela só reside mesquinhice e uma infelicidade crónica, de quem jamais foi amada. Eve, no final, é comida pela mesma avareza que a levou a criar a tragédia na vida de Margo – porque o género feminino está cheio de pequenas e insignificantes Eves, de sanguessugas das riquezas que nunca poderão ter. O problema da banalidade é que de nada servem os prémios ou as glórias fáceis. É sempre preciso mais, foder mais, roubar mais, mentir mais, invejar mais, que os outros sofram mais.
Claro que só as mulheres conseguem cheirar a léguas as Eves deste mundo (partilhamos os mesmos genes). Por vezes só damos pelo monstro que temos ao nosso lado quando o terramoto já é inevitável, quando se nos cai a casa na cabeça, como lhe acontece à ciumenta e velha Margo, a quem Eve saca proveito dos pequenos pecados, das fraquezas da diva. Eve não suporta esta estrela egocêntrica e adorada por um mundo que não precisa de heróis perfeitos. Eve, ao apontar o dedo às debilidades de Margo, mais não faz que sacar à luz a sua própria merda. Porque o tempo nada perdoa.
Nem a Eve, a rapariga dourada, a rapariga da capa, a rapariga da porta do lado, a rapariga na Lua.
Por Rititi @ 2005/06/09 |
8 comentários »
Miúda, duas coisas:
1. Acabei de ler o teu livro ontem. És um génio e espero, sinceramente, q nunca deixes esse tom viperino, q não cedas à tentação do politicamente correcto e q, se tiveres de ser madrinha de alguma marcha popular, q escolhas a Bica. Até pq ficas mto bem à porta do Bicaense de copo na mão e saia rodada. Uma princesa, dasse.
2.Os filmes. Por acaso, do lote fitas de ouro, com gaijas giras q gostaríamos de ter sido ou não, embora não nos importassemos de ter ficar com tooooodo o guarda-roupa, esse é um dos meus favoritos. É de tesa. E acho q, graças ao teu post, este fim-de-semana vou rever o La Dolce Vita e o Sunset Bouvelard. Tá dito.
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