Querido Blogue,
Está tanto calor que até as pregas do cu se me pegam, mais ainda nesta praça de touros de cimento a que me levam os compromissos familiares e o amor à tradição secular. Sou assim de romântica e pegada à história, imóvel na minha concepção do que me pertence por genética e do que me agarra à memória dos meus. Há quem prefira defender os ideais numa manifestação contra a pretalhada e a emigração em geral, portando bandeiras e um preconceito de raça pelos vistos pura e branca como o cal das casas alentejanas. Um dia destes ainda me manifesto eu, mas contra a ignorância geral e a falta de aulas de história na pré-primaria, ou então a favor da eugenia compulsiva, ni más ni menos, porque ante a imbecilidade do ódio não há redenção possível. Ai, Santa Rita que me perdoe, ela que era tão misericordiosa e amante do sofrimento, de chaga na testa e o marido a dar-lhe nos cornos de sol a sol, mas aos que se rapam por analfabetismo mental e alçam a mão agarrando-se aos nossos preceitos de liberdade, olha, não há amor de Cristo que me convença. Poder ao povo e playstation ao pequeno-almoço, qué se le va a hacer, a democracia tem destas coisas e assim acabou a Alemanha nos anos trinta.
E com as pernas suadas, as mamas em osmose com o soutien, ao quinto touro não há pachorra para o João Moura, o filho do João Moura, o Rui Fernandes, as bandarilhas recortás, a banda filarmónica dos bombeiros voluntários, paquito el chocolaterooooo, e a puta que os pariu a todos, con perdón das mães e das vacas, mas trinta e oito graus à sombra – o poder da classe não perdoa –, as almofadinhas que não aconchegam, o vento que não sopra, o uísque que não refresca, os chiribitis que não fazem efeito, ainda bem que Mr. Pinheiro me acompanha para me abanicar o decote. Ai amor, se não estivesse tão peganhenta até me abraçava a ti, mas o meu odor corporal, aliado às manchas de suor que me desenham as curvas abdominais podem mais que o desejo e o dever conjugal. Quando inventarem um aparelho de ar condicionado portátil prometo mostras de amor físico sem temer a morrer derretida no meio deste povo pegado a lenços a pedir orelhas para os cavaleiros vestidos de antigamente. Coitados, depois não admira que sejam brutos na fala e toscos quando descem do cavalo, aquelas roupas de época até lhes devem assar os tomatinhos todos. Não há dinheiro que pague os sacrifícios feitos pelo que é nosso.
E assim se passa o verão, de feira em feira, de touro em touro, de orelha em orelha, olé mi cuerpo serrano e a vida que são dois dias. E a esperança de um gin tónico nas esplanadas da terra, rodeada da minha gente, de perna ao léu e resumindo a faena e a vida numa noite de calor e leques pintados à mão bem valem os suores e as penas na praça de touros de cimento.

6 Comentários:
Beleza.
Partilhamos o mesmo tédio pelos toiros e as bostas, com a agravante de eu viver junto a uma terra de aspirantes a labregos
(alhosvedrosaopoder.blogspot.com).
Ainda bem que achaste um tédio, há que começar por algum lado.;) Anda daí, masé, deixa os touritos em paz, tadinhos, e traz o Mr. Pinheiro, que já tou com saudades. Bute.
AL-MO-ÇA-RA-DA!!
AL-MO-ÇA-RA-DA!!
AL-MO-ÇA-RA-DA!!
Sé bom, sé bom, yur mai sé bom!
pretalhada!!!aí que caiste do pedestal...no melhor pano caí a nódoa...
olá, vi-te ontem na tv e achei-te simplesmente encantadora. partilho de muito do que disseste e não resisti a vir aqui cuscar. vou continuar a "vasculhar" o teu espaço...
beijos
"Há quem prefira defender os ideais numa manifestação contra a pretalhada e a emigração em geral, portando bandeiras e um preconceito de raça pelos vistos pura e branca como o cal das casas alentejanas. Um dia destes ainda me manifesto eu, mas contra a ignorância geral e a falta de aulas de história na pré-primaria, ou então a favor da eugenia compulsiva, ni más ni menos, porque ante a imbecilidade do ódio não há redenção possível."
Quando fores, avisa! Eu tb vou e levo companhia. Pelo menos o Stephen e o The Bird devem ir tb!
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