Terça-feira, Julho 26, 2005

Querido Blogue,

Portugal põe-me à prova em cada visita, como a namorada desconfiada e ciumenta que tem sempre de confirmar que o amor é eterno, sincero, incondicional, pase lo que pase, independentemente dos quilos extras e das dores de cabeça que impedem a queca semanal. Portugal, enfim, é para mim esse amor de infância, paixão idealizada que com o passo dos anos se transforma numa noite mal dormida. Durante mês e meio as notícias de Portugal parecem-me anedóticas, como a brincar, birras com o défice e a função pública, e desde a distância quero acreditar que a minha namorada no fundo só está a fazer uma cena para me chamar a atenção, para que não me esqueça dela. Mas depois, quando vou visitá-la para lhe dar um beijo e jurar que é ela o meu único amor, a namoradinha dos meus dias, a gaja, este Portugal que me escraviza o miolo, espera-me deitada na cama oitocentista, rodeada de quadros de velhas glórias, vistálegres e memórias das quintas no Alentejo, à espera que o mundo lhe reconheça essa beleza e frescura de antigamente, como se os outros não vissem quão enganados estão por a terem trocado por outras beldades, mais novas ou renascidas. Portugal, sem dúvida, foi a melhor aluna da turma, a mais bonita das infantes, mas hoje está feia, gorda, inchada de tanto acreditar que a culpa é sempre do pretendente que a deixou no altar, desvirginada e de ramo na mão.
Portugal é gaja, sempre a fazer-se de rainha mal amada. Portugal, que quando se vê desesperada reedita amores antigos, na esperança de voltar a ser convidada para as festas de sociedade onde possa mostrar o ouro do Brasil e os diamantes de Africa. Portugal, que não se envergonha de recandidatar um avô chamado Mário Soares à presidência da República, quem sabe se para a tirar da crise, para lhe elevar o espírito, para se reeditar novamente na história recente. Como se Mário Soares lhe apagasse os fogos, as tristezas e a badalhoquice em que se converteu o seu quotidiano. Portugal, ai Portugal, quão banalizado ficou o teu hino, a tua História, os teus azulejos antigos, até as mágoas das Índias te parecem distantes.
Portugal, que te fiz eu, para me enxovalhares as esperanças, eu que desde os quilómetros te sou devota amante, porque me enxutas de casa cada vez que te levo flores?

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