Segunda-feira, Agosto 29, 2005

Querido Blogue,

Cinco mulheres mortas em Agosto

Quarenta e duas em oito meses. Nem a Lei de Violência de Género, nem as campanhas de consciencialização, nem as medidas de protecção policial a que podem optar as vítimas do assédio louco, nem os milhares de euros destinados ao tratamento dos agressores, nem as fotografias dos jornais, nem as lágrimas dos órfãos, nada!, nada, consegue parar este hediondo crime ao sexo concreto. Nada parece suficiente para impedir que as mulheres acabem no chão da cozinha com o pescoço partido, a cara esmagada, a faca espetada no ventre, os órgãos internos pisados, mortas, cadáveres de uma vida de ir sempre dizendo que sim, meu amor, desculpa a minha arrogância e a roupa que ficou mal passada, tens razão, eu mereço, desastrada de mim, puta e porca, que vou por aí mostrando carne e expondo sexo ao resto dos homens, má mãe e pior escrava do teu instrumento fálico que não só comanda as tuas fomes como as minhas vontades vitais.
E assim acabam elas, inertes para o mundo e para as capas dos jornais, manchetes e um número para as estatísticas das vítimas da puta da vida. A gente ouvia berros, mas já sabe senhor guarda, entre marido e mulher é melhor não meter a colher, pois, mas não percebemos como aconteceu esta tragédia, olhe, era um homem normal, reservado e sem dar problemas ao prédio, e bebia, claro que bebia, mas é normal abusar um bocadinho do vinho, não faz mal a ninguém e a até o meu doutor me diz que é bom para o colesterol, e já se sabe que as mulheres são difíceis, pá, até podem tirar um gajo do sério e às vezes um tipo tem que as pôr na ordem senão não há quem as pare. Olhe, sempre foi assim, a minha mãe também ia muitas vezes quente para a cama, mas nunca lhe fez mal nenhum e à nossa frente nunca se queixou, nem tinha razões para isso que bem bonita era a casa onde vivia e nunca lhe faltou nada, senhor guarda, nada, que o meu pai bem se matava a trabalhar para que ela vestisse bem e a comida sobrasse. Coisas da vida, as gajas agora querem ser como nós, e era só o que nos faltava, e não chegava já com quererem trabalhar, ainda por cima acham-se com o direito de nos levantar a voz, responderem, virarem as costas, faltarem ao respeito, enfim, o que sempre foi aceite por todos. Olhe, é como lhe digo, a culpa é da televisão e dessas feministas que enchem as cabecinhas das mulheres de ideias parvas, modernices, é o que é. E depois queixam-se, as cabras, que um homem dê em maluco, e acabe com tudo duma vez. Coitados deles, imagine só, que até há alguns que acabam por se matar, coitados, com a vida tão boa que tinham. É o que fazem as mulheres a um desgraçado.
Para a semana, mais cinco mortes, para o ano, mais cem, e milhares de mulheres encherão as estatísticas dos cadáveres com a cabeça esmagada na cozinha bonita.


18 Comentários:

Na 4:25 PM, Blogger Crazypet disse...

OK, não se zanguem por eu brincar com um tema sério, mas cara Rititi há uma parte no texto que é totalmente verdade e indesmentível: "já se sabe que as mulheres são difíceis, pá, até podem tirar um gajo do sério"

digooquequero.blogspot.com

 
Na 4:53 PM, Blogger portugal da silva disse...

...muito bem, boa descrição!
Mas havemos de nos resignar?
Que soluções alvitra?
...seguramente um dos problemas das sociedades, de hoje, apesar de ontem, é não atribuirem mais poder às mulheres.
Com mais mulheres em lugares de decisão política (mulheres não recrutadas nas fileiras do carreirismo político-partidário, entenda-se!)algo mudaria, por certo, nessas atitudes e noutras.
Curiosamente, em Espanha, o actual governo foi muito corajoso nessa matéria, et pour cause..., sendo constituído por mulheres, em 50% dos seus membros, ao que sei.
Sendo uma maioria, as mulheres são tratadas (e deixam-se tratar...) como uma minoria, o que urge inverter.
Para mudanças significativas e rápidas, parece-me que a diferença poderá vir de quem surja com poder e vontade de alterar a situação, mais do que por uma evolução espontânea das mentalidades, que já tarda demais em se declarar...

 
Na 5:11 PM, Blogger Rita disse...

Lei já há. Pode denunciar-se. É crime semi-público. O problema está nas mentalidades e, claro, na dependência financeira destas mulheres, sejam elas por pobreza ou riqueza extremas.

 
Na 5:38 PM, Blogger papu disse...

É uma realidade cruel. Revoltante. Que apetece escarrapachar no jornal ou gritar bem alto para todos ouvirem. Já aqui tinha vindo espreitar algumas vezes, sem comentar, mas hoje, ao ler estas palavras, não quis deixar passar. E somos todos nós que podemos mudar esta situação, creio. Quando educamos os nossos filhos e as nossas filhas para a liberdade e igualdade de direitos entre os sexos. Quando lhes ensinamos (dando o exemplo) princípios como respeito e tolerância em relação aos outros. E quando nos indignamos, como tu fizeste, e não nos calamos. Era preciso que estas mulheres tivessem a coragem, e a possibilidade, de quebrar estas amarras que as prendem a homens que as maltratam, de acabar de vez com a submissão à tortura diária de que são vítimas. Se calhar é pedir demais, se calhar é impossível, a teia em que se deixaram emaranhar há muito que se confundiu com elas próprias e com a sua vida, e mudar é sempre muito difícil. Pois é. Mas não podemos ficar indiferentes a esta realidade, e é importantíssimo denunciá-la e lutar contra ela. Mesmo que seja remar contra a maré. Mesmo que seja um grito no meio de uma multidão de indiferença.

 
Na 5:45 PM, Blogger xylophóros disse...

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Na 5:56 PM, Blogger amelia disse...

Segundo o Relatório Penélope sobre violência doméstica no Sul da Europa, em Portugal, em média, cinco mulheres são mortas por mês e seis agredidas por semana.
A violência doméstica é, aliás, a maior causa de morte e invalidez entre mulheres dos 16 aos 44 anos, ultrapassando o tão famigerado cancro, os tão falados acidentes de viação e a tão mortífera guerra.
Porquê é que a mulher continua a calar-se? Por medo, creio. Porque os seus testemunhos são tidos sempre como pouco credíveis, porque não acredita que o agressor vá ser penalizado e porque, de uma hora para a outra, sabe que de vítima passará a culpada. Há umas semanas, li um caso de uma mulher que foi assassinada pelo companheiro. Tinha sido violentada, espancada, humilhada inúmeras vezes. Tinha dado entrada no hospital quase tantas vezes quantas as agressões. Os vizinhos tinham alertado a polícia, a assistente social, seguia de perto o caso. Um dia, essa mulher apareceu morta, o cranio esfacelado. E, mesmo depois de morta, o seu companheiro de toda uma vida, achou que ainda não era o bastante. Pegou numa garrafa e enfiou-a pela vagina, derradeiro acto da sua superioridade de macho. Que crimes são estes afinal? Andamos todos a "dormir com o inimigo", ou este inimigo veste durante muito tempo a pele de cordeiro?
Há uma maior consciencialização social para este problema. O próprio Estado tem-se preocupado em criar estruturas humanas e fisicas para apoio à vítima. Em Portugal, cerca de 300 polícias receberam uma formação específica para lidar com estes casos. As instituições de solidariedade social tentam prestar auxilio às vítimas, mas creio que ainda é pouco. A mulher continua com medo de perder os filhos, medo de continuar a ser a presa, medo de ser desacreditada em tribunal, medo que a penalização do crime seja uma mera advertência e a liberdade.

PS: Dizem que Deus quando criou a Eva criou-a de uma costela de Adão, que estava adormecido. Se DEus tivesse deixado o Adão adormecido por toda a eternidade, é que ele era esperto!

Amelia

 
Na 6:00 PM, Blogger Angela disse...

E não há coincidências... hoje falei da D. Rosa, que passou por aqui pelo escritório e trazia uma nódoa negra no braço, uma demonstração de afecto do velhote. E sempre com um sorriso, ela anda. Esta violência não tem desculpa. Mesmo.

 
Na 6:13 PM, Blogger amelia disse...

Sabes Angela, eu creio que é dos piores crimes perpetrados contra a mulher. Porque, dia após dia, o amor próprio, a saúde mental, a auto-estima vai desaparecendo. E, creio que há muitas mulheres que acham que apanham porque merecem, porque ele até as ama, porque fizeram algo errado e o coitado até nem se controla. É um crime que vai minorando as capacidades da mulher. E tudo é cometido em nome do amor. Um amor fodido que, sendo fodido, deixa de ser amor. Penso eu de que...

Alice

 
Na 6:17 PM, Blogger soniaq disse...

Nem sei o que diga, fico sempre estarrecida quando sei que mataram uma mulher à pancada, pois é, o mundo ñ para, mas devia.
A violência está patente em todo o lado, é violência a mais, enaltece-se a agressividade, a combatividade, tudo o que é agressivo, outras qualidades mais femininas são sempre pisadas, encobertas, ditas fracas e por isso menosprezadas, cabe-nos a todos nós, mulheres e homens, começar a educar toda a gente, a começar em nossa casa, o respeito pelo próximo, isso mesmo, respeito.
Até, bjinho
sona

 
Na 7:31 PM, Blogger Eterna Descontente disse...

Uma merda, é o que é!...

 
Na 12:28 AM, Blogger bonifaceo disse...

Também acho que a maior parte das vezes é um problema de educação em casa. Que o homem deve ser possessivo e as mulheres submissas.
E depois os vizinhos, que também devido à educação que levaram, a tal lei maior que entre marido e mulher não se mete a colher.
E depois a polícia, só pode agir depois da agressão... enfim... é um conjunto de factos que leva a essa bárbara realidade.

 
Na 3:02 AM, Blogger amelia disse...

É verdade! E quem pensa nas crianças? Esses seres indefesos que são, de todos, as maiores vítimas? Imagino o que é para uma criança, desejar que o pai não regresse (ou a mãe, em certos casos o agressor é a mãe), a casa. Imagino a criança, agachada num canto do quarto, olhos fechados, ouvidos tapados para, pelo menos, ter a ilusão que aquilo não se passa com ela. Imagino as suas orações: "Meu Deus, porque não levas o meu pai?". São marcas que não se apagam. Os gritos, as bofetadas, os pontapés, tudo fica marcado dentro destas crianças. Imagino a tortura que é, regressar a casa e não saber o que a espera. Imagino o terror que é fechar a porta e saber que o perigo, o algoz, ficou lá dentro, a comer na mesma mesa. Acho demasiado... É horrivel para o adulto que é vitimizado mas muito mais para a criança. O ser que devia protegê-las é o ser que as apavora. E depois, este misto de amor e ódio no coração de uma criança que não sabe muito bem como lidar com estes sentimentos, deve ser do pior que há. Como poderão estas crianças crescer achando que é possivel viver uma relação sadia? Crescer sem o medo da subjugação ou, antes pelo contrário, achando que a violência não é, de facto, o único caminho. Creio que deve ser esta a força encontrada por quem sofre de maus tratos e tem filhos. Querer libertar-se também por eles, porque não há nada que pague a certeza de um lar a sério e de uma figura que sempre os protegerá.
É nos filhos que muitas das vítimas acabam por ir buscar forças para se libertarem.

Amelia

 
Na 3:16 AM, Blogger Al disse...

ah pois é, pois é... a vida nossa de cada dia.
o mundo tá uma merda, os valores (quais?) podem (devem)até alterar-se, mas a perversidade da mente humana é algo que estrapola o limite do absurdo. Querida Rititi, para esse tipo de crime não há solução em leis nem em penas (é uma pena) só a mudança completa dos valores da sociedade de consumo podem dar um jeito a esses bofes. Mas que isso um dia vai acontecer, ah vai. As estrelas assim o ditam.

 
Na 4:16 AM, Blogger Mister Sarapintola disse...

Abordar as relações de género implica falar de relações de poder. O poder é um exercício, um modo de acção de uns sobre outros. O poder não se possui, exerce-se “sobre todo o domínio do campo social”: na família, nas relações sexuais, em casa, na escola, na fábrica, etc. É uma relação bélica na qual se ganha ou se perde em cada confronto. As relações de poder não se exercem numa única direcção, ou seja, daquele que exerce o poder àquele que o sofre, do dominador ao dominado pois, este último, tenta escapar da relação: enganando, criando espaços de sobrevivência. A tensão entre ambos permite que a relação seja criativa: perante a possibilidade de fuga do dominado o dominador terá de afinar as suas técnicas para que o dominado não escape ao seu domínio.

Esta tensão constante faz do quotidiano uma guerra, aberta ou dissimulada, uma luta e confronto constante. O género masculino acumulou vitória em cima de vitória nesta guerra o que facilitou o exercício do poder dos homens sobre as mulheres mesmo quando ambos, homens e mulheres, se encontram submetidos às mesmas regras do jogo que condenaram os homens a exercer o domínio, como atributo genético reafirmando-os no prazer de submeter, que os faz mais masculinos, mais homens, e às mulheres, educadas no sofrimento, foram conduzidas à sua [género masculino] dependência.

 
Na 12:50 PM, Blogger agrades disse...

Adoro ver os escritos da Rititi: são mordazes, marotos e geralmente brincalhôes. No entanto também sabe arrepiar-nos quando descreve temas dolorosas tal como a violência doméstica. É preciso não calar, penso eu, sortuda e ignorante.
Força Rititi! Parabéns pela intervenção.

 
Na 5:45 PM, Blogger Portuga disse...

1. A minha mulher às vezes tira-me do sério, mas para dizer a verdade nunca senti vontade de lhe bater. Serei normal?

2. No outro dia estava a dar um filme espanhol sobre este assunto. A cena que vi passava-se num grupo estilo AA mas de espancadores de mulheres. Fiquei com curiosidade mas acabei por não ver o filme. Também não apanhei o título. É pena.

3. Neste indicador os espanhóis são piores que nós, não são? Ao menos nisto?

 
Na 6:48 PM, Blogger Ana disse...

Eu penso que um homem que maltrata uma mulher, não é um homem,não é nada! É um palhaço com problemas de pila!

E a violência psicológica? Essa é ainda pior, pois não há evidências que ajudem a vítima!
A minha sogra leva com um desprezo atroz do meu sogro. Ele trata-a como a um balde de merda, e ela dá-lhe todos os amén!
E se alguém lhe tenta abrir os olhos, ela amalha-se e desculpa-se com a educação que levou e que não sabe agir de outra maneira! E ainda defende o "marido"!

 
Na 6:25 PM, Blogger Saulonet disse...

Minha esposa sempre me agrediu psicológicamente e fisicamente, chegou até a me agredir muito, eu só quero que Deus cuide dela, ela me maltratava por ganhar mais que minha pessoa, eu só queria que ela se tratasse psicológicamente, agressão final foi me agredir e tentar me incriminar, só no Brasil vítima vira réu.

 

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