Querido Blogue,
Durante este Verão, os afortunados moradores de Madrid fomos transportados para outra realidade física. É assim o nosso Alcalde Gallardón, a quem não tem férias oferece a possibilidade de viajar sem sair do sítio. O novo Houdini autárquico é como a malta lhe chama agora. Claro que bem podia ter transformado a capital numa ilha do Oceano Índico, de preferência um Bora-Bora, com as suas palmeirinhas, o seu barzinho de praia e os indispensáveis turistas australianos, bronzeados e com a prancha ao ombro, mas toda a gente sabe dos graves problemas de água que atravessa a Ibéria e, pelos menos este ano, não deu para inundar a cidade de areia, água salgada e homens lindos. Aliás, o Alcalde é gente de bem, preocupado com o que se passa no mundo em geral e em zonas de conflito em particular, pelo que ni corto ni perezoso vai daí e armou-se em pedagogo municipal, dedicando-se a mostrar aos habitantes do centro, periferia e zonas adjacentes como se vive em sítios como Beirute, Cairo e até Baguedade. Está-lhe a sair cara a brincadeira, mas nós, os que cá vivemos, agradecemos o esforço. Madrid é, no fundo, o novo Parque Temático da Construção Civil.
O chão foi rebentado, esburacado e perfurado por engenhos mecânicos, as ruas fechadas às caminhantes de saltos altos, os carros empilham-se em desvios-surpresa e a população está a ficar surda. Agora as conversas são muito mais interessantes, todos aos berros com direito a banda sonora de camiões articulados, compactadores de asfalto e mini-dumpers. Aliás, graças a estas medidas filantrópicas e ao derrubamento de paredes, prédios e telhados, o madrileno acorda muito mais cedo, por volta das sete da madrugada, o que lhe permite aproveitar melhor o dia para limpar o pó da mobília que o levantamento do solo urbano traz pela janela.
Da Avenida da Extremadura à Plaza de Castilla, toda a cidade é um imenso estaleiro para alegria dos reformados locais, que entretanto beneficiaram com esta pós-graduação grátis em Engenharia Civil. Termos como «escarificador radial ajustável», «grupo de adaptação» ou «alternador» entraram facilmente no vocabulário do povo, proeza que nenhum ministro da educação antes conseguiu. As senhoras finas planeiam férias em centrais de betão, não há criança que não vá pedir aos Reis Magos um misturador de cimento ou uma «dragline» e as invejas de vizinhos esqueceram as carrinhas Audi e centram-se agora no tamanho das Mini-Pás de Rodas Rígidas. Um must este Alcalde, que querem que vos diga.
Eu, concretamente, não caibo em mim da alegria, e não leiam cinismo nem procurem ironia nesta afirmação. Sou feliz, lailola, como uma pequena Julie Andrews passeio-me por Madrid aos saltinhos, lailola, sobretudo porque é o único meio de locomoção possível. Sorteando pedras, passadeiras de madeira, retroescavadoras e motoniveladoras, não há dia em que não me estampe em frente a um grupo de trolhas eslovacos ou perca o sapato dentro do buraco na nova estação de metro de Sol. A isto chamo emoção vital e não as viagens às montanhas kurdas organizadas pela Halcón Viajes.
Que sorte ter um Alcalde assim. Obrigada Gallardón! Tú sí que eres grande, chaval! Para a próxima espero que rebentes com os passeios da tua rua, que imagino esteja impoluta e livre de barulhos, sujidade, pó, perigos ocultos, operários e máquinas pesadas.

9 Comentários:
A escassos quilómetros do mar, vive a minha cidade bem pequena. Nesta cidade nasceu um homem que, como Martin Luther King, um dia têve um sonho. E sonhou que esta cidade tão pequena mas tão orgulhosa, devia ter os melhores, mais profundos e mais demorados buracos que algum dia alguém já viu. Ele sonhou e, como bom sonhador, rodeou-se de bons profissionais que pudessem concretizar o seu sonho. E realizaram-no. E assim, a minha cidade tão pequena, a escassos quilómetros do mar, sentiu-se grandiosa: a calçada esburacada como em poucos lugares se vê. Mas, os profissionais que realizaram o sonho, esqueceram que os buracos também se cansam da luz do sol e do fresco da noite. E os buracos foram abandonados em ruas agora fechadas. Sonhos mais altos se levantam! A nós, resta-nos este chão de pó, mais nada: nem corpos suados, nem palavrões atrevidos, nem assobios maliciosos de quem tem os neurónios assados pelo sol. É assim a vida, nesta cidade pequena e abafada, embora o mar esteja a escassos quilómetros.
Por isso, como eu te entendo Rititi. Abençoados estes homens que um dia tiveram um sonho.
Amelia
Ah ah ah ah ah!... Este texto está magnífico!...
Rititi, os reformados?!... Pós-graduação grátis em Engenharia Civil?!... Rititi, com este texto, já fazes a Tese!...
Sra. Engª. Rititi, se eu um dia pensar em construir um palácio maiorzito, posso recorrer aos seus serviços?... Ah ah ah ah!...
Rititi, andam pra'qui uns pingarelhos armados nos melhores humoristas portugueses. Ai que somos os maiores! Ai que nós é que fazemos rir! Ai caté somos uns machos do catano e tudo!...
Rititi, escreve para o Herman! Anda tão distraído a dar piada a outros que até se tem esquecido de nós, tásacêr!...
E tu ó Herman, dá férias ao Nuno Artur Silva e vê como escreve esta Sinhôra, canudo!...
Rititi, a sério.
Perder um sapato num buraco deve ser das coisas mais constrangedoras aí descritas, não gostaria nada de andar a passear e de repente, pimba, lá se ia um sapato, ia ser deveras embaraçador andar no meio da rua com apenas um sapato. Acordar às 7 da matina graças aos martelos eléctricos, ou lá que raio era aquilo também já me aconteceu, felizmente só durou uma semana, e já foi muito, pó não havia :D
Belo relato!
Oi Rititas,
Esqueceste-te de abordar um problema de inegável peso social: com o pó todo que "flutua" aí pelo ar, como é que se tem mantido o comercio de coca na tua rua?
Pois é, os tempos não estão para brincadeiras...
também há eleições autárquicas em madrid? estranho, pensei que fosse só cá...
enfim...
Excelente texto Rititi! Parabéns!
É um dos mais bem conseguidos de todo o blog!
A ironia e o cinismo com que nos pedes para não vermos...cinismo nem ironia! 5 estrelas.
Não pude evitar um sorriso ao visualizar os teus passeios tipo Julie Andrews.
Além de tudo, compreendo perfeitamente o que deves sentir porque moro numa zona mais ou menos central da cidade do Porto.
Continua assim.
Beijos
Zeka
Buraco grego. Seguindo a maxima "conhece-te a ti mesmo" os gregos usaram e abusaram do buraco na ansia de satisfazer a razao e o coraçao.De Mikonos a Lesbos todo o buraco serviu os seus intentos de aprofundamento da democracia entao inventada.
Buraco Romano. A cloaca maxima era o ponto culminante da rede de esgotos inventada para a capital do imperio, foi a proposito deste buraco que se criou a expressao: "que buraco de merda"
Buraco escocês. O golfe inventado por pastores das terras altas carregadinhos de Whisky nos olhos, munidos de longos cajados, divertidos a enfiar bolas nos buracos.
Buraco arabe. Fartos de serem tomados por camelos os arabes nao hesitam agora em mandar a economia mundial pro buraco aumentando o preço do barril de petroleo, uma substancia que retiram do fundo da terra atraves de uns engenhosos orificios.
O buraco iraquiano. Buraco onde os americanos se meteram e de onde nao vêm maneira de sair, muito parecido com o buraco que abriram no longinquo vietname (esse ao menos ainda deu para uns filmes epicos).
Buraco inglês. O tube serve agora para aterrorizar os anonimos da velha albion, ja que servem de abrigo as toupeiras do mr Bin, tambem ele escondido, como o Sadam, num qualquer buraco.
Buraco português. Especialistas em buracos (é comum dizer que estamos sempre na brecha), ja que em qualquer buraco se encontra sempre um tuga de bigode a vender pasteis de nata ou bolas de berlim, com uma longa experiencia nos mais variados buracos em todo o mundo desde a expansao, o verdadeiro buraco nacional é o buraco orçamental.
Tambem não ha conta de restaurante, orçamento governamental, empreitada municipal, magisterio judicial,programa eleitoral, practica educacional, actividade profissional, que nao patenteie um qualquer buraco, uma fenda, um orificio, que logo, voyeurs, coscuvilhas, nos apressamos a explorar.
Nos nomes de bairros (cova da moura, buraca), nos restaurantes (o cova funda, delirio da betesga), no futebol (a relva do dragao, a baliza do ricardo, o cantinho do morais, a defesa do benfica), nas atracçoes turisticas (grutas de mira d´aire, tunel do marquês), tudo, por aqui, transpira buraco.
Um abraço antes que se bata no fundo
Jack... anda mal, nada mesmo mal! Depois quando estiver em Lisboa conto.
Isa, Zeka, obrigada!
Rui, nao ha eleiçoes, somente estavam ja programadas as obras porque os anormais pensavam que iam ganhar a candidatura dos JJOO para 2012. Tonhinhas.
Zeus... bem, isso e que e explicaçao!
Boni: a vida e fodida.
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