Segunda-feira, Março 13, 2006

Querido Blogue,

Os meus mortos hoje reúnem-se num corpo pegado a um volante. Tem a cara dormente de tão morta e o corpo já não responde aos médicos, à voz da mulher e à carência eterna das filhas sem pai. Os meus mortos hoje também fazem anos. Têm as velas acesas pelos que ficaram e comemoram a chegada de um homem jovem ao mundo dos que precisam da memória terrena para sussurrarem atrás da minha orelha. Os meus mortos hoje têm nome, cara e flores na tumba e estão presentes nos corredores das casas dos vivos, nas fotografias que nunca amarelecem, nas conversas de bagaço e nas orações uma vez ao ano por promessa. Hoje um morto vale mais que os outros, e tem um bilhete de identidade caducado com apelidos e uma vida pela frente e uma calvície proeminente, porque há mortos que envelhecem pior que outros. O meu morto tem barriga derivada das noites de fados e cachola e ele, que é alto e vaidoso, acha mal que a morte o trate tão mal, ele que teve as mulheres que pode e se deixaram amar enquanto esteve por cá. Acha mal porque só tem trinta e dois anos e monta bem a cavalo e a mulher é bonita e conseguiu entrar no país que o castigou por leal e os pais, graças a Deus, estão bem de saúde e a vida, porra, corre bem e finalmente está em casa, descansado e forte, e acha mal, claro que acha mal, que se lhe arrebate assim a vida, por culpa de um bêbedo anónimo numa noite como as outras, morto estupidamente na berma da estrada, com a vida a esvaziar-se sem aviso. Pois claro que acha mal, caralho, que se lhe chore durante anos e sem motivo aparente e que se lhe recorde num jantar ou num blogue, ele que deveria ter estado em todo o lado e mandando vir com a banalidade do mundo a crédito. Mas já não pode. Está fora dos canais privados da televisão, da internet, do período da filhas, dos carros com ar condicionado e do possível divórcio. Já não está e isso fode-o, se é que um morto pode dizer asneiras. Mas os meus mortos são assim: vivos demais para concordarem com as legalidades da vida. Os meus mortos, digo, hoje festejam. E eu, a cada ano que passo, tenho mais saudades de um homem que nunca conheci.

9 Comentários:

Na 10:55 PM, Blogger Miriguida disse...

Nada que acrescentar.
Mana, um grande beijo
Margarida

 
Na 10:56 PM, Blogger Francisca disse...

Lindo o teu texto Rititi.
Estou contigo e com os teus mortos porque os meus também vivem comigo.
Às vezes a vida é uma cabra e a finitude é sempre revoltante.

 
Na 11:11 AM, Blogger latxiku disse...

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Na 11:12 AM, Blogger latxiku disse...

Que bonitas letras y que jodido todo, Rita.
Me han hecho pensar mucho tus palabras... pensar en ti, en vosotras; pensar en mi y en lo que perdí en el camino y pensar en ese hueco que queda y pensar que el hueco de un padre es mucho hueco.... y pensar..... mucho...

Un beso fuerte.

 
Na 12:52 PM, Blogger definitivo disse...

"Têm as velas acesas pelos que ficaram e comemoram a chegada de um homem jovem ao mundo dos que precisam da memória terrena para sussurrarem atrás da minha orelha."
Bonito!

Pena eu não ter saudades, Rititi!...

 
Na 9:30 PM, Blogger M&M disse...

Não sei para onde vão os mortos, mas sei onde eles ficam

 
Na 11:29 PM, Blogger vieira do mar disse...

Um grande beijo, minha querida.

 
Na 1:16 PM, Blogger Binoc disse...

Porra, tu quando queres escreves bem. Mas melhor que isso, aqui valeste pela capacidade de me fazeres lembrar dos meus mortos.

 
Na 9:28 AM, Blogger Pitucha disse...

Sou leitora sem ser comentadora do teu blogue. Mas hoje tive que comentar porque o post me fala de forma que faz doer.
E eu que tinha jurado que iria deixar passar este tema sem o mencionar, tal avestruz, para fingir que nada se passara, não consegui, por causa do que escreveste. Tive que comentar e dizer obrigada! Por me teres obrigado a recordar os meus mortos.

 

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