Querido Blogue,
Os meus mortos hoje reúnem-se num corpo pegado a um volante. Tem a cara dormente de tão morta e o corpo já não responde aos médicos, à voz da mulher e à carência eterna das filhas sem pai. Os meus mortos hoje também fazem anos. Têm as velas acesas pelos que ficaram e comemoram a chegada de um homem jovem ao mundo dos que precisam da memória terrena para sussurrarem atrás da minha orelha. Os meus mortos hoje têm nome, cara e flores na tumba e estão presentes nos corredores das casas dos vivos, nas fotografias que nunca amarelecem, nas conversas de bagaço e nas orações uma vez ao ano por promessa. Hoje um morto vale mais que os outros, e tem um bilhete de identidade caducado com apelidos e uma vida pela frente e uma calvície proeminente, porque há mortos que envelhecem pior que outros. O meu morto tem barriga derivada das noites de fados e cachola e ele, que é alto e vaidoso, acha mal que a morte o trate tão mal, ele que teve as mulheres que pode e se deixaram amar enquanto esteve por cá. Acha mal porque só tem trinta e dois anos e monta bem a cavalo e a mulher é bonita e conseguiu entrar no país que o castigou por leal e os pais, graças a Deus, estão bem de saúde e a vida, porra, corre bem e finalmente está em casa, descansado e forte, e acha mal, claro que acha mal, que se lhe arrebate assim a vida, por culpa de um bêbedo anónimo numa noite como as outras, morto estupidamente na berma da estrada, com a vida a esvaziar-se sem aviso. Pois claro que acha mal, caralho, que se lhe chore durante anos e sem motivo aparente e que se lhe recorde num jantar ou num blogue, ele que deveria ter estado em todo o lado e mandando vir com a banalidade do mundo a crédito. Mas já não pode. Está fora dos canais privados da televisão, da internet, do período da filhas, dos carros com ar condicionado e do possível divórcio. Já não está e isso fode-o, se é que um morto pode dizer asneiras. Mas os meus mortos são assim: vivos demais para concordarem com as legalidades da vida. Os meus mortos, digo, hoje festejam. E eu, a cada ano que passo, tenho mais saudades de um homem que nunca conheci.

9 Comentários:
Nada que acrescentar.
Mana, um grande beijo
Margarida
Lindo o teu texto Rititi.
Estou contigo e com os teus mortos porque os meus também vivem comigo.
Às vezes a vida é uma cabra e a finitude é sempre revoltante.
Esta mensagem foi removida por um administrador do blogue.
Que bonitas letras y que jodido todo, Rita.
Me han hecho pensar mucho tus palabras... pensar en ti, en vosotras; pensar en mi y en lo que perdí en el camino y pensar en ese hueco que queda y pensar que el hueco de un padre es mucho hueco.... y pensar..... mucho...
Un beso fuerte.
"Têm as velas acesas pelos que ficaram e comemoram a chegada de um homem jovem ao mundo dos que precisam da memória terrena para sussurrarem atrás da minha orelha."
Bonito!
Pena eu não ter saudades, Rititi!...
Não sei para onde vão os mortos, mas sei onde eles ficam
Um grande beijo, minha querida.
Porra, tu quando queres escreves bem. Mas melhor que isso, aqui valeste pela capacidade de me fazeres lembrar dos meus mortos.
Sou leitora sem ser comentadora do teu blogue. Mas hoje tive que comentar porque o post me fala de forma que faz doer.
E eu que tinha jurado que iria deixar passar este tema sem o mencionar, tal avestruz, para fingir que nada se passara, não consegui, por causa do que escreveste. Tive que comentar e dizer obrigada! Por me teres obrigado a recordar os meus mortos.
Enviar um comentário
<< Home