Querido Blogue,
Sentados na Plaza de Canalejas entre o quiosque dos jornais e a paragem de táxi um casal de idosos come um bocadillo, ele ao ritmo da cerveja de lata, ela com golos de água engarrafada num pedaço de plástico. Estão morenos os dois, demais para um Março sem primavera à vista, usam calças de bombasina, os colarinhos das camisas a espreitar pelas golas dos pulôveres de lã bruta e os sapatos castanhos a quem o povo chama de vela. Ela agarra o cabelo branco e as rugas sexagenárias num elástico vermelho que faz com que a cara pareça mais fina, elegante em cima do pescoço magro e velho. Seriam mais um casal de turistas da terceira idade, nórdicos talvez pelo contraste dos olhos azuis e o escuro da pele, como vindos de uma excursão nos fiordes e tivessem estacionado o trenó à porta do pub de madeira de cedro.
Mas nem têm trenó, nem estão num pub e muito menos fazem turismo cultural. Estão sentados, isso sim, mas no chão da rua e enquanto comem o bocadillo vigiam que a caixa vazia de charutos onde pedem a esmola dos transeuntes não seja roubada. Comem bocadillos, também, encostados à saca de plástico roto, cheia de roupa doada pela caridade das sobras, como as calças de bombazina, os pulôveres e os sapatos de vela que hoje têm vestidos. Bebem, mas de certo que não pagaram mais que a súplica verbal que causa na compaixão alheia a necessidade de ceder o que não nos falta. São só dois mendigos. Não são gente, não contam para a bicha do autocarro, as percentagens de consumidores de produtos lácteos, os índices de audiência ou as manifestações contra o Estatut da Cataluña. Normalmente são invisíveis aos passos e às pressas da grande cidade, encostados no anonimato das caixas de cartão e de multibanco e tanto faz se têm sida, filhos com fome, uma reforma que não chega, um pai que lhes bate, porque ninguém lê os seus pedidos de auxílio com erros de ortografia.
Se hoje me parei a contemplar aquele casal que devorava violentamente vinte gramas de fiambre de terceira enfiados num pedaço de pão foi porque pareciam gente, ela com o cabelo e as rugas puxadas, ele de óculos de ler ao pescoço, esperando que o pesadelo da miséria acabasse e lhes fossem restituídas as propriedades, os cães, as fotografias dos netos, os concertos de Mozart e a vida sem frio. Sentados na Plaza de Canalejas, partícipes do mobiliário urbano e ocupando com a sua dignidade um espaço entre o quiosque dos jornais e a paragem de táxi.

12 Comentários:
Este Post fez-me lembrar uma imagem que absorvi assim como tu, a imagem dum cego que pede esmola numa carruagem de metro vazia, andando para cá e para lá. Afinal, não seremos nós os cegos?
Ás vezes faz bem parar e olhar. Sobretudo a quem, como nós, anda sempre a correr e já se habituou a uma certa paisagem urbana.Bom post!
sorry the invasion....
deviamos parar mais vezes, não apenas para ver, mas talvez para ajudar-mos msm k a nossa ajuda simbolize apenas mais uma gota do oceano é sempre um principio, pois não nos custa nada ajudar akeles que pouco ou nada tenho, masmo que a nossa ajude seja minima irá sempre significar alguma coisa pricipalmente para as pessoas que a recebem, pois infelizmente tudo isto é o lado negro que a sociedade tanto se esforça por esconder pois tem vergonha dos frutos menos bons que nos dá, tudo isto é muito triste, mas não tão triste ver como ver as pessoas a sofrer e simplesmente virar a cara, é necessário mudar as mentalidades para poder tornar este mundo num lugar um pouco melhor para se viver
Gostei tanto de ler este post.
palavras de quem vê!
:)
É por estas e por outras que eu gosto de ti. Um beijo.
ya, de facto a imagem é quase tudo... afinal que sabes tu daquele casal de mendigos? Nada! Apenas o que te foi dado observar enquanto transeunte... que palavras trocaste com aquela gente? (sem dúvida que são gente, e não apenas porque te parecem gente)... que ficaste a saber sobre eles, para além daquilo que uma observação perfunctória, de apenas alguns minutos ou olhares velados, carregada da tua idiossincrasia, de permitiu chegar a conclusões que poderão estar, quem sabe, muito longe da realidade da sua história? que interessa? o que interessa é a imagem que fazemos das coisas e das pessoas, não é? para quê parar para falar com essa gente? se calhar até podem ter algum tipo de demência? ou, se calhar, têm um cheiro nauseabundo, impróprio para convívio social? enfim... ninguém pára para nada, nem para ninguem... de todo o modo, bom comentário
Afinal sabe alinhavar duas frases, madame "CC" nº 2. Parabéns pelo improviso. Passei uma hora a rir-me às gargalhadas, dentro do lugar mais improvável para esse efeito: um hospital. Não a aborreço mais, desde que me retribua a gentileza.
L.
que bonito fim de sexta-feira!! Li, com uma inveja feliz, uma vontade de ter tido os teus olhos por uma madrid improvavelmente generosa de momentos inesperáveis!
Rititi, eu não "olho" para pedintes ou sem abrigo. Explico-me: vejo-os, sei que eles estão lá, que tropeço neles, que sou solidário de dentro pra fora, como convém mas... não me ponho numa esquina para tentar saber o que haverá para além de uma 1ª visão que se tem dum mendigo. Por detrás de um quadro desse tipo, há apenas uma história que é comum a todos os mendigos, a todos os sem abrigo, a todas as putas, no fundo, a todos os miseráveis: não se terem conseguido agarrar a qualquer coisa enquanto caíam pelo abismo ou, pior, a classe política e/ou a sociedade, indiferentemente, não lhes terem colocado, ao longo do abismo, qualquer coisa a que se pudessem agarrar. Sempre assim foi, sempre assim será... pior. O vício do Homem é fodido. Alguém diria.
Sabes, Rititi, prefiro - nisto, sou compulsivo - olhar para a gente dita de.... normal. Puramente, para que me sirva de auto-defesa: os "normais" são, DEFINITIVAMENTE, mais perigosos que os "outros".
Por vezes, de tanto olhar - fetiche pior não tenho, juro -, consigo ver-lhes as entranhas: o alcatrão dos "SGs" - viva a indústria portuguesa, viva - em pulmões que mais parecem miniaturas de autostradas, filiais da macdonalds em estômagos que não passam já de meros sacos onde se enfiam as moedas de cobre, fígados 5XL de marca martin's 20 anos, corações ferrari capazes de atingirem as 200 RPM sem qualquer tipo de aceleração, rins que transformam martin's 20 anos em aldeia nova, intestinos por onde os detritos passam por fora e não por dentro e, fundamentalmente, cérebros TVI cuja principal característica é a de usarem camisinha para evitarem que os neurónios se reproduzam.
Adoro olhar prás pessoas, Rititi. Para mim, por vezes, é melhor que ir ao teatro.
Mas compreendo o teu ponto de vista, Rititi: se das 10 mil pessoas que passaram em frente desse casal, apenas 1% (100) atirasse uma moedinha deuro prá caixa de sapatos, o que é que poderia acontecer?...
Afinal, 20 contos sempre são 20 contos!...
Está-se mesmo a ver: o casalinho teria dinheiro para não ser necessário pedir pelo menos durante 3 dias, e ãquele lugar estaria clean durante... 3 looongos dias.
Decerto que concordas comigo.
Acabadinha de chegar...
Obrigada, mister sarapintola, mcm, rita limede, katraponga e miss spring!
Idwafix, yo también te quiero!!!
Luis... acho que se enganou de caixa de comentários :)
as nossas cidades estão cheias de homens invisiveis.será que o nosso medo de sermos sozinhos é tão grande ,ao ponto de temer a contaminação por via oftalmológica. Eu por mim não desvio o olhar.
ps: pela liberdade a não ter casa , carro, dinheiro...nada excepto nós mesmos.
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