COISAS QUE EU GOSTO DE FAZER EM AGOSTO (VI)

Ler as crónicas taurinas do ABC. Vestir-me de bonito para ir às corridas. E saber-me parte de uma elite que está unida pela paixão real por um animal que só se entende desde os tendidos. Porque o mundo dos touros, em que o tempo se mede por tercios, sortes e avisos, este mundo ao que pertenço por direito e o dever com a história da minha terra, não está feito para os que acreditam na justiça da vida. Nem na igualdade por decreto-lei. Nem na pobreza franciscana da morte higiénica porque assim o ditam as normas do politicamente correcto. No mundo dos touros não cabe a globalização, nem o antropomorfismo, nem a manifestação arruaceira, nem o dedo acusador dos que se esquecem que pecam desde que acordam, nem a vergonha de ser parte de uma península com páginas escritas em sangue e amores desde o burladero. No mundo dos touros conta o ontem tanto como o amanhã e sabe-se que tudo é vão se mandado de fora, por valores de uma Europa que decidiu que a fruta já não sabe a fruta e as vacas melhor mortas que úteis. Sim, gosto de ir aos touros em Agosto e desde Março até Setembro e acabar a temporada em Zaragoza, no Pilar. Gosto de acreditar que ainda há esperança para os valentes e que nem tudo se consegue esperando na bicha que tanto degrada por baixo. É o problema dos nossos tempos, valoriza-se demasiado o concurso público enquanto os génios, os heróis, deixam de contar para as estatísticas dos que temem a originalidade. Por isso gosto dos touros, porque este mundo faz superiores, únicos, a cada uma das partes implicadas e ainda bem que nem toda a gente o consegue compreender que o mundo tem bonitos, feios, pobres e coxos e contra isso, batatas. Afinal aqui não se entra invocando a democracia, o que é fodido quando não se aceita a diferença e que há sempre alguém melhor que nós.

9 Comentários:
Cara rititi,
A tradição não é uma desculpa. Para melhor muda-se sempre. Espero que brevemente as touradas façam parte do passado deste país. Não vou tentá-la fazer compreender porquê, porque quem precisa que lho expliquem, não chega lá sozinho. Vou simplesmente mudar-me para um país mais civilizado e esperar que acabem. E quando a rititi estiver na praia ou na esplanada e tiver que aturar um labrego, quando vir o português virar as costas às agressões contra mulheres e filhos, quando um dia precisar de um canalizador ou de um electricista ou de um papel numa repartição e der com a arrogância de gente que acha que o mais importante na vida é "tenerlos", parecer bem, e tudo o resto são tremoços, lembre-se que é exactamente esse o espírito que as touradas propagam. E como em tudo na vida, também em relação aos labregos que aturamos cada um tem aquilo que faz por merecer.
Cumprimentos,
Rita (criada e vivida mtos aninhos no Ribatejo e portanto com conhecimento de causa)
Rita estou completamente de acordo contigo. A tourada é um espectáculo bárbaro. Onde o touro é torturado sem pudor e sem clemência. Eu também via assim o tema. Um dia por acaso, ao ler um livro do caldwell vi as coisas por outro prisma. Vi a tourada pelo seu lado artístico (o movimento bruto mas elegante, do corpo do touro; a beleza do sangue a jorrar e a dançar pelo seu corpo, a valentia dos forcados, a elegância dos cavalos). Porque na arte como na vida existe vida e morte, existe o preto e existe o branco. A arte nem sempre tem de ser luminosamente bela. A maior parte das vezes a "verdadeira" arte é aquela que nos repugna, que nos causa insónias e por que não dizer que nos mete em contacto com o nosso "eu" bárbaro (e não digas que algo tão intrínsecamente humano tem que ser subjugado á força cilivizacional e amestradora do século, pois isso seria perder metade do nosso espirito, talvez até a melhor metade). Para mim a tua opinião é a mesma daqueles índividuos que ao verem a "bbc vida selvagem" e ao assistirem ao ataque de um leão a uma gazela, se lá tivessem salvavam a vítima.Na tourada o touro não morre para ser nosso alimento é verdade, mas morre pela arte (desculpa se isto soa a uma linha foleira). Existirá morte mais bela?
Rita: "E quando a rititi estiver na praia ou na esplanada e tiver que aturar um labrego, quando vir o português virar as costas às agressões contra mulheres e filhos, quando um dia precisar de um canalizador ou de um electricista ou de um papel numa repartição e der com a arrogância de gente que acha que o mais importante na vida é "tenerlos", parecer bem, e tudo o resto são tremoços, lembre-se que é exactamente esse o espírito que as touradas propagam".
É por isso que a Rita não gosta de touradas, porque não percebe patavina. Pois. E nascer no Ribatejo não a faz perita na matéria. Oxalá encontre esse país-modelo onde as injustiças não existam e a vida seja fácil, democrática, limpinha e sem funcionários que a façam sentir-se inferior ou electricistas fumadores. Desejo-lhe do fundo do meu coração toda a sorte do mundo!
Bruno: cá para mim que as reportagens da BBC onde os leopardos comem pequenas gazelas vão deixar de passar em horário infantil. Coitadinhas das crianças, sabe, ainda podem achar que a comida não vem de latas do Continente. Obrigada pelo comentário, gostei bastente da sua resposta.
Eu não gosto de touradas. Pronto está dito! Mas entendo o espirito por detrás, e mais importante - pelo menos para mim - o touro de lide apenas serve para ... ser lidado. Sem touradas o bicho não serve para mais nada. Para mim a toura da é como a açorda de tomate (para quem sabe o que é) não gosto não como!
Isso dava um bom cartaz de propaganda:
"Jovem, estás farto de esperar nas repartições das finanças? Gostavas de ter uma discussão filosófica com o canalizador enquanto ele repara a máquina de lavar? Querias que o teu pai não te enchesse de porrada quando eras puto? Então junta-te a nós: Vamos abolir as touradas! Porque isso vai fazer a TUA vida melhor."
Sem touradas deixa de haver labregos nas obras, deixa de haver funcionários públicos mal-educados e sem paciência, deixa de haver machismo primário consentido em inúmeras situações? Só por não haver touradas? E se não houvesse drogas, se calhar os israelitas e os palestinianos entendiam-se de vez, não?
Haja paciência.
Olá Rititi
Eu cá não gosto de touradas, não gosto de caça e também não gosto da mania de chamar politicamentes correctos a todos aqueles que não pensam exactamente como nós.
E não é o Caldwell, nem o Hemingway nem a Rititi que me vão convencer da beleza cultural, ancestral e artistica de um espectáculo em que a morte é a "piéce de resistance".
Num mundo onde a morte se serve de borla à hora dos telejornais, não percebo porque é que ainda se paga bilhete.
Aliás, percebo. É um bocado como as corridas de Ascott - a malta vai lá mais para exibir chapéus do que para ver corridas de cavalo.
O que se calhar a Rititi gosta é da atmosfera de uma corrida de toiros, o que a Rititi não pode querer é "coverter-nos" a nós, politicamente correctos aos encantos dessa atmosfera, só porque é uma "especialista" e nós uns incultos e ignorantes.
Ai está uma matéria em que me prefiro manter prudentemente inculto ou ignorante. Quanto ao resto, beijúfas.
PS1: Também prefiro o Dostoievski ao Caldwell , :)
PS2: As toiradas são um tema parecido com a crise israelo-árabe. Toda a gente empunha as bandeiras e os discursos extremistas - os pró-toiradas e os anti-toiradas, e raramente alguém consegue ter alguma razão.
Olá Rititi.
Sou filha de dois aficionados, como carne de vaca e não só permito, como incentivo a minha filha a ver documentários sobre a vida animal na BBC, Odisseia e National Geographic - muito melhor que os Digimons e toda a parafernália de desenhos animados de qualidade duvidosa que grassam até nos canais supostamente especializados na matéria.
Indigna-me muito mais os maus tratos físicos e psíquicos infligidos a mulheres, crianças, idosos e doentes portas adentro, que um toiro ser picado - que, aqui por terras lusas, nem morto acaba por ser - em público.
A tourada é daqueles espectáculos que dispenso, não abominar, mas porque não me aquece, nem me arrefece.
Respeito quem gosta e quem não gosta, mas, por favor, andarem nús a protestar pelo tadinho do boizinho massacradinho e mais-não-sei-o-quê para depois ir comer um bitoque de ovo com bife a cavalo...
O touro é um animal nobre; O cavalo é um animal nobre e o homem, às vezes, também... Na arena há regras e há que respeitá-las.
O touro de lide vive habitualmente mais do que os seus congéneres que vão parar aos nossos pratos já disfarçados em bifes e tem, relativamente a eles, uma qualidade de vida invejável.
Acabar com as touradas é acabar com o toiro bravo.
Seria bom que os "amigos dos animais" se manifestassem, mas que, principalmente, fizessem de facto alguma coisa para contrariar esse acto bárbaro que diariamente se verifica que é o de abandonar à pior sorte, nas ruas das cidades, nos campos, nas autoestradas, os animais domésticos que constituem um fardo, nomeadamente, quando chega a época das férias...
Ainda hoje vi um canito abandonado, ainda de coleira mas com um ar perdido e sofredor que não deixava margem para dúvidas. Nús ou vestidos, manifestem-se contra o abandono e, por favor,façam alguma coisa por esses animais. Deixem os toiros para quem gosta deles, combinado?
cara rititi, por curiosidade fui assistir a uma tourada de morte em Espanha e fiquei horrorizado com tanta crueldade os touros eram lidados por amadores que para os matar espetavam uma espada 5 a 6 vezes onde chegavam a vazar o touro sem que este morresse, gravei um vídeo que vou divulgar para que esta chacina pare ,já publiquei no meu blog um tema acerca do assunto a minha indiferença até então,deixa me revoltado comigo mesmo
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