Terça-feira, Setembro 05, 2006

COMUNISTAS EM FESTA *
(ao cuidado do Tiago, do Kontratempos
)

Se ainda há neste mundo cão pessoas com bons propósitos e o coração cheio de fé, esses são os comunistas. Não se trata de gente utópica ou singelos sonhadores: simplesmente não cresceram, daí a razão de tanta esperança num futuro repleto de amor ao próximo e abraços inter-planetários com os povos do Médio Oriente. Comportam-se como crianças paradas nos anos setenta, quando a política e a televisão eram a preto e branco e aos seres humanos, em geral, não lhes restava mais destino que a subjugação e a opressão, massacrados pelos horrores do sistema capitalista. Os comunistas ficaram-se pelas palavras grandes e os problemas da falta de emprego, de dignidade, de comida ou de sexo solucionam-se invocando o imperialismo, as massas operárias, a liberdade e o povo. Para grandes males, grandes remédios. Os comunistas do Século XXI, não se enganem, não são os meninos do Bloco de Esquerda que idolatram o Francisco Louçã e se enfrascam no Lux ou o público dos concertos do Zé Mário Branco, mas sim aqueles nostálgicos pelo que nunca tiveram e que sonham com o paraíso cubano onde todos podem ser médicos apesar de morrerem de fome ou na prisão. A sorte dos partidos comunistas na Europa actual é que ninguém parece querer lembrar-se da URSS e que a China se tenha transformado numa potência amiga que até faz roupa mais barata.
Com este interesse todo no lado mais vermelho da esquerda passei uma noite de sábado na festa do PCE na Casa de Campo de Madrid onde descobri que é mais sacrificado ser um verdadeiro comunista que seguir as novas regras do Catolicismo do Papa Ratzinger, tal a quantidade de ódios de estimação que se requerem: todo Israel sem excepção, a família Bush e os seus sequazes, a Nike, as monarquias europeias chupa-orçamentos e qualquer evento tipo Expo que esteja para acontecer nos próximos tempos, sem esquecer as multinacionais, a guerra em geral e as touradas. Mas para ser um bom membro do partido, um genuíno operário sem ambições de enriquecimento próximo, não basta com cantar a Internacional Socialista de punho cerrado; o bom comunista abomina acima de tudo na vida, mais que o vil metal e desprezível capital, a América, pátria do capitalismo aniquilador e responsável única pela propagação das terríveis ideias neo-liberais que destroem democracias ali onde chegam e condenam as crianças às fábricas clandestinas de roupa desportiva. Tanto desdém causam os Estados Unidos ao Secretário Geral do PCE que lhes dedicou seis dos quinze pontos do seu discurso, além de se referir à potência imperialista explicitamente onze vezes. Tanta obsessão só pode ser amor sincero. Cá por mim que o Francisco Frutos, na intimidade do lar, lê revistas do Capitão América enquanto cantarola o Born in the USA de Bruce Springsteen. Coisas mais estranhas se têm visto no universo comunista.
Tanta invocação da guerra do Iraque misturada com o furacão Katrina, mais as promessas finais de uma terceira república espanhola baseada no federalismo e a recordação da minha humilhante condição feminina face aos capitalistas que me pagam o miserável ordenado, dá sede. Por sorte, os comunistas também bebem. Espalhadas pelo recinto da Casa de Campo as barracas das federações regionais do partido estavam preparadas para calmar a sede e a fome dos desgraçados militantes, cansados de sofrer a precariedade do trabalho embrutecedor das nove às cinco. Eu própria via-me incapaz de sobreviver mais um segundo sem álcool no sangue. Em Aragão comecei com vinho tinto e jamón de Teruel, cidade apagada dos mapas da Grande Espanha operária pela classe burguesa capitalista; na Catalunha comi butifarra enquanto reivindicava os direitos históricos dos trabalhadores das industrias têxteis; na Andaluzia dancei bulerías inspiradas nos mártires republicanos da guerra civil com um copo de plástico de fino La Ina na mão e ainda tive tempo de passar pelo País Basco para provar txacoli e encher o estômago de misérias com pintxos e hinos pró-independência. Quando nas Astúrias fiz apostas sobre o sexo do filho da Letizia já estava em tal estado de euforia comunista que assinei um abaixo-assinado pela transformação do Principado numa República Independente da Sidra de maçã.
Mas o sonho do comunismo não sobrevive só nas delegações distritais lá nos confins do país, em casas alentejanas a cair de podres e nos discursos de velhos combatentes da guerra civil espanhola. É possível ser comunista hoje no estado mais democrático do mundo depois de Coréia do Norte: Cuba. Para a revolução do proletariado o PCE tinha reservado uma barraca de proporções gigantescas, mais próxima em tamanho a uma carpa para casamentos burgueses que para elevar os ânimos dos militantes subjugados pelo sistema. Com mojitos feitos com rum de verdade, cohibas a um euro e ao ritmo de salsa é difícil resistir aos encantos de Fidel, el Gran Comandante, sempre presente nos cartazes junto ao Che Guevara, o símbolo erótico da esquerda revolucionária.
Pavilhões dedicados à República Popular da China, stands em honra das FARC e dos mártires da causa basca, postos para a venda de t-shirts com a cara de Bin Laden - mistura explosiva de ideologias totalitárias regadas em doses industriais de álcool às portas de Madrid. Até o nosso inofensivo PCP tinha o lugar guardado bem ao ladinho da loja de souvenirs da OLP, cujos benefícios das vendas foram destinados directamente para a nada sanguinária Intifada. Morte à América, morte a Blair, morte a Deus e ao sistema capitalista! E entretanto que ninguém se atreva a proibir estes nobres cidadãos de manifestarem livre e democraticamente o seu amor ou devoção por regimes ditatoriais, regimes onde a liberdade custa a vida ou grupos terroristas. Ser comunista no Ocidente é fácil, basta fazer uma festa.

(* crónica publicada na Revista DNa no dia 30 de Setembro 2005)

4 Comentários:

Na 2:58 PM, Blogger Ana A. disse...

Amei, Rititi! Boa malha!

 
Na 3:33 PM, Blogger mago disse...

"Ser comunista no Ocidente é fácil, basta fazer uma festa."

Ou ser uma besta.

 
Na 1:13 PM, Blogger sónia disse...

Ganda post!

 
Na 4:20 PM, Blogger Nunovsky disse...

Demasiado idiota para ser levado a sério.

 

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