Querido Blogue,
Se escrevo contra, sou uma puta. Se voto contra, sou uma puta. Se penso contra, sou uma puta. Se canto contra, sou uma puta. Se me sinto contra, sou uma puta. E se estou a favor, também. Sou mulher e automaticamente sou uma puta porque é assim que se me supõe quando levanto a voz sem o comando dos outros, quando me apetece, quando porque sim digo que não. O tamanho da saia, do decote, das pernas, do rabo, do físico que não se deve ter e muito menos mostrar, assim como não é de bom tom ser demasiado inteligente, nem ler em estrangeiro, nem viajar fora do pacote concertado, nem escolher a cama em que se dorme.
Eles têm direito a passarem por falsificadores, mentirosos, cretinos, políticos, imbecis, pichas-moles porque se lhes mede por outras regras. Enquanto a nós, pois, quando se nos resume de putas então é porque não passamos de um buraco entre as pernas e nem temos a oportunidade de ser outra coisa que um corpo sempre ao dispor. Sempre magras, sempre bonitas, sempre avaliáveis, sempre putas. E elas, que querem que vos diga, não resistem a sentir-se superiores pelo estatuto de donas de casa, mães e enlacadas, como se querem as respeitáveis. Uma mulher, quando já não pode ser burra, nem feia, nem gorda, é puta.
O insulto no feminino é tão fácil como a visão que de nós tem um mundo que nos quer caladas, violáveis, fodíveis à força de não ser o que deveríamos: discretas, sossegadas e sempre às ordens da moral conveniente, que é sempre a deles. E a delas. Ou dos que têm medo de saltar da cama para mijarem de noite.
A mulher, quando livre, é "gaja" e não há senhora que queira passar por essa qualquer a quem lhe falta o apelido do marido, o anel de compromisso e uma estrutura familiar e social que garanta que ela é das que merecem respeito, das que nunca ficarão sozinhas quando se tratar de defender a honra. Já Diana preferiu ser primeiro virgem e depois mártir que uma puta; e a Letizia foi mais importante apontar o estado civil que o curso, o mestrado e os anos de esforço sem horário para poder pagar o crédito à habitação.
E até que não me demonstrem o contrário eu continuo a achar que ainda não estamos lá, que esta coisa da igualdade, da democracia e da liberdade é tudo mentira, que me deixem de tocar o grelo com tanta hipocrisia e moralismos de última hora. E que não me enganam as leis da paridade, nem a obrigação da conciliação laboral, nem os subsídios de maternidade enquanto me continuarem a chamar puta cada vez que não digo o que querem ouvir.

19 Comentários:
Pois eu teria orgulho era de ser puta.
Parabéns!
Se alguém me chamasse puta por não ser burra eu ficava um bocado desiludida! Tanto trabalho para pisar os calos a alguém (que os terá grandes) e a melhor coisa que consigo é um adjectivo sub-reptício de duas sílabas???
;)
Keep up...
Posso falar?...
"Fala"
"Fala a sério e fala no gozo
Fá-la pela calada e fala claro
Fala deveras saboroso
Fala barato e fala caro
Fala ao ouvido fala ao coração
Falinhas mansas ou palavrão
Fala à miúda mas fá-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe
Fala francês fala béu-béu
Fala fininho e fala grosso
Desentulha a garganta levanta o percoço
Fala como se falar fosse andar
Fala com elegância - muito e devagar."
A. O'Neill
Comigo, estás à vontade.
Fácha vor.
Gostei
Antes puta, que mal fodida a toda a hora...
Parabéns pelo post.
Sempre puta então. ;)
Subscrevo tudooo! Grande post! :D
Assino na íntegra! É assim e mai nada!
Gostei muito.
E concordei consigo (creio que foi a primeira vez, embora para o caso isso não tenha importância nenhuma para si, mas imensa para mim); particularmente com o final do texto.
excelente post, assino por baixo!
bjs
O tema, abordado quase sempre por mulheres, começa a entediar: a mulher livre, ousada e aventureira é sempre uma puta valdevina, o homem livre, ousado e aventureiro é um cabrão garanhão (repare-se, aliás, na diferença de sentido entre os adjectivos no feminino e no masculino). A mulher merece sanção social sob a forma de censura, o homem sob a forma de admiração, ou pelo menos tolerância.
Pois o que me parece é que o problema não é o dos homens, machistas, que classificam as mulheres, nem da sociedade que no seu todo acolha a opinião daqueles. A questão é mesmo das mulheres que não gostam de reconhecer que gostam.
Que gostam de usar mini saias e vestidos curtos e pretos coleantes, mostrando as suas pernas longas e desenhadas, criando curiosidades sobre o que ainda está tapado, saltos altos de pés nus e unhas arranjadas e pintadas, costas também nuas e bronzeadas revelando a liberdade do peito, tapado, mas não espartilhado, transparências subtis que deixam entrever a linha da última string da la Perla, da Lola Luna ou da Victoria Secrets, visões instantâneas mas estudadas de um bocadinho da renda das Dim Ups a aparecer por baixo de uma impecável saia para trabalhar, um botão da camisa imaculadamente branca meio desapertado, esquecimento, que chatice, desabotoa-se, ai, revelando formas e volúpias… enfim, que gostam de revelar que são bonitas, que têm encantos e que são sensuais.
E que gostam de "flirtar", de encantar, de enfeitiçar e, às vezes, de conquistar.
E que gostam de olhar, de beijar, de tocar e se passam com uma massagem temperada de beijinhos por todo o seu corpo. E que adoram fazer amor numa praia vazia depois de um demorado passeio de beira-mar. E que amam passar uma noite a namorar num quarto de cortinas brancas esvoaçantes e aromas de laranjeira num Riad de Marrakesh.
As mulheres não reconhecem nada disto, ou, pelo menos, não o fazem abertamente. Não assumem que gostam e que querem. É sempre tudo disfarçado, simulado, escondido. Têm medo.
E é assim porque o ideal, o paradigma, o que realmente desejam, da generalidade das mulheres, não é viver essas coisas todas, pese o delas todas gostarem. É antes conseguir uma relação estável, um namorado com que contem, uma casa e filhos, uma família, um marido e um bom pai. É assim. Seja fruto de apelos da natureza, maternidade, seja consequência do universo de valores que receberam e depois adoptaram, seja pelo que for.
E quanto a isto, nada a fazer. Convenhamos que parece difícil conciliar essa aspiração se, nas duas horas que medeiam entre os dois aleitamentos do filho bebé querido de 4 meses, a mulher puser o seu vestido branco semi-transparente e for namoriscar com o novo vizinho que por acaso tem pinta de Robert Redford e lhe ofereceu uma flor num dia em que a encontrou a passear no jardim do condomínio. Não se conjuga, não encaixa. Por mais voltas ou exercícios de imaginação que se dê.
Mas, como é que se resolve isto, então ? Por opções, ou, para quem queira ter tudo, por fases, bem delineadas, bem calendarizadas, responsáveis e sem desvios.
Pessoalmente odeio rótulos. Considero cada Ser como diferente. Mas tenho de concordar com a ideia que deu origem ao post, infelizmente...
Eu pensava que não ligavas a ponta dum corno ao que dizem esses cabrões que gostam de chamar putas a todas as mulheres, menos à mãezinha deles que é santa.
Porque até eu, sendo homem, desprezo gajos assim. O que eles dizem não conta para o totobola.
Devias saber isto.
Dentro desses termos, então que vivam e abundem as putas e que eu seja uma delas!!!!
Clap, clap, clap!
Hay que tenerlos!
Olé!
Igualdade é poder ser chamada de puta e poder à laia de qualquer constrangimento social rispotar ou não, ignorar ou capitalizar o inusulto ou não, a seu favor, como vocês sempre o conseguiram fazer, brilhantemente e elegantemente, muito melhor do que nós.
Um picha mole
Cara Rititi,
Parabéns pelo blogue, mas não use tanto palavrão.Fez-me esclarecer porque é que no Porto se diz mas a um portuense nao sôa a palavrão. É porque em Lisboa se pensa. E além das diferenças entre Lisboa e Porto ha outras maiores entre Homem e Mulher. Há que olhar o abismo e saber ser olhado por ele. Tem razao, a democracia é mentira mas ainda bem; O que nao é bem é parecer e não ser; Isso faz mal a muito coração. Respeito imenso a Mulher, acho que o amor por uma mulher é um bocado de Paraíso e quando é correspondido são dois Paraísos; Mas por ser um bocado de paraíso e ainda a vida se prolongar na maior parte dos casos, por causa dele, não é completamente deste mundo. Há um respeitável abismo de via láctea até o atingir. Tão respeitável, como outras coisas, além da Mulher e de si em partiicular.
Escrevinhador do Duas Cidades
Rititi,
Este teu texto foi devidamente enviado por e-mail para as minhas amigas que têm vergonha de serem putas. Percebeste o tráfego acentuado de IPs brasileiros?
Só pra ti, querida nunca-te-vi-sempre-te-amei, fiz o upload de um vídeo lindo, muito oportuno para este post.
Espero que goste!
http://video.google.com/videoplay?docid=7428088569378034171&pr=goog-sl
Sou homem e dou-te razão.
Parabéns!
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