Querido Blogue,
Tenho casa e carro, curso universitário, homem que me aqueça e a recordação de uma gata morta nas camisolas pretas. Tenho um maple chamado Alfredo, portas de madeiras, toldo laranja, quadros pendurados, vistálegres, cozinha equipada, zona de serviços, corredor, tevê, devedês e cedês e internete. Tenho uma cama nova e uma estante comprada no iquéia, cortinados, almofadas, arraiolos e crisântemos na varanda. Mas não tenho água quente. De manhã aqueço duas panelas kingue saize, meto-me na banheira e lavo-me com um taparuere de plástico, às mijinhas. Até recuperei o bidé, antes conhecido como o sítio onde se guardam as pinturas. Só me falta atravessar a rua e ir para o Retiro de papel higiénico na mão para me sentir de acampada.

6 Comentários:
E isso de ir cagar ao Retiro não é para todos...
Isso é tramado! Coisas tão simples, nem damos por elas, e depois fazem-nos mesmo muita falta.
Mas para te sentires acampada tens de abrir as janelas de par em par e acordar aos primeiros raios de Sol... não há ressaca que aguente! :s
isso não está fácil! a sociedade gerou comodidades que é imaginável estar sem elas.
é verdade que cagar no Retiro não é para todos, mas não te esqueças do sachinho para esconder o que não queremos os outros pisar!
Eu também não tenho água quente. E fiquei hoje a saber, em mais um dos incontáveis telefonemas que tenho feito para a Lisboa Gás, que já lá vai quase um mês. Aqui em Lisboa, ao lado da Avenida da Liberdade, é preciso fazer sempre mais um telefonema, fazer um choradinho e/ou levantar a voz para que o processo que um dia há-de fazer regressar a água quente às minhas torneiras avance mais um passinho. Entretanto, já ganhei carinho à chaleira eléctrica, ao bidé e ao recipiente azul que uso todos os dias para tomar banho.
e se faltar a electricidade?
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