Este site foi concebido para ser visto num browser dentro dos limites da caducidade: infelizmente não é o caso do seu. Assim, a sua experiência de navegação será seriamente afectada. Sugerimos a instalação de um browser mais séc. XXI, se lhe for possível: http://www.mozilla.com/firefox . Mas qualquer outro serve.

Rititi

Rititi

INÍCIO

  • votar sim na sala de espera da clinica

    VOTAR SIM*

    Na sala de espera da clínica uma menina de quinze anos entretém-se a olhar para os ténis de marca enquanto a mãe relê a folha onde deve expressar o seu consentimento. Tem que assinar; parece que é o melhor para todos, ela é ainda tão pequenina, que chatice, que fizemos mal, e olha em redor, como comparando-se, buscando a equivalência na dor. Em frente delas está sentado um casal de trinta e tantos, cansado, triste e com vontade de que a vida fuja dos hospitais, das análises, dos diagnósticos injustos. E também vê uma senhora sozinha, com pasta, fato e ar de muitas reuniões à semana e uma cigana velha que arrasta uma barriga adolescente. E uma enfermeira que entra e sai enumerando nomes que trazem fetos. Na sala de espera da clínica especializada em abortos do centro de Madrid não há uma única alma que esteja confortável, apesar da cor neutra das paredes e das revistas do coração que sobram porque ninguém está lá para saber da vida dos outros. Naquela sala não vê uma mulher feliz, sossegada, nem nenhuma que pareça uma assassina em série que mereça ser julgada por um referendo popular. Só mulheres que precisam abortar.
    Quando em 1998 Portugal preferiu ir para a praia, ficar em casa, dar banho ao cão ou visitar a sogra deixou bem claro que se há um lugar onde ninguém se quer meter é no útero de uma mulher. Votar em nome dele, dar voz a um destino que só compete a quem o traz de fábrica não cabe na cabeça de pessoa crescida, a não ser, claro, na dos senhores que habitam na nossa Assembleia da República. Eles, sempre tão comprometidos para a capa do jornal com o «Portugal real», foram incapazes na altura de deixar de penalizar mulheres que estão dispostas a arriscar a reputação, a vida ou o cadastro, num acto que não distingue classes sociais, consciência religiosa ou estabilidade familiar. E quando volta a submeter uma opção tão pessoal aos foruns de internet, aos debates em máxima audiência – enfim, à voz do povo – obriga os portugueses a questionarem-se em público em nome de um bem comum. Um bem comum a que chamaram Vida, com maiúsculas e questões éticas e que atola automaticamente o debate, preso por todos os valores genéticos, congénitos e culturais. Porque ninguém quer ser o responsável pela morte de um futuro Luís Figo, então o melhor é não votar. «Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas dez primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?». Ou então, é preferível não concordar. Umas quantas mulheres presas bem valem uma Vida, com maiúsculas, sagrada, expectante, superior a qualquer valor, a qualquer necessidade económica, a qualquer desespero. E assim, impondo o bem comum faz-se saber a todos os interessados, inclusive à comunidade médica, que votar a favor da despenalização da interrupção da gravidez equivale a matar. E matar é um crime.
    Eis aqui o erro primeiro desta discussão: o valor a ter em conta não deve ser a Vida, mas sim a Mulher, também ela com maiúsculas, sagrada e anterior e a quem o Estado deveria proteger. E eis aqui, também, onde o discurso óbvio dos militantes do “não” impressiona mais, porque parece ignorar que a Mulher é parte interessada em todo este assunto. Fala-se de nós, as únicas que engravidamos, como simples portadoras, tal qual uma mochila sem vontade ou necessidade. Muitas abortam porque não sabem o que fazem e outras por maldade, inconsciência, fraqueza ou estupidez. Ou tudo junto. E o que a voz do “não” nos diz é que devemos ser castigadas e dissuadidas do erro, desse terrível passo que matará, de um modo cruel e doloroso, um ser indefeso. Esse ser, dizem, é que precisa de ajuda, nunca as mulheres. Abortar está mal. Não importa porque se faça. Claro que há desculpas, como o perigo da mãe, doenças congénitas e violações, mas como está posta actualmente a questão do aborto em Portugal, até essas excepções são más, um crime que se perdoa porque está socialmente estabelecido. Mas quando toca à realidade todos têm medo de cometer este crime hediondo, começando pelos médicos que são os primeiros que não querem ser os culpados. Uma vez mais, a Mulher é a última a ser tida em conta.
    Se a Mulher fosse o factor mais importante, então o aborto não entraria na equação da moralidade e o Estado, que é quem tem a responsabilidade final pelo bem-estar dos cidadãos, preocupar-se-ia em investigar porque razão milhares de mulheres todos os anos decidem pôr fim à sua gravidez. Se o Estado não fosse cobarde saberia que nada impede que os abortos se realizem, numa cave, em Mérida ou com um ramo de salsa. E se o Estado não olhasse para as mulheres neste assunto como cidadãs de segunda perceberia que quem tem a voz última no tema não são deputados, taxistas, párocos, intelectuais ou politóligos. Somos nós, as mulheres. E naquela clínica de Madrid, onde tudo era legal e desinfectado, as únicas que se podiam levantar e ir para casa eram as que iam abortar. E o Estado não pode continuar a esquecer que só nós decidimos.

    * publicado na edição de Dezembro da Revista Atlântico.



    Por Rititi @ 2007/01/26 | 10 comentários »

  • Pretazeta says:

    acho que nunca cá tinha vindo, mas este texto está SÓ brutal!!!!
    o ambiente que trasncreveste angustiou-me, mas mais angustiadas as mulheres que lá vão , ou foram 🙁

  • Lilith says:

    Se mais uma vez o NÃO ganhar, o que eu desejo sinceramente e com toda a força que não, muitas mulheres irão morrer por causa das más condições em que se fazem os abortos clandestinos, muitos bébes irão nascer para serem vitimas de maus tratos e sabe-se lá mais o quê, muita desgraça continuará a ser constante a cada dia. Porque as mulheres que não têm condições (sejam elas quais forem) para criar um filho, também não têm condições para ir a Espanha fazer um aborto e, as que podem ir a Espanha fazer esse aborto fazem-no em segurança porque afinal até têm poder económico… Infelizes Discrepâncias sociais

  • Teresa says:

    nem mais, rititi!
    gostava eu de ter competências para escrever assim. obrigada pelo acesso ao texto.

    (vou colocar um link para este post na pedreira)

  • Catch says:

    Obrigada, em nome de nós, mulheres.

  • Papoila says:

    Lá está, o problema é que muitas pessoas (homens e mulheres) continuarem a achar que um bebé é propriedade da mulher. Não é! O futuro da humanidade, que em última instância é o que está em causa, é uma questão que diz respeito a homens e mulheres! Se as mulheres, por estarem naturalmente confundidas (bolas, estou grávida, tenho um bebé dentro de mim, se o quiser matar mato, ninguém tem nada a ver com isso!) não têm capacidade de discernir, então que venham de lá essas leis que não permitam que um assassinato passe impune!

  • tlpg says:

    Querida Rita, lembro-me que na altura achei esta crónica excelente.

    Um beijinho,
    Tiago.

  • didnsdale says:

    A liberdade de uns acaba quando impede a liberdade de outros.

    Ao dotar a mulher desse suposto direito inerente à condição de mãe, todo e qualquer direito da vida que carrega é negado.

    Ao privar a mulher de um só direito (esse a que alegadamente se referem como liberdade de escolha ante a possibilidade dar ou retirar uma vida) toda uma panóplia de liberdades são passiveis de ser usufruidas pelo fruto do nascimento.E consequentes direitos e deveres provenientes da sua respectiva liberdade.

  • pipilocas says:

    Muito bem!
    Espero que desta vez os portugueses e portuguesas não tenham medo das retaliações divinas e enfrentem a vida com dignidade.

  • Miss Spring says:

    este texto está estupendo.
    queria conseguir escrever o mesmo, porque parece que os meus pensamentos, ideias, imagens e raivas transparecem através destas tuas palavras.
    obrigado. de algum modo, ver pessoas inteligentes que partilham a minha opinião, alivia a minha frustração de não poder ir a lisboa votar.
    bj

  • francisco carvalho says:

    Muito bem! Excelente texto, eficaz explanação.
    Eu, como homem, também posso dizer-te obrigado.

  • Leave a Reply to Teresa Cancel reply

    Your email address will not be published. Required fields are marked *