Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

A BARONESA DA ARTE

Como separando as salas P e O do primeiro andar do Palácio de Villahermosa, foi pendurado um quadro de um barquinho chamado «’Martha McKeen’ de Wellfleet». O azul do mar retratado contrasta com a versão nocturna que de Nova Iorque tem Geogia O’Keeffe e a orgia de cores da «Grande Portuguesa» de Delaunay, ao tempo que o rosa pálido das paredes realça a calidez dum quadro que quase me fez chorar a primeira vez que o vi. A partir desse dia venerei Edward Hopper acima de todos os pintores deste mundo (excepto Velazquez, cuja genialidade só pode ser fruto da passagem de extraterrestres pelo planeta Terra) e rendi-me à evidência de que só um pintor puramente citadino é capaz de captar com tanta emoção uma tarde passada num barco à vela. Esta delicia de obra de arte pertence à colecção de Carmen Thyssen - antes Tita e Miss Catalunha e hoje Baronesa pela graça do matrimónio e muito olho para o negócio - e descobriu-me um refúgio para escapar à fúria natalícia madrilena. Um museu é o único antídoto contra a repetição intensiva do pero mira como beben los peces en el río por ver al Dios nascido, o contrabando de Lotaria de Navidad na Gran Via e os anúncios de turrão que só se come quando o filho vuelve a casa vuelve en Navidad. E a quinze minutos da minha casa, no Passeio do Prado há três oásis de sossego e bom gosto: o Prado, o Reina Sofia e o Thyssen-Bornemisza, o meu favorito por tamanho, temática e mecenas, a Carmen Cervera.
Tanto me impressionou o «Marta Wellfleet» que quando cheguei a casa enviei um e-mail à Baronesa onde não só me apresentei como a presidente honorária do seu clube de fãs, como lhe jurei amor e agradecimentos eternos por ter trazido esta soberba pinacoteca para Espanha, além de lhe oferecer o meu improvável primeiro filho se me permitisse estar uns minutos a sós com o quadro, em silêncio e sem turistas chineses à minha volta. Claro que nunca me respondeu. Devia estar a inaugurar alguma exposição no MOMA, negociando a compra de outro Gauguin por uma barbaridade de milhões de contos ou a tentar que o filho emagreça e deixe de ser a chacota das revistas do coração. Mas a minha admiração mantém-se. Sem ironias ou a má-lingua característica da aristocracia espanhola que não compreende que uma antiga capa da Interviu tenha feito mais pelo património artístico e cultural espanhol que gerações de apelidos intermináveis que só lapidaram fortunas. Esta ex-viúva, ex-miss, ex-personagem de terceira categoria social, ex-degenerada, ascendeu no escalão das celebrities nacionais, casando-se com um homem que temia morrer sozinho e abandonado por um punhado de filhos sem mais amor que à fortuna centenária dos donos dos elevadores mais conhecidos da Europa. Pôs ordem na herança, vendeu por uma pechincha (250 milhões de Euros) a melhor colecção pictórica privada do mundo ao Estado Espanhol e depois enterrou o Barão com lágrimas e vestida de rigoroso luto.
Esse foi o único dia em que esta mulher foi respeitada pelos meios de comunicação que fazem eco do desporto nacional preferido: a inveja. Porque ela? Que tinha esta quarentona estragada e sem mais bagagem conhecida que um filho sem pai para apaixonar essa grande fortuna chamada Hans Heinrich Thyssen-Bornemisza? Como se atrevia a apresentar-se em público como uma aristocrata «de verdade», ela que não passava de uma oportunista, mais esperta que a fome, uma pirosa de bairro mascarada de diamantes e Chanel? Porque aunque la mona se vista de seda, mona se queda. Talvez seja por isso que raramente a Baronesa pisa solo madrileno, deixando-se ficar pelo sossego da brisa catalã e a retrospectivas de Sorolla nos museus de Barcelona. Dizem que se sente menosprezada na capital, que lamenta que ninguém lhe reconheça os méritos de mecenas e que já está farta de que nem Rei lhe conceda um título nobiliário como deve ser, castelhano, pomposo e com pedigree suficiente para calar as línguas viperinas das marquesas locais. Claro que Carmen é catalã e está mais habituada à fina snobice burguesa que à sobranceria da nobreza antiga. Esta Cindarela com passado, mulher pública durante os anos oitenta e cujo corpo apareceu nu nos tenebrosos filmes do destape dos tempos pós-franquistas com pretensões de modernidade, não só desrespeitou as normas de ascensão social, como representa o tipo de mulher que não se envergonha das camas onde acordou e talvez esteja orgulhosa de ter sobrevivido aos dias em que o pão se ganhava onde houvesse trabalho.
Carmen Thyssen assusta pela valentia da fêmea que não esconde a cara, mesmo sabendo que mesmo atrás de si há alguém com o dedo assinalando, recordando aos presentes o passado que nenhuma mulher deve ter para ser respeitada e respeitável, uma senhora que nunca deixar ficar mal o marido em actos públicos e vai sempre bem penteada. Por acaso a Baronesa pinta o cabelo em casa. E rói as unhas para depois aparecer na Hola! com anéis de três quilos nos dedos. A mediocridade não suporta a falta de modéstia dos que foram pobres, o andar altivo da mulher que não se arrepende pelos erros e as rugas provocadas por copos a mais e amantes errados. Os medíocres, invejosos por natureza, ainda se perguntam como conseguiu uma Miss Catalunha ser dona do «’Martha McKeen’ de Wellfleet» de Hopper para depois o pendurar num museu para desfrute dos outros.
(Publicado em Dezembro de 2005 no DNA. Que saudades, Pedro)

2 Comentários:

Na 6:01 PM, Blogger Margarida V disse...

não satisfeita com as pinturas agora adoptou duas crianças. :)

 
Na 10:54 PM, Blogger j-adn disse...

Depois de conhecer a história por detrás da silhueta, vou me plantar á porta de casa da baronesa com flores e velas de cheiro, prometendo-lhe amor eterno até que os elevadores nos separem.

 

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