Este site foi concebido para ser visto num browser dentro dos limites da caducidade: infelizmente não é o caso do seu. Assim, a sua experiência de navegação será seriamente afectada. Sugerimos a instalação de um browser mais séc. XXI, se lhe for possível: http://www.mozilla.com/firefox . Mas qualquer outro serve.

Rititi

Rititi

INÍCIO

  • imaculada concepcao por ela enfrentaram

    Imaculada Concepção

    Por ela enfrentaram-se correntes doutrinais, levantaram-se edifícios e talharam-se obras de arte; é fonte de inspiração para Cantatas de Bach, romarias populares e fenómenos extraordinários com velinhas na Avenida da Liberdade; exemplo de caridade e amor, a essência da maternidade. Maria. Nunca houve mulher que contribuísse mais para a discussão filosófica no Ocidente e nenhuma mulher mereceu mais devoção que ela. Pura, virgem e imaculada. Mas também caridosa, auxiliadora, mística, dolorosa, reconciliadora ou milagrosa. E a mulher que se espera sejamos todas as que viemos depois. Concordarão que não é propriamente fácil sobreviver a um modelo destes. E não me leiam aqui como uma iconoclasta radical de esquerda, sou só realista. Como alcançar tamanha virtude num mundo pejado de excessos carnais, publicidade erótica na televisão e incentivos à evasão fiscal? Não se nos terá exigido demais ao género feminino? Não poderiam ter escolhido Maria Madalena, pecadora, mas arrependida apesar de tudo?
    Comemora-se este ano o 150º aniversário do Dogma da Imaculada Conceição. Quase dois milénios demorou a Igreja Católica em oficializar algo que toda a gente já sabia: que Maria, mais que virgem, estava limpa de pecado original, livre do fardo de depender do perdão pela oração e pelos actos caridosos que nos redimem ao final dos nossos dias. Segundo a doutrina dogmática Maria nasceu sem a oportunidade de errar, incapaz de gerar ódio, impossibilitada pela graça divina para a mesquinhez ou a preguiça: nunca mentiria, nunca desejaria o alheio, seria infalível nos pensamentos, virtuosa e magistral no dom de amar e compadecer-se das misérias alheias. Magnífica. Mais além do culto mariano, indispensável para a crença católica, o conceito abstracto de Maria sempre me ultrapassou. Não pelo facto de ela própria ter sido concebida sem pecado no seio de Santa Ana, ou que tivesse aceitado a maternidade de Cristo sem a menor dúvida, ou que toda a vida a tenha dedicado a Deus. Mas sim pelo que essa mulher, como exemplo de comportamento, significou para todas nós. Todos aqueles maiúsculos atributos passaram culturalmente para as fêmeas do mundo, como se esse fosse o nosso fim último: ser mães impecáveis, serenas mulheres, impassíveis ante a morte, obedientes – e virgens, como não.
    Eu não posso, nem sei se me apetece, ser assim. Quero-me imperfeita, com a minha dose de pecado original e, sobretudo, com liberdade total para me enganar, para fazer merda da grossa, se me permitem. Claro está que Deus nunca me escolheria para sua Esposa Celestial, pois são demasiados os vícios aos que me habituei desde muito novinha e poucos dos que tenha renegado ao longo da vida. Não houve confessor a quem não aldrabadasse a troco de uma penitência mais benévola e até sou pessoa para preferir por vezes a inveja infantil à caridade sem contemplações. A minha humanidade, tão pouco venerável nas ressacadas manhãs de domingo, não atribui ao meu quotidiano qualidades metafísicas, dignas para recordar quando tiver netos, antes pelo contrário: recorro facilmente à blasfémia oral quando perco o autocarro e a paciência; entre os meus desportos favoritos encontram-se os nobres prazeres de comer, beber e fumar e raramente pratico a caridade. Até a figura maternal de Maria me parece estranha: a candura supostamente feminina, o gesto delicado ou a abnegação não cabem no meu historial familiar onde as mulheres sempre olharam para a morte nos olhos e à vida esperam-na com as mãos nas ancas, insubornáveis e nunca menores. Antes mulheres que mães e nunca concebidas sem o pecado do amor carnal.
    Do quotidiano de Maria pouco se pode deduzir do Novo Testamento, enquanto que o Antigo se fica por profecias sobre a estirpe da mulher (para alguns Maria) que se inimistará com a serpente (claramente Satanás). As qualidades humanas desta mulher, a celestial beleza ou a impecabilidade são conceitos posteriores de homens, santos ou não, que desenharam para sempre o destino do culto mariano e do modelo para o resto da humanidade feminina. Altamente interessantes e curiosas são as teorizações de alguns Pais da Igreja sobre a absoluta pureza de Maria: «isenta de todo defeito» (Typicon S. Sabae) ou «incorrupta, virgem, imune pela graça de toda a mancha de pecado» (Ambrósio). As doutrinas escolásticas que se seguiram continuaram a aprofundar a natureza da concepção de Maria, a falta de culpa no corpo que acolheu o Messias e os artistas plásticos fizeram o resto: imagens de uma beleza intacta, a substância da feminilidade, pele branca, compaixão no olhar. Talvez fosse assim Maria – caridosa, auxiliadora, mística, dolorosa, reconciliadora, milagrosa. Mas quero acreditar que no retrato da imaculada virgem sem rugas que me pintaram também cabe a mulher arrojada, corajosa, velha, com dúvidas e ciúmes, mãe chata, trabalhadora incansável, reivindicativa, péssima cozinheira, mas excelente bailarina, com calos e varizes, leitora de poemas, valente e apaixonada. Porque um modelo precisa de ser humano e mais quando é um dogma de fé.

    (crónica publicada no DNA)



    Por Rititi @ 2007/04/13 | 9 comentários »

  • absorbent says:

    eu (pessoalmente) nao quero uma mulher assim, como a maria… e assim de repente nao estou a ver ninguem q queira.

  • Ticcia says:

    Bravíssimo, Titi.

  • Rini Luyks says:

    Assim é que se fala!
    Tenho uma querida irmã na Holanda que é possuída pelo TOC de organizar peregrinações marianas.
    Não sei o que fazer, é um desespero…
    (TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo…)

  • Refúgio says:

    Mas é essa a Maria que encontro na minha abstracção…essa com a condição humana toda…mas que viveu na transcendência do homem….no absoluto…no englobante…será que conseguiu ver do lado de fora de nós?

    Sim…és humana demasiado humana…e fico comovido.

  • j says:

    Leio-a com a frequência que uma escrita muita bela merece. Nunca a li, porém, com tanto prazer e gozo como hoje.
    Pois claro, querida Amiga.
    Maria foi tudo o que diz, simplesmente porque foi Mulher.

  • sem-se-ver says:

    achei excelente. mesmo.

  • rititi says:

    Obrigada a todos.

  • mch says:

    Rititi
    Parabéns. Já não a lia há que meses mas surpreendeu-me com este post. É mesmo uma intelectual que sente, coisa tão rara como o Engenheiro Álvaro de Campos que, felizmente, não teve de provar se tinha diploma. O seu ponto neste post é que as glórias de Maria são conseguidas à custa da desumanidade da mesma. Como corolário, a doutrina do cristianismo não se aguenta pois pede uma utopia, e uma chata ainda para mais. Alguém falou em comunismo ou marxismo-Leninismo? O seu protesto humano, demasiado humano como dizia o outro, tem todo o sentido e não tenho uma resposta para ele. Santos e pecadores, eles andam por aí misturados.
    Em todo o caso lembro-me disto. Dos quatro dogmas sobre Maria, o 1º, A "Imaculada" foi analisado foi si razoavelmente, tanto quanto a ignorância da escolástica lhe permite. Atenção. Não leve isto a mal. O que quero dizer é que acertou no centro da questão mas não percebe muito dos arredores. O 2º dogma é a "Assunção" de 1950, a subida ao "céu". Contudo Pio XII não quis proclamar as outras duas propostas de dogma que jazem nas gavetas do Vaticano, a Mediação de todas as Graças e a Co-redenção. A serem proclamados colocariam Maria quase a par de Jesus Cristo nas suas eficácias teologais. Já viu: a mãe de Deus pare, salva, ajuda e sobe ao Céu como o filho de deus. Deus é feminino, ou quase. Agora , sff, ponha entre parênteses, como os matemáticos e os fenomenólogos, se estas ideias são falsas ou verdadeiras. Nenhum de nós é teólogo, não as vamos discutir. Concentre-se apenas no que elas significam em colocar a mulher a par do homem, como orientação. Uma religião que pensa assim não deixa usar burkas, nem fazer excisões, nem segregar do trabalho, nem diminuir os direitos, nem mandar as virgens servirem no céu os "mártires" violentos. Uma religião que exalta Maria como tão "desumana" talvez crie o mesmo efeito com meios transcendentes que a Jane Fonda que nos seus sessenta bem puxaditos, com aeróbica e cremes, ainda é um regalo imanente. Vê onde eu quero chegar? Não me passaria debater se é verdade ou mentira o conteúdo daqueles dogmas marianos – os proclamados e os por proclamar. Mas vendo os efeitos, as consequências, e os frutos dos mesmos a mulher saiu mais defendida do que noutras culturas -islâmicas, budistas, "you name it"- que se marimbam para as suas Marias.
    Com estima
    mendo henriques

  • Cláudia says:

    Este texto está fantástico…

  • Leave a Reply

    Your email address will not be published. Required fields are marked *

    *

    You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>