Domingo, Abril 01, 2007

CONTROLAR, CONTROLAR, CONTROLAR


Forges

Querido Blogue,
Era uma vez, ai se era, numa tarde de inverno no aeroporto de Lisboa, um jovem casal de emigras que tenta regressar a Madrid de malas, jornais nacionais e uma bela de uma ressaca pós fim de semana de escândalo. Já se sabe como são as férias de matar-saudades: uma gaja agarra-se à imperial e ao tremoço como se não houvesse amanhã, como se toda a essência do nosso Portugal estivesse condensada num barril de Super Bock. Voltar a Lisboa, todos os que vivem fora de Portugal sabem desta verdade universal, obriga a um mínimo de oito horas de observação do Tejo com uma cerveja na mão, com todas as consequências ulcerosas que este exercício de comunhão com a pátria implica. E nessa tarde de domingo, quando só se consegue pensar no sofá amarelo para descansar a ressaca, uma gaja vê-se numa bicha a caminho do detector de metais. Do meu lado da fila estão os potenciais criminosos, terroristas com ar de donas de casa, medonhos executivos de fatos cinzentos, estudantes universitários prestes a rebentar um avião com as suas canetas-laser e, cuidado, a mais perigosa das ameaças: os carrinhos de bebé. Do outro lado da barricada, os controladores da paz cósmica, os garantes da estabilidade da aviação europeia, mais concretamente, três seres de metrossessenta vestidos de duendes com bonés e cassetete que não são polícias, nem GNR, nem sequer militares, só três civis a quem a respectiva autoridade aeroportuária emprestou uma farda ridícula e demasiado poder para registar, vasculhar, apalpar e humilhar outros seres tão civis quanto eles, mas sem essa farda e portanto menos bons e claramente preversos para a segurança mundial. Vai uma velha. Apita. Registo. Apalpão. Passa. Vai uma criança.
Apita. Registo. Apalpão. Passa. Vai uma grávida. Apita. Registo. Apalpão. Passa. E esta que assina também teve que passar pelo detector e, como se poderia esperar, pipipipi, um verdadeiro chinfrim. Minha senhora, diz a duende-bófia, venha por aqui, abra as pernas, tire o cinto, tem moedas, volte a passar, pipipipi, tire o casaco, levante os braços, vire-se, passe de novo, pipipipi, ponha as mãos sobre a cabeça, tire as botas e volte a passar. E foi assim que aqueles abusadores, esses civis mascarados de importantes, verificaram, em público e em hora de ponta, que esta que assina, descalça, com as cuecas à mostra, calças desabotoadas, sem casaco, não era uma terrorista chiita, etarra, tarada ou psicopata. Só uma utente, sem mais crime que ter pago o bilhete de avião, as taxas, o suplemento de combustível e o ordenado daquelas bestas mascaradas de seguranças que se devem sentir muito importantes despindo os outros. Fim.

4 Comentários:

Na 3:13 PM, Blogger apipocamaisdoce disse...

Não sabem respeitar uma leide. Estúpidos!

 
Na 7:53 PM, Blogger DJ disse...

Não era uma terrorista chiita, mas poderia ser uma terrorista da blogoesfera (no bom sentido da palavra)!

 
Na 8:07 PM, Blogger rititi disse...

É isso querida pipoca!
DJ, será que a duenda-bófia lê o meu blogue?

 
Na 9:32 PM, Blogger joeindian disse...

Assim de forma sistemática, despir gajas com recurso a detectores de metais soa-me a grande tara.

 

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