Domingo, Abril 22, 2007

MADALENA



Numa sala do Museu do Prado enfrentam-se os dois super-ícones femininos do imaginário católico. Do lado esquerdo, com túnica branca folgada, expressão místico-elevada e rodeada de anjinhos massajando-lhe o virginal calo, pendura a Nossa Senhora da Conceição, cheia de luz e expectante devoção segundo a imaginação de Bartolomé Murillo. Na parede direita , de ombros impudicos à mostra, observa tão amoroso retrato a que foi e será a Grande Pecadora do mundo ocidental e a penitente para efeitos litúrgicos e pictóricos: Maria Madalena. Ou assim a pintou José de Ribera, El Españoleto, escondida na gruta da vergonha eterna onde expiar os pecados anteriores à Grande Redenção, que não foi outra que o perdão definitivo de um homem, por muito filho de Deus que fosse. Duas mulheres que existiram talvez com outros nomes, de certo com outra cara e uma história que não coube na rígida numeração dos versículos canónicos nem na histeria conspirativa dos evangelhos apócrifos.
Escolhidas por homens para representar o lado feminino da Humanidade, nenhuma das duas parece suficientemente verídica para que as mulheres as reconheçamos como exemplos de comportamento. Afinal, ninguém é assim tão casta nem tão cabra. E o exagero sente-se mais quando se trata da coitada de Maria Madalena. Apesar dos esforços da Liturgia católica actual para apagar do subconsciente colectivo a imagem da prostituta arrependida, segundo a informação genética do catolicismo esta mulher só foi aceite por Cristo porque se envergonhou de ter dormido sabe Deus com quantos legionários, mercadores, talhantes, fariseus, carpinteiros e apóstolos em geral. Madalena, lógicamente, teve imensos remorsos da vida passada de orgasmo em orgasmo, pesarosa pelas cambalhotas dadas e os amores dos homens sem compromisso, roupa para estender, filhos que criar ou apelidos masculinos a adoptar. O perdão vem do arrependimento - e, sobretudo, dos actos de contrição como lavar os pés de Cristo e secá-los com o cabelo – e do arrependimento, o amor e a integração num grupo de discípulos barbudos e de quem nunca se soube os devaneios carnais.
A mulher, cheia de mestrados, multas de trânsito e horas de ginásio, ainda continua a pecar pela cama. E, perante o medo de ser apontada como a adúltera com um passado que sempre importa quando se trata de desprestigiar, muitas preferem que fingir-se virgens, como se o hímen lhes crescesse aos trinta e muito anos. É melhor ser-se sonsa que gaja, suja de homens e noites mal dormidas. Porque por muito que se tenha arrependido, por muito que a tenha amado Cristo, Madalena, a dos cabelos longos, a que ficou até ao fim chorando-lhe aos pés da cruz, Madalena, a primeira em vê-lo ressuscitado, sempre será a puta favorita da cristandade.

(publicado na Atlântico em Setembro de 2006)

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2 Comentários:

Na 5:50 PM, Blogger Cronista Ocasional disse...

"..como se o hímen lhes crescesse aos trinta e muito ano..". E não é que cresce? Fiquei sem fala quando há uns meses li algures sobre cirurgias de reconstituição do dito hímen (raio de nome). E que era um sucesso, com filas de espera "deribado" dos muitos que queriam oferecer de presente ás legítimas semelhante estorvo.

 
Na 8:42 PM, Blogger Confúcio Costa disse...

http://www.intermitenciasdacorte.blogspot.com/

 

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