MI ESPAÑA QUERIDA
Manzanita y Ketama, no "Flamenco" de Carlos Saura
"Nós temos direito a essa Espanha incivilizada, quero lá saber da Espanha zapatera", diz o Francisco José Viegas, talvez assustado com pelas crónicas do Javier Marías e as leis tremendistas de um governo mais preocupado com os pulmões do contribuinte que pela felicidade gerada pela caña. Sossega-te, que ZP quer muitas coisas, mas não chega lá, a esse lugar de penteados adoradores da alface e do adoçante. Teria antes que acabar com a Feria de Sevilla, o vino fino, a reventa das entradas à porta das Ventas, os almoços de dominó e copazo de orujo, as tardes de sábado nas terrazas da Latina, os San Fermines, o horário de verão, os pintxos em Bilbao, Aqui Hay Tomate, Salsa Rosa, Lecturas e a Hola, Los Morancos, as mariscadas com os amigos que acabam de madrugada, essas míticas primeiras comunhões onde as meninas parecem noivas, o Gordo do Natal, os botellones que se resistem a acabar ou a romaria do Rocío. Sim, a lei anti-tabaco existe, mas não conheço um único bar que prefira perder dinheiro a ter a casa cheia de clientes que precisam do fumício e gin tónico depois de oito horas a aturar o chefe. Sim, ele gostava imenso que a malta almoçasse em meia hora, que fossemos suecos e mal fodidos, mas acontece que Espanha é um país canalha, cabrãozinho e um tanto alcoólico, fã do Atlético, o Racing e do Betis, mal falado e católico só quando há procissão e saetas, um mapa de pueblos que joga ao mus e se está a cagar, no fundo, para o colesterol e o direito à diferença. Meia vida passei em Espanha, meia vida ouvi na televisão planos para a dieta e a normalização do povo, meia vida me prometeram bicicletas na Castellana e o fim das corridas de touros. Havendo Cádiz, Granada, Badajoz ou Lavapiés, havendo preguiça e pátios interiores, La Pantoja, Benidorm, la rumba catalana, las chonis, Camela, a Famila Real, Ketama, José Tomás, San Isidro e revistas do coração, não há ZP que civilize isto. E ainda bem, porque então eu ficava sem sítio onde viver.

6 Comentários:
E Viva Espanha! Se a Rititi lá viveu meia vida e é tão fascinante, imaginemos o que seria se vivesse lá toda a sua vida!
subscrevo completamente... grande texto rititi, entendo, sinto exactamente o mesmo... e porque também vivi meia vida em espanha, ali tão ao lado que nunca me senti de fora, e porque aprendi a falar espanhol com o espinete, e porque esta mierda é um espectáculo... así es españa, también me gusta
No seu melhor Rita, no seu melhor!
Olé!
Y que pa huevos… los míos! Como no te voy a querer! Besooooo!
Olé vocês, leitores maravilha, que entendem mesmo porque Espanha nunca se assuecará.
Beijos grandes e agora, imaginem, vou jantar a uma casa de pasto frequentada por gays de meia idade. Ah, podemos fumar, beber, follar y todo los que nos dé la gana!
Beijos
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