Quinta-feira, Junho 14, 2007

32

Lucía, Celia, Rosario, Olimpia, Rita, Marcia del Carmen, a mulher de Benito Paz, uma alicantina de 33 anos, Noelia, Angelina, Julia, Gina, C.K.V, uma idosa de 74 anos, e assim até 32, que se diz depressa, foram as mulheres caídas desde Janeiro nesta Espanha que amanhã comemora com discursos e homenagens no Parlamento os 30 anos de Democracia. 32 irmãs, filhas, mães, namoradas ou desposadas, todas elas assassinadas por amor, porque antes morta que ver-te nos braços de outro, porque sem ti não sei viver, porque a culpa não é minha, porque estavas a pedi-las, porque, puta dum caralho, a mim ninguém me põe fora de casa. 32 mortas à martelada, queimadas com gasolina, esfaqueadas, atropeladas, atiradas pela janela, esvaziadas de vida depois de despojadas de dignidade. 32 casos de polícia, fulana de tal, de 45 anos, foi encontrada morta em sua casa, estava em processo de divórcio, blablabla, os vizinhos sabiam da história de violência familiar, os filhos estão desolados, o homem tentou suicidar-se. 32 notícias repetidas no início do telejornal, boa noite, mais uma vítima de terrorismo doméstico, entrevista ao ministro, ao chefe de polícia, ao maltratador redimido e à especialista em assuntos de género, resumo da lei integral e mudanças previstas. 32 mulheres foram mortas em Espanha por homens que se acharam sempre proprietários de um pedaço de carne, estes são os dados.
Em Portugal não há dados, não existem números oficiais. Em Portugal primeiro a mulher suicida-se, depois veremos se foi assassinada. Em Portugal há comissões, telefones de apoio à vítima, reuniões de peritos e uma lei que ninguém aplica. Em Portugal as mulheres que aparecem mortas no chão da cozinha com uma faca no peito não abrem noticiários, não são tema para ninguém. Porque no Portugal da Ota, do Cristiano Ronaldo, do túnel do Marquês, do Aquilino Ribeiro no Panteão Nacional, da licenciatura do Sócrates, das sete maravilhas do mundo - dos temas de merda - a violência doméstica é conversa de feministas doidas, um assunto que não deve preocupar ninguém porque já se solucionará sozinho, porque tem a ver com a educação, porque há gajas que até gostam de levar, porque o matrimónio é sacrifício, porque se não saem de casa é porque não querem, porque ninguém tem a ver com a vida dos outros, porque a quem lhe importa o barulho da casa do lado com o euribor a subir, porque sempre foi assim. Isto é Portugal, um paízinho da treta que se acha importante porque tem auto-estradas, festivais de rock e um multibanco que funciona, mas que ignora tudo o que não seja capa de jornal, como as mulheres espancadas, mutiladas e mortas por aberrações de homens que sabem que têm todo o poder para desfazer vidas porque se está tudo a cagar, porque a quem lhe importa quantas caem, vítimas, de tanto desprezo. Se é intolerável 32 mulheres mortas, mais indigna saber que em Portugal nem sequer há números.

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7 Comentários:

Na 12:18 AM, Blogger Maria Velho disse...

Rititi

Não se insurja tanto contra Portugal. Não há números divulgados, porque, penso eu, não interessa ao poder. Mas há estudos sérios,feitos por médicos, sociólogos, psiquiatras e psicólogos, com base não só em denúncias ( que neste ponto a mesquinhez ainda impera e muitos ainda advogam a parca sabedoria popular de "entre marido e mulher ninguém mete a colher)mas em factos relatados pela própria polícia, familiares e os anónimos.
São muitas, milhares e se não tomarmos as medidas enérgicas que se impõem , serão mais as mulheres em causa de desespero a matar maridos violentadores do que vice-versa. Eu falo pelo que sei , e do pouco que sei, existem também as mulheres que por vergonha da sua situação, distorcem a realidade e deslocam a agressividade para outros..Não é fácil resolver, nem há varinhas de condão para o fazer! Assim fica aqui o meu apelo, através dum blog de uma Mulher informada e inteligente, para que Você Mulher que sofre abusos e acha normal, acorde! Bater por amor é uma treta de merda!E se um dia acordar e realizar esta verdade conte com gente como eu...iremos até ao fim( o possível, claro)

Um abraço ibérico de uma pseudo-optimista que já conseguiu ajudar meia dúzia de mulheres e filhos a libertarem-se dessa estranha forma de ser amada e à vezes, vezes demais, de amar.

 
Na 12:21 AM, Blogger Maria Velho disse...

Esta mensagem foi removida pelo autor.

 
Na 2:38 AM, Blogger sem-se-ver disse...

«Se é intolerável 32 mulheres mortas, mais indigna saber que em Portugal nem sequer há números.»

pode crer. pode crer.

(hoje estou em dia vampírico, roubar de outros para pôr no meu. posso fazê-lo com este seu? olhe, vou fazer, sim? se preferir eu retiro depois. este post é demasiado urgente para que esperar pela sua autorização)

 
Na 8:39 AM, Blogger cs disse...

Este pode ser o texto de um qualquer editorial de um jornal que saia hoje, sábado.

Execelente.....faço-lhe uma vénia

:)

 
Na 4:58 PM, Blogger marta disse...

Apesar de tudo, cá em Portugal há números.
Não sei se são oficiais, mas são divulgados pela comunicação social.

O ano passado houve 38 mulheres mortas, por violência doméstica em Portugal, e este ano até agora já houve 36.

 
Na 1:55 PM, Blogger princesinha urbana disse...

É mesmo uma desgraça revoltante! E enquanto as mulheres continuarem a fechar-se em nome da vergonha ou dos filhos, isto não vai lá!

 
Na 11:12 PM, Blogger Margarida disse...

Eu compreendo a Rititi. E em Portugal até pode haver números, mal amanhados e irrealistas. Mas não há mais nada. São as mulheres, as crianças, as comissões de protecção de menores em part time, os idosos e os deficientes, e os animais tb. Todo e qualquer ser que esteja numa situação de medo ou que nao se possa (ou saiba) defender, bem se pode matar antes de ter ajuda de alguém.
Até a questão do assédio escolar, que já há tanto tempo se fala em Espanha, em Portugal parece que não existe. É ridiculo. É muito, muito triste.

 

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