UM HOMEM QUE NOS TOUREIE


Comodamente sentada no tendido 2 da praça de touros de Las Ventas, salto alto, gin tónico e à sombra, aplaudo a brilhante faena de Morante de la Puebla ao sexto da tarde. Lá em baixo, o toureiro dá a volta ao ruedo, com a testa rasgada por um violento pitonazo do quinto e a camisa manchada de sangue, orgulhoso da dureza do combate, a cabeleira farta e escura despenteada e eu, desarmada ante tanta arte, admiro essa pose, ai a pose, do herói que precisam estes tempos modernos, esse ser quase imortal, perfeito, o macho em estado puro. E penso, embriagada de tanta valentia, olés e álcool, que assim deveriam ser todos os homens, invencíveis, poderosos, que sozinhos ante a besta são capazes de levantar do seu sítio 23.000 pessoas e pô-las a pedir orelhas. Mas como todas as ressacas, a morantista também se cura à base de ordinária realidade e hoje, rodeada de obrigações laborais e muito mais sóbria, acredito piamente que pouco favor nos fariam os homens se nos obrigassem a vê-los todos os dias de meia cor-de-rosa, maillot e algodão na entreperna. Porque o mundo real não é uma praça de toros e nem todos os homens têm o rabo de Morante de la Puebla.
Etiquetas: crónicas da Revista Atlântico

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