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Rititi

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INÍCIO

  • heroinas de plastico post em transito

    HEROÍNAS DE PLÁSTICO
    (post em trânsito)


    Victoria Beckham estava um dia sossegada na sua mansão de cristal da Boémia e pilares forrados em ouro quando reparou que há muito tempo que ninguém falava dela. Ora bolas, que chatice. E sendo como é uma gurua da comunicação, chamou a si a imprensa e abriu a boca. A mulher é, no mínimo, um génio: bastou-lhe conceder uma única entrevista para voltar como a Rainha do Vazio Mental à ribalta do mundo do papel cor-de-rosa, sendo colocada de seguida nos cabeçalhos dos jornais e com o nome posto na boca de intelectuais de renome, pedagogos, editores de jornais e tertulianos vários. Para merecer tamanho protagonismo a fêmea com a cara mais encerada da Europa simplesmente teve de anunciar ao mundo que nunca, em toda a sua genial e completa existência, jamais, ever, leu um livro. Porque é uma canseira ser mãe, uma fêmea fabulosa, magra e depilada e, aliás, ser a imperturbável esposa cornuda de um dos homens mais desejados do universo da publicidade. Se esta mulher não é um génio da auto-promoção, então vive no eterno Mundo da Fantasia, junto da Cindelera e da Bela Adormecida.
    E claro, perante tamanha declaração de interesses vitais, o Verão espanhol parou, escandalizado ficou o povo, horrorizados gelaram os cérebros da imprensa nacional: burra, frívola ou irresponsável pelo modelo que representa para milhões de adolescentes, a coitada foi vilipendiada, assobiada e com o nome transformado em sinónimo da estupidez mais profunda. Imagino o pasmo de Lady Becham ante tanta indignação popular: afinal onde está o mal de nunca ter pegado num calhamaço como Guerra e Paz? Acaso foi-lhe exigida a leitura das Memórias de Adriano quando a seleccionaram para integrar essa experiência kitsch e malcheirosa chamada Spice Girls, a embaixada da pirosice britânica de finais do século XX? Para quê tanta histeria, se nunca necessitou da leitura de Borges para se casar com o futebolista mais loiro do Manchester United e juntar em tempo recorde uma das fortunas mais colossais das terras de Sua Majestade? Se fechar os olhos, até consigo vislumbrar uma doce e estilizada Vicky, impávida e serena na Gucci da Calle Serrano num domingo qualquer, perguntando-se qual a urgência de ter um livro na mão se a vida se resolve a golpes de cartão de crédito. Isto tudo se a sua massa encefálica conseguir emitir um juízo de valor sem criar um curto-circuito no sistema nervoso.
    Pouco me surpreende que esta Barbie recauchutada tenha alergia à literatura em geral, e se amanhã partilhar com o comum dos mortais que desconhece quem seja Cristóvão Colombo, Adolf Hitler ou até Jesus Cristo, mais não posso que confirmar o óbvio. Não que seja burra, o que não é necessariamente mau porque de mulheres parvas está farta de rezar a História, mas sim que para encher capas de revistas, ser recebida pela Rainha Isabel II, imitada pelas crianças com cultura de supermercado, perseguida por fotógrafos, basta ser podre de rica. Mais, nem lhe é obrigatório ser especialmente bonita, nem a rainha da elegância, ou doar umas massas de vez em quando aos meninos de África. Basta-lhe ser co-titular das contas do marido, ir a desfiles de alta-costura e gastar euros obscenamente.
    Sem ofício mas com toda a classe de benefícios, a «cheerleader» da nova aristocracia iletrada é o paradigma duma classe de mulheres que apesar de viver no absoluto desprezo pelo conhecimento, o estudo e o pensamento crítico, são amadas, invejadas e proclamadas pelos media como novos ícones a imitar. Não são assim tão poucas. E que agora os profetas da cultura de massas se escandalizem, mais não aponta a hipócrita cegueira em que estamos metidos. Os novos ídolos femininos das adolescentes são analfabrutas totais, personagens de telenovela que se roçam em horário nobre, ignorantes absolutas que passam os dias nas compras para deleite dos paizinhos dos menores telespectadores; em Espanha aplaudem-se mais as mulheres que vendem o seu passado que as cientistas peritas em genética; Britney Spears pare em directo… Victoria Beckham é só uma consequência deste encolher de ombros geral perante a estupidez no feminino.
    Para rematar a famosa entrevista, a «Spice Posh» confessa, de coração na mão, que adoraria ser mãe de uma menina: «para lhe pintar as unhas, maquilhá-la e ir às compras». Prevejo para potencial criatura de Deus uma infância rodeada de bonecas Versace, sapatinhos Dior, mini-ferraris e uma original permanente aos três anos, altura em que dará o primeiro exclusivo à Hello! Aos doze será apresentada em sociedade com vestido de Dolce & Gabbana do braço de Elton John, aos dezasseis namorará com o filho de um magnata do petróleo, e com vinte e três antecipo-lhe duas depressões, uma cura de desintoxicação de toxinas porcinas e um casamento frustrado. De Geografia, Álgebra, Gramática, Filosofia ou Física, pouquinho lhe auguro. Atrás, no escuro da História, ficaram as figuras de Leonor de Aquitânia, Cristina de Suécia ou Marie Curie. «Quem?», perguntaria Victoria Beckham. Pois é. Bem-vindas sejam, senhoras e senhores, as novas rainhas do mundo moderno, as heroínas de plástico.

    (Crónica publicada no DNA em 2005)


    Por Rititi @ 2007/07/20 | 5 comentários »

  • botinhas says:

    Nao precisas de ter inveja, sabes bem que a gente gosta e' de ti, Rititi!

  • JoãoG says:

    Pensar que esta delícia foi publicada em 2005…
    Hoje temos a Paris Hilton, uma versão mais esticada, eclética e menos intervalada…? :)

  • Rubi says:

    Excelente crónica. Parabéns. Vivo em Londres e até fico com prurido quando oiço falar dessa senhora de plástico!!!

  • samya says:

    Oi Rititi, achei você lá no blog da ticcia fazem uns meses e desde lá venho lendo o seu blog cada dia. Muito, muito bom!
    Longa vida ao calcinha rosa cueca, beijos. Samya

  • samya says:

    aliás blog rosa cueca!

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