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Rititi

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INÍCIO

  • o cantinho da hooligang de perna de pau

    O cantinho da hooligang ©

    De Perna de Pau no Passeio dos Melancólicos

    Madrid, Paseo de la Castellana: arranha-céus que da altura dos seus trinta andares observam a cidade, vaidosos no domínio das finanças e dos dinheiros da pátria; palácios senhoriais que se resistem a ficar no passado, albergando bancos e consultoras internacionais; tascas, bares e discotecas que exercem como montras de novíssimas tendências: seis quilómetros de demonstração de poder económico, social e arquitectónico. E lá ao fundo, ergue-se, sobranceiro, o Estádio Santiago Bernabéu, casa do Real Madrid, clube de clubes, vinte e nove vezes campeão da Liga e nove da Liga dos Campeões, fábrica de vencedores, firmamento onde brilham estrelas-deuses com fama interplanetária e fortunas asquerosamente inquantificáveis. O Real Madrid até parece uma central eléctrica, porra, tal a maneira de brilhar das estrelas, dos carros das estrelas, das jóias das estrelas, dos contratos publicitários das estrelas, das barbies recauchutadas que se passeiam com as estrelas… Glamour associado a golos, reinvenções futebolísticas para o século XXI.
    Quando uma emigrante procura desesperadamente a verdadeira e rápida integração social, o futebol é o caminho mais rápido. E eu decidi, com a inocência de quem considera o fora de jogo um dogma de fé, ser sócia do Real Madrid porque, claro, não há clube mais perfeito que o que nunca perde. Como se pode apreciar, esta era a primeira vez que me decidia a pôr os pés no Clube dos Amantes Incondicionais e Fanáticos da Bola. Mas para uma portuguesa habituada aos eternos fiascos da selecção nacional, viciada na saudade e na sardinha assada com pimentos, tanta ostentação de riqueza até parece mal. Que mania esta de querer ganhar tudo, bolas, que falta de humildade ante a hecatombe do empate, que cagança, nem que Figo, Ronaldo e Beckham mijassem Chanel n.º 5. Não rima sobranceria com lusitanidade.
    Desolada com a ideia de nunca poder vir a ser confundida com uma indígena, por pouco me entregava ao vício do bagaço português se não fosse a visão tenebrosa que a Marisol teve do futuro que me esperava: deitada no sofá, cantando fados de garrafa na mão, a gata Lucrécia alcoolizada por osmose, e o meu coração destroçado por nunca encontrar um clube de futebol pelo qual derramar lágrimas ao domingo. Num acto de generosidade incomparável, a gestora da higiene do meu lar abriu-me as portas à luz da Verdade, justificando pela primeira vez os dois contos que lhe pago à hora. Com a promessa de permitir a minha assimilação com os locais, a minha mulher-a-horas convidou-me para um jogo de futebol. Só que o protagonista do espectáculo era o outro clube de primeira divisão da capital: o Atlético de Madrid.
    Equipada com cachecol branco e vermelho, boné a condizer e um «bocadillo de calamares» oleoso dentro do casaco, acompanho a Marisol à bola. As primeiras vezes devem ser inesquecíveis, diz-me a boazona da Marisol, e obriga-me a aprender o hino do Atlético em dó menor. «Yo me voy al Manzanares, al estádio Vicente Calderón, donde acuden a millares los que gustan del futbol de emoción». Pura poesia. A paisagem urbana a caminho do estádio ganha as tonalidades do bairro operário onde se enquadra. Os grandiosos edifícios financeiros são substituídos por blocos de cimento próprios da classe média-baixa; em vez de executivos apressados avistam-se grupos de donas-de-casa com bandeiras e senhores de fatos de treino e rádio pegado à orelha. Fábricas à volta, um rio ao longe e uma paragem obrigatória para abastecer a alma de cerveja.
    Entre pevides e goladas rápidas para não chegar tarde ao jogo, tento explicar aos outros clientes que também vão mascarados de gelado Perna de Pau que realmente não há diferenças entre um clube e outro, que afinal o Real e o Atlético são fruto da mesma necessidade de pertencer a uma comunidade maior que grita anonimamente por penalties que não existem. Não tenho amor à vida, pelos vistos. Patética a imagem de uma portuguesa escondida na casa de banho dos homens a fugir da fúria de centenas de «colchoneros». Ser «atlético», explicam-me depois de ter pago uma rodada para sossegar as hostes enraivecidas, é uma maneira de sentir que parece não ter explicação no mundo da lógica dos incrédulos futeboleiros.
    É sentir-se de Madrid sem a arrogância da Castellana, é entender que a vida pode ter mais derrotas que vitórias e que até sabe melhor assim. É esperar que um dia nos toque a sorte grande para poder mandar o patrão às urtigas e levar a patroa a jantar fora a um sítio finório. É ser estranho em terra de ricos mas orgulhoso de que nunca falte o pão na mesa. É pensei, o mais próximo de Portugal que podia estar. Afinal, depois de tanto tentar ser uma verdadeira madrilena, encontrei um clube de futebol que poderia ser da minha terra, aqui no centro da capital de Espanha e cujo estádio tem como morada o Passeio dos Melancólicos. Só não vê as pistas quem não tem olhos.
    O Atlético, mais uma vez, perdeu o jogo em casa. Nem os gritos da tal «afición», nem a esperança de um dia poder ganhar outra vez uma taça, valeram. Mas ganhou uma nova sócia. Portuguesa, emigrante, mas do Manzanares, Atleti, Atleti, Atlético de Madrid…

    (crónica publicada no DNa em Fevereiro de 2005 e dedicada agora ao Francisco José Viegas)



    Por Rititi @ 2007/07/27 | Sem comentários »

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