Terça-feira, Setembro 18, 2007

LEONOR DE AQUITÂNIA

Leonor, duquesa de Aquitânia, andava à solta. Talvez demais para o gosto do seu primeiro marido, o beato e centenas de vezes coroado pelas infidelidades da mulher, Luis VII, o rei com a virilidade mais questionada da história de França. E não porque fosse rabeta, mas sim pelas continuas afrontas da duquesa, que em vez de se manter discreta, no segundo plano que se pretendia para as grandes damas do Século XII, revolucionou camas, tratados de guerra e até uma Cruzada à Terra Santa só porque lhe apetecia. E porque podia: quando se é a mulher mais rica da época, herdeira de uma impressionante bagagem intelectual e senhora de meia Europa não é um marido que impõe os limites da cama nem do poder, e muito menos um homem como Luis VII, inseguro ante tanto alarde de vontade própria, independência económica e uma líbido sem obrigações conjugais.
Em vez de se pôr à altura da franqueza física e moral de Leonor, Luis optou por se acobardar, aceitando tacitamente que a mulher procurasse nos braços de inúmeros amantes a compreensão e a felicidade que tanto o assustava dar-lhe a uma mulher sem pudores mentais. Ao pouco tempo e por exigência da própria Leonor, o Vaticano concedeu-lhes o divórcio. O resto da história já é conhecida: Leonor, de 29 anos e considerada velha, casou com um imberbe Henry II; deu-lhe oito filhos - ente eles Ricardo Coração de Leão e João Sem Terra - promoveu o estudo das artes e potenciou o amor cortesão, os trovadores e as lendas do Rei Artur numa Europa habitada por analfabrutos assustados com o Fim do Mundo; viveu como quis e morreu com mais de oitenta anos, feliz, rica e com todos os dentes na boca.
Passaram-se oitocentos anos: Fernão de Magalhães e Camões orgulharam Portugal, Mozart compôs a Missa da Coroação, duas Guerras Mundiais assolaram o mundo contemporâneo, a democracia banalizou-se com a mini-saia, o frigorífico e a pílula, Herman José perdeu a piada e ainda assim continuam a causar consternação mulheres como Leonor de Aquitânia, independentes, valentes e com poder absoluto sobre o seu próprio destino.
Com a Europa levantada como a civilização mais importante da História, curioso é observar como prevalece para as fêmeas um comportamento estereotipado em todos os âmbitos da sociedade, potenciado desde as tradições machistas até ao sistema de quotas que o politicamente correcto pretende perpetuar. E se uma mulher ignora olimpicamente os modelos impostos, ansiosa de ser indivíduo antes que uma “condição”, incorre no risco de ser recordada na História como a pior das Salomés, uma desvairada papa-homens ou simpaticamente “fogosa”. Ou então de encontrar um homem à altura, que é o que acontece na maioria das vezes a aquelas mulheres que não têm medo dos boatos nem das reuniões de beatas para serem felizes.

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