ATLÂNTICO DE OUTONO

"Durante a manhã dessa segunda-feira Elena U. fez as camas, passeou o caniche pelo Parque do Retiro, foi à mercearia, tratou das casas de banho, aspirou e limpou o pó dos quartos e da sala, estendou a roupa que estava na máquina, pôs um prato na mesa para a senhora da casa que esse dia almoçava sozinha e às três e um quarto da tarde, depois de ter passado umas camisas a ferro e regado as plantas da varanda, tirou a farda de mulher a dias, arranjou o cabelo, pintou o olho, comprovou que tinha o passe para o autocarro, pegou na mala e meteu-se no elevador para se ir embora. Ainda lhe faltavam duas casas em Argüelles e o escritório de uns advogados muito importantes no Passeio da Castellana para chegar, já de noite, ao seu apartamento no extrarrádio madrileno onde também lhe esperavam sala, casa de banho, camisas para passar e pó acumulado na estante barata e triste do Ikea. Mas quando Elena U. saiu do elegante prédio do Bairro de Retiro, talvez pensando na Roménia e nas maravilhas da emigração, um jorro de líquido quente que cheirava a algo muito parecido com a lixívia atingiu-a na cara, nos peitos e nas pernas e deixou-a dobrada no passeio, abandonando-a à dor até que caiu no desmaio. Elena U. acabou no Hospital de la Paz , as casas em Argüelles ficaram por fazer e os advogados encontraram as mesas desarrumadas na manhã do dia seguinte. "
Etiquetas: Revista Atlântico

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