Voltei a Madrid.
Depois do Natal em Espinho, bacalhau cozido, passagem por Lisboa, capital às escuras, esburacada, capital de casas frias, húmidas, sem aquecimento porque a luz está cara e não há para isolamento nas janelas, capital do comércio tradicional à beira da extinção sempre por culpa do governo que não proíbe as grandes superfícies, capital deprimente de um país de deprimidos. Sim, Portugal é um país afogado numa depressão da que não se quer curar, numa depressão que curte e da que se orgulha. Olhei durante uma semana para a televisão do meu país e vi programas para o povo apresentados por mamalhudas analfabetas especializadas em entrevistar famílias de desdentados que se queixam de casas a cair de podres, telejornais feitos de entrevistas de rua a um povão que se queixa da subida do euribor, comentaristas políticos que se queixam da crise do BCP, o líder da oposição que se queixa porque não pode controlar a Caixa Geral de Depósitos. A queixa é líder de audiências na televisão portuguesa.
E que faz o Governo na quadra natalícia com o povo neste estado? Brindá-lo com mensagens de esperança? Não, fecha serviços de urgências no interior abandonado do país na véspera de Natal, manda cartas de penhora de contas, proibe fumar, ameaça com a ASAE (notazinha mental - não me fodam pá: enquanto toda a Europa premia o produto artesanal e manda levar no cu os burocratas de Bruxelas, neste meu país gerido por atrasados mentais penalizam-se os métodos tradicionais e os meios de subsistência centenários), deixa que as iluminações natalícias de Lisboa sejam patrocinadas pelo Santander. E avisa que a coisa só vai melhorar graças ao esforço do Governo. No discurso natalício do Primeiro Ministro não se ouve uma palavra de agradecimento pelo sacrifício das economias familiares, uma voz de ânimo, força, estamos quase lá! Que arrogante, este pequeno Sócrates que se pensa o fazedor de tratados só porque consta no título o nome de Lisboa, só porque se abraça ao namorado da Carla Bruni, só porque trata por tu o Zapatero.
Sim, voltei a Madrid, fugida de uma Lisboa que sempre amei e que agora me dá urticárias. Não posso com tanta queixa feita cancro de nós, não posso com este rame-rame obrigatório, com este modo de viver que recompensa a lamúria. Tenho pena e queria desejar-vos Bom Ano, que sejais felizes, mas só se me ocorre pedir-vos para desligar a televisão. Saiam à rua, encham os bares, obriguem os donos dos restaurantes a ligarem o aquecimento, iluminem as ruas de Lisboa com as luzes das vossas árvores de Natal, fujam dos centros comerciais e levem os vossos filhos aos jardins, namorem nos bancos dos parques e esqueçam que somos uma campanha publicitária chamada a Costa Oeste de Europa. Somos um país de gente pouco alegre, bem sei, mas também não merecemos estar sempre a levar nos cornos, caralho.
Depois do Natal em Espinho, bacalhau cozido, passagem por Lisboa, capital às escuras, esburacada, capital de casas frias, húmidas, sem aquecimento porque a luz está cara e não há para isolamento nas janelas, capital do comércio tradicional à beira da extinção sempre por culpa do governo que não proíbe as grandes superfícies, capital deprimente de um país de deprimidos. Sim, Portugal é um país afogado numa depressão da que não se quer curar, numa depressão que curte e da que se orgulha. Olhei durante uma semana para a televisão do meu país e vi programas para o povo apresentados por mamalhudas analfabetas especializadas em entrevistar famílias de desdentados que se queixam de casas a cair de podres, telejornais feitos de entrevistas de rua a um povão que se queixa da subida do euribor, comentaristas políticos que se queixam da crise do BCP, o líder da oposição que se queixa porque não pode controlar a Caixa Geral de Depósitos. A queixa é líder de audiências na televisão portuguesa.
E que faz o Governo na quadra natalícia com o povo neste estado? Brindá-lo com mensagens de esperança? Não, fecha serviços de urgências no interior abandonado do país na véspera de Natal, manda cartas de penhora de contas, proibe fumar, ameaça com a ASAE (notazinha mental - não me fodam pá: enquanto toda a Europa premia o produto artesanal e manda levar no cu os burocratas de Bruxelas, neste meu país gerido por atrasados mentais penalizam-se os métodos tradicionais e os meios de subsistência centenários), deixa que as iluminações natalícias de Lisboa sejam patrocinadas pelo Santander. E avisa que a coisa só vai melhorar graças ao esforço do Governo. No discurso natalício do Primeiro Ministro não se ouve uma palavra de agradecimento pelo sacrifício das economias familiares, uma voz de ânimo, força, estamos quase lá! Que arrogante, este pequeno Sócrates que se pensa o fazedor de tratados só porque consta no título o nome de Lisboa, só porque se abraça ao namorado da Carla Bruni, só porque trata por tu o Zapatero.
Sim, voltei a Madrid, fugida de uma Lisboa que sempre amei e que agora me dá urticárias. Não posso com tanta queixa feita cancro de nós, não posso com este rame-rame obrigatório, com este modo de viver que recompensa a lamúria. Tenho pena e queria desejar-vos Bom Ano, que sejais felizes, mas só se me ocorre pedir-vos para desligar a televisão. Saiam à rua, encham os bares, obriguem os donos dos restaurantes a ligarem o aquecimento, iluminem as ruas de Lisboa com as luzes das vossas árvores de Natal, fujam dos centros comerciais e levem os vossos filhos aos jardins, namorem nos bancos dos parques e esqueçam que somos uma campanha publicitária chamada a Costa Oeste de Europa. Somos um país de gente pouco alegre, bem sei, mas também não merecemos estar sempre a levar nos cornos, caralho.

20 Comentários:
é, é... é mais-ou-menos isso, mais coisa, menos coisa!
Também voltei este fds e a primeira sensaçao após a entrada no aviao foi precisamente o alívio da conversa da depressao, da queixinha perene e omnipresente. Subscrevo o teu texto.
É pena mas, realmente, o português é pessoa para se queixar muito!
Um bom 2008 para ti e para os teus :)
"Não merecemos estar sempre a levar nos cornos, caralho." parece-me um excelente remate! um bom 2008 pra ti
queria deixar-te com uma mensagem super criativa, neste dia, cá vai...
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FELIZ ANO NOVO!
Um bom ano de 2008.
Estou de acordo contigo mesmo que me chames velho como o fizeste da ultima vez que postei um comentário a um qualquer assunto que aqui blogaste.Tens razão já é altura de parar de levar nos cornos parece que é essa a nossa sina.Por vezes tenho pena de ser Portugues, nascido em Lisboa e a envelhecer aqui no centro do Pais que está a ser (des)governado por putos arrogantes que nem á tropa foram.Um bjinho para ti e que não te doa a mão por escreveres tão bem como realmente o fazes .PS não estou hoje jangado por me teres chamado cota mas altura fiquei fudi...eu que até comprei o teu livro e o li.Um abraço Carlos
Custa-me dizer quase o mesmo. Tanta paixão e saudade dediquei a Lisboa... agora quase tenho vergonha de assumir que estou com uma certa pressa de voltar para Oviedo.
Bom ano!
Lisboa sempre!
É pena que os próprios lisboetas se tenham esquecido de a habitar convenientemente.
Rita, um óptimo 2008!
Antes de mais, desejo-te um Bom Ano de 2008, pá, que agora estou fã da interjeição preferida do nosso (salvas sejamos!) Primeiro.
Concordo com o dizes no teu post, de facto somos uns tristes submissos e desconfio que até vamos cumprir escrupulosamente a merda da lei do tabaco, só para sermos muito bem comportadinhos aos olhos da Comissão Europeia, e acima de tudo, para termos mais uma coisinha de que nos queixar. Só não entendo porque é que as iluminações de Natal não podem ser patrocinadas pelo Santander, ou pela Volkswagen, ou mesmo pela Casa Funerária Pires e Dinis. Porque é que não se há-de arranjar alguém que pague a conta da electricidade, alguém que possa, já que a Câmara está tesa? Está bem que as velinhas da Avenida eram feias, mas disso o Santander não tem culpa.
Os tempos impõem que se seja prático/a. Se eu sempre fui a favor da prostituição legal, cumpridora dos seus deveres fiscais e com garantias dos direitos essenciais de qualquer trabalhador, porque não haveria eu de concordar com que a Câmara venda o cú a um banco para pagar umas facturas? Mesmo no Natal? Eles já vendem todo o espaço que podem para fins de publicitários, sem olhar a quem nem a quê, não vejo porque havemos de ser papistas nesta questão.
Um abraço virtual e bem ajas!
caríssima... mais um texto tão interessante, tão positivo, tão optimista sobre o nosso querido portugal LOL mas olha, estou contigo, concordo com tudinho, mas prontos... como tudo na vida é proporcional, aqui em madrid não levamos assim nos cornos mas também não temos ovos moles, nem alheiras de mirandela and so on, valha-nos um estômago consoladinho para compensar as sovas de tristezas que levamos no nosso tão querido país...
um beijo enorme e um ano em grande para o casal pinheiro.
ps: a ver se te ponho a vista em cima um dia destes
E mais não acrescento porque tudo foi dito, e como foi dito.
Eu, que por cá vivo, mais exactamente na outra margem, o tal deserto, vejo esta nação soçobrar ao esforço que lhe é exigido e ao eterno queixume e esperança de um qualquer D. Sebastião... sem que entendam, de uma vez por todas, que tudo está nas nossas mãos.
Obrigada, Rititi, pelo bofetão. Espero que muitos mais o leiam.
Ainda há lisboetas, ou vivem todos nos suburbios como eu????
Tens tanta razão... e só cá vens de quando em vez. Agora imagina quem aqui vive e sente todos os dias o que dizes.
É triste! somos tistes... e permitimos.
Tens razão, Rita, isto está mesmo f*****!
Mas olha que Portugal não é apenas Lisboa...
Que sacrilégio, Pedro. Quem o lê fica com a impressão que não gosta de generalizações.;)
premia, do verbo premir...
Uma primeira visita e dou logo de caras com um diagnóstico certeiro sobre o meu país. Valeu
Zé Povinho
Eu tambem moro em Madrid e tambem aqui descubro gente sem o dente da frente, histericos, assassinos de emigrantes, torturadores de mulheres, uma inflaçao brutal, o preço da luz por las nubes. Sim, Lisboa eh mau mas Madrid nao eh o paraiso.
Justo.Mas somos bipolares.Acho que isto vai por períodos.Natal não foi de facto a melhor altura.Mas há que ter fé.Totalmente de acuerdo, tb yo stoy hasta los huevos de tantos gilipollas.La descripcion que hiciste es clavada a la realidad.
cocncordo ctg..... tou seriamente a pensar tentar alguma coisa em madrid... depois de acabar o meu curso..... qdo vejo o telejornal, so consigo dizer " este pais ta na merda, e vai continuar assim..." kero fazer a minha vida... em qualquer parte do mundo... mas em portugal ta fora de questao... !! nao podia ter acabado melhor este teu post.... !!
bjinhos
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