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Rititi

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INÍCIO

  • rititi no ar hoje pelas nove da manha

    RITITI NO AR

    Hoje pelas nove da manhã, os mais fiéis leitores poderão ouvir-me na Antena 1. Desde Madrid, na estação de Atocha, entre a memória dos corpos mutilados, a dor pela incompreensão e a necessidade de continuar vivo. Pelos que foram, pelos que serão, por nós. (Imagens no site da Antena 1)

    UM ANO
    (Texto publico no DNa em Março de2005, no primeiro aniversário do 11-M)

    Num ano há tempo para muita coisa: parir, mudar de casa e de penteado, deixar de fumar, começar a beber, perder umas eleições, ganhar a Taça dos Campeões, casar, dar a volta ao mundo, chorar por quem partiu, fundar um partido político, recordar. Num ano uma capital europeia restaura prédios, amplia a rede do metro, cria guetos, inaugura escolas, restringe a hora fecho de bares, recebe líderes mundiais. E Madrid, nesse ano, teve tempo para montar um casamento real, candidatar-se aos Jogos Olímpicos, fechar as ruas do centro ao trânsito, abrir as portas à legalização de emigrantes sem papéis e lamber as feridas.
    Há um ano dez bombas acordaram-me. A imagem de quatro comboios retorcidos em Atocha, estupidamente impedidos de chegar ao destino, levantaram-me da cama e acabaram com a ressaca de quem dormiu três horas porque preferiu ficar nos copos com os amigos e dançar samba num bar brasileiro a ser uma responsável profissional dos tempos modernos. Anestesiada com o cheiro de uma morte que poderia ter sido a minha, o dia 11 de Março de 2004 passei-o a olhar para um ecrã de computador carrasco, sessenta, oitenta e quatro cadáveres, centenas de feridos, notícias de telemóveis perdidos nas carruagens rebentadas que ninguém queria atender, cento e cinquenta mortos, pedaços de carne, linhas telefónicas impedidas, estás bem, sim Mãe, gosto muito de ti, lágrimas, muitas. Quem foi, porquê nós, não é justo. E os mortos que não paravam de aumentar, e as filas para doar sangue, e as mantas oferecidas pelos vizinhos da estação, e cidadãos anónimos que exerceram de psicólogos e amigos naquela macabra morgue improvisada num pavilhão de feira, e as manifestações espontâneas na Porta do Sol, e as gentes perdidas de dor nas ruas, desespero e fúria, e meu amor vamos para casa, hoje preciso de me agarrar a ti. E o medo de andar de metro, e a manifestação de dois milhões de pessoas debaixo da chuva. E dizer não. Nunca mais. Já chega.
    Espanha levantou estátuas em homenagem às cento e noventa e uma vítimas mortais e aos que ficaram amputados de filhos, irmãos ou amigos; aos voluntários o Alcalde da capital dedicou uma placa em mármore de sincero agradecimento nas portas do Ayuntamiento; aumentaram as câmaras de vídeo e guardas nos transportes públicos; institui-se uma comissão parlamentar para apurar responsabilidades políticas; prenderam-se maus da fita; caiu um governo mentiroso e renovou-se a Assembleia.
    E a capital voltou à vida e aos bares cheios, aos mendigos que elogiam as pernas das mulheres apressadas, ao trânsito impossível, aos saldos e à histeria para conseguir um vestido da colecção de Karl Lagerfeld para a H&M, ao emprego que não satisfaz mas paga a renda da casa, à gata com o cio e às estações do ano. Porque a vida deve continuar. Madrid, apesar de assustada, casou um Príncipe herdeiro com uma plebeia, e agora, a um ano das bombas e da morte, as conversas giram em torno à não gravidez da Princesa, à sua extrema magreza e aos sapatos que compra no Bairro de Salamanca. As páginas dos jornais discutem as amizades perigosas da Câmara Municipal com os construtores civis, Ronaldo dá tema a programas do coração com sórdidas histórias de cama envolvendo modelos com sede de fama e o Atlético de Madrid nunca mais ganha um jogo fora de casa. A Audiência Nacional, primus inter pares dos tribunais, abarrota com crimes sexuais, terroristas e financeiros, com o Emílio Botín a protagonizar um suposto escândalo bancário que nem a bolsa mexe, e até Bill Gates visitou a cidade numa visita relâmpago com funções de «marketing».
    Mas Madrid não esquece. Um ano depois, os feridos, os voluntários, os órfãos e os viúvos continuam a chorar as mágoas e a reclamar as indemnizações prometidas. Uma paragem abrupta do metro encolhe o coração e um incêndio num arranha-céus faz lembrar que o perigo está aí. Todas as semanas noticiam que mais um cabecilha do massacre do 11-M foi apanhado, até então mais um ser anónimo com direito a uma existência corriqueira num bairro de Madrid, namorada espanhola e cartão de residente. Ninguém está a salvo do medo de voltar a andar de comboio ou de perder um amigo.
    Porque fomos todos os madrilenos o alvo da infâmia cometida nesse dia que só prometia chuva, ressaca e banalidade. E madrilenos somos os que cá vivemos, equatorianos, moldavos, espanhóis «de toda la vida», os que viajam de comboio, ilegais e expatriados, donas de casa, meninos de colo, até executivos de passagem no aeroporto, universitários sem bolsa de estudos, portugueses emigrados, pedintes, bancários, médicos e putas da Calle Montera. Os assassinos que planearam durante anos o atentado não visaram aniquilar quem tem o poder de invadir países. A chantagem, o ódio e a cobardia escolheram como vítima o que representa o quotidiano, o crédito à habitação, as férias de verão e as eleições cada quatro anos – o nosso direito a escolher a existência que queremos viver, a possibilidade de fumar quando nos apraz, de amar e de dar vida. E há um ano Madrid optou por continuar em frente, às vezes com medo, outras com lágrimas a recordar uma dor que ainda não se foi embora, mas em frente.
    Num ano há tempo para muita coisa, sobretudo para não desistir da vida.



    Por Rititi @ 2008/03/11 | 2 comentários »

  • MiSs Detective says:

    just GREAT!
    a rititi pareceu-me muito bem na sic ;)

  • SFranco says:

    Ouvi-te na Antena 1 :)

    Não se pode desistir da vida!
    Ainda ontem tinha visto um documentário na RTPn sobre a Malásia e a forma como indianos, muculmanos, chineses convivem na mesma rua, no mesmo bairro, o mesmo espaço porque nós não temos outro não é?

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