Nasci um ano depois do 25 de Abril e por muito que leia ou estude sou incapaz de pensar a vida em ditadura, olhando sempre para trás, duvidando do confidente, escondendo livros, pensando no meu irmão morto na Guiné, precisando de autorização do meu pai-marido para comprar um carro. E ouvir vozes saudosas de um passado a preto e branco, vozes que lamentam tempos de morte numa guerra longínqua parece-me horrendo, sinal de gente muito mesquinha, pobre da cabeça e miserável, até. Esta semana, o poeta argentino Juan Gelman recebeu o Premio Cervantes da Língua Espanhola com um discurso terrivelmente dramático que reivindicava a força da memória contra o terror da ditadura, a necessidade de nunca esquecer a morte de inocentes (na Argentina foram desaparecidas mais de 30.000 pessoas, em Portugal uma geração perdeu-se numa guerra que só interessava a uma pandilha de lunáticos agarrados a uma certa ideia de historia) e a urgência do resgate da memória como “único caminho para construir uma consciência civil sólida que abra as portas do futuro”.
Etiquetas: 25 de Abril, PNET MULHER

1 Comentários:
Este post faz todo o sentido. Na guerra também perdi o meu pai.
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