Segunda-feira, Julho 28, 2008

Querido Blogue,
Parida de um mês e com o criatura arrotada e deitada no berço de ferro forjado, sento-me, já sem pontos e com cinco quilos a mais alojados nas mamas, cintura e ancas, no terraço da casa dos meus pais, com vistas para a planície alentejana e o portátil sobre as pernas. E penso, agora que nada se me pendura da mama, que coisa, pá, esta da maternidade, que puta de volta que me deu a vida, e que bonito que me saiu o cabrão do gaiato, mas essa é outra historia. E, já agora, que engraçado, que ainda continuo à espera desse suposto halo de grandeza que dá a maternidade e que supostamente nos faz mais altas, mais espertas e até mais sensíveis e que, no tal suposto, nos eleva a uma outra categoria de gente superior, a das mães, grupo que se arroga em genérico, por causa da tal coisa da dor do parto, o amor incondicional e de ouvir o choro da criança a três quilómetros de distância e sem intercomunicador. E eu, que já passei por aí e que até tenho leite para alimentar uma escola primaria da Africa Negra e que acordo cada três horas todas as noites desde que pari, em verdade vos digo, meus irmãos, que se há um clube da maternidade a mim não me convidaram e se o fizeram eu não quero ser aceite. Porque a tão sovada maternidade é um estado de espírito, sim, mas que eu tenho só com o meu filho, que me une a ele e a mais ninguém, já seja este ninguém as leitoras da revista pais e filhos ou as senhoras que empurram carrinhos de bebé no Retiro, com quem eu, felizmente, não tenho nem quero ter nada a ver. Esta coisa da maternidade, digo, não só não me une ao resto das mulheres, nem me eleva, nem me dá direitos especiais que tantas doidas acham que têm só por ter parido, como o de dar bitaites sem autorização ou até a falar com uma estúpida e desnecessária arrogância cada vez que se dirigem ao resto das gajas que não querem, ou se calhar não podem, ter filhos, e até às que mesmo sendo mães nem sabemos tudo nem nos importamos de o dizer em público. A maternidade tira-nos todas as certezas, e maluca da gaja que disser o contrário. Que se desenganem as patetas, ser mãe não nos dá direito a escrever sobre nós em maiúsculas, mas claro, gente doida há em todo o lado.

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15 Comentários:

Na 4:36 PM, Blogger G_ticopei disse...

Bravo e assino por baixo!

 
Na 6:21 PM, Blogger Lady Chatterley disse...

A maternidade é uma cena lixada. É verdade: não nos tornamos mais isto ou aquilo, mas passamos a ter uma perspectiva diferente da vida. Melhor, ou pior, não sei. Sei que é apenas diferente.
Comigo aconteceu isso, mas cada mãe é única, por isso...

 
Na 8:47 PM, Blogger jotabil disse...

Mas os gestos ficam mais graves e mais sentidos.
Os teus cromossomas tentam a eternidade e o do mister tb.
Ficamos mais solidários com o cosmos. À noite ao mirares o céu pensa nisso.
Daqui por uns biliões de anos alguém dos prados amarelos de sódio de Saturno, é capaz de recordar a "gaija" que há um mês pariu e que se sentou maravilhada a olhar o horizonte do terceiro planeta.

cumps

 
Na 11:52 PM, Blogger hm disse...

E se calhar,é capaz de ser muito cedo para mandar tanto palpite...e se calhar daqui a uns tempos, muito mais irritante do que as-gajas-que-se-acham-especiais- porque-são-mães-e-as-outras-não, vão ser essas que por incompreensão, desfazamento e às vezes despeito, lhe vão colocar a etiqueta.

 
Na 12:08 AM, Blogger Maria Velho disse...

Ah! Rititi como a compreendo! e mesmo que lhe queiram impingir que daqui a uns tempos vai sentir-se assim e tal e coisa, e mais o diabo a quatro, mantenha-se firme...agora que o amor que nos vai unindo ao/à(s) filh@(s) nos torna um bocadito parvinhas, ai isso torna!( assim tipo vaidosas, a querer exibir o dotes "únicos" d@(s) pobrezinh@(s), : o meu/minha é melhor do que o/a teu/tua...mas olhe é uma coisa gira especialmente quando el@s crescem, um cadinho , basta um cadito e nos acham pirosas e nos mandam à merda que não são macacos de imitação!)...e diga-se de passagem( gosto desta palavra...tem movimento!) que têm toda a razão. Mas, mime o Rititi-BOY assim numa equação de 800 biliões elevados ao infinito! Isso el@s agradecem( às vezes, claro!)

 
Na 8:22 AM, Blogger Lua disse...

Concordo com tudo o que dizes mas tenho uma pergunta a fazer (a ti e a todas as outras mães).

Há já uns tempos que digo o mesmo (infelizmente fui posta numa situação em que tive de o dizer), mas o que me pareceu foi que é mais aceitável dizê-lo quando és mãe e não quando não o és. Tipo - tive de passar pela coisa para poder dizer que não, afinal não me eleva a coisa nenhuma, mas tu que não passaste pelo mesmo não sabes, ainda (ou nunca se nunca passares mesmo) o que é.

O que, obviamente, me parece muito injusto.

A minha pergunta é: Pensarias o mesmo se alguém que não tem filhos te dissesse a mesma coisa? Ou isto vai sempre soar a um ataque? Ou vai sempre resultar num sentimento defensivo, ou... ou?

(a pergunta não pressupõe que assumo o que quer que seja. Estou só curiosa).

 
Na 1:05 PM, Blogger Joana Pestana disse...

Claro que não é nenhum clube... Mas isso aplica-se a quase tudo. Todas as pessoas são diferentes.
Há, pelo menos (a meu ver) uma mudança abismal. Há o antes e há o depois, em que irás sempre pensar no teu filho EM PRIMEIRO LUGAR. Não em ti, não em mais ninguém, mas nesses cinco quilos de gente. E será sempre assim. E isso muda-nos. Muito mesmo.

 
Na 5:43 PM, Blogger Marta disse...

Palminhas!

A Rititi é, pelo menos (e já antes da maternidade) uma inspirada!

Eu gosto. Gosto, gosto!

 
Na 8:27 PM, Blogger Ana disse...

Berço de ferro forjado?!
Espectáculo! Adorava ter tido um para a minha cria.

 
Na 4:01 AM, Blogger Tânia disse...

Má notícia: a tendência dos bitaites e das bocas e das respostas a perguntas inexistências é sempre para piorar... 2 de 1: ou mandá-los à merdinha, mas isto depois acaba por cansar, ou deixar de os ouvir e fazê-lo notar, ostensivamente. Ando a trabalhar nesta segunda parte, se bem que as hormonas destrambelhadas da segunda paridela ajudam pouco ainda.

 
Na 10:17 AM, Blogger Luís disse...

Rititi

Excelente, genuíno, isso soa a verdadeiro e tem múltiplos registos, incluindo a gravitas do mundo especial e protegido do R-boy. Estamos tod@s a aprender . Diga mais coisas da pediatra-psicopata.

Parabéns e um olhar mais demoradopara o R-boy

 
Na 1:13 PM, Blogger Cláudia Pacheco disse...

:)Se algum dia for mãe, tenho a sensação que vou ser da mesma opinião. E já sei, como sempre, vou ter que levar com o raio da famelga tradicionaleca, que acha que a partir de determinadas fases ou acontecimentos temos que ser e pensar de forma completamente diferente...mas também eles vão ter que levar comigo e com o meu modo de pensar "Rititiano". :)

 
Na 12:18 AM, Blogger M Isabel G disse...

Gostei muito, Rita.
Isabel
misspearls.blogspot.com

 
Na 12:52 PM, Blogger Yashmeen disse...

A verdade é que quando és mãe as pessoas esperam que o teu blog se torne um baby-blog, que deixes de te vestir de preto, que passes a gostar de cor-de-rosa e de coisas fofinhas e que tenhas vontade de conversar sobre doenças infantis na sala de espera do pediatra.
A maternidade é um estado de espírito, isso sim, mas não tem que alterar aquilo que nos define enquanto pessoas. E, para que nos valorize, temos que desempenhar bem esse papel. Não chega "ter filhos", como muitas dessas que se arrogam grandes mães que sabem tudo fazem. São coisas complicadas, porque se trata dos limites entre o "eu pessoa" e o "eu mãe".

 
Na 4:23 PM, Blogger Vida em Branco disse...

Bravo! Concordo com cada palavra. Eu também fui mãe há sete meses e não subscrevi assinatura em nenhum desses "clubes das mamãs-que-se-julgam-melhores-do-que-as-não-mamãs".
Cada um é como cada qual e nada na vida nos faz melhor ou pior que os outros. Adoro a minha filha, ela está em primeiro lugar em tudo o que faço, mas não deixo de ser quem sou. Há um antes e um depois, sim, mas apenas do que diz respeito a prioridades na vida. Continuo a ser a mesma pessoa, com os mesmos defeitos e qualidades, e assim pretendo continuar a ser.
Sou mãe solteira e não posso contar com o pai da minha filha para nada (adoro vê-lo passar com a sua namorada nova de 1,80m, loira e ar de puta de Elefante Branco!), mas a vida é assim mesmo. Nem sempre corre como a imaginamos.
Uma coisa é certa: o que faz de nós "diferentes" e "superiores" não é a maternidade. É, sim, a forma como a vivemos. Há mães superiores e especiais, tal como também o há pais. Mas isso nem todos os que têm filhos sabem o que é...

 

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