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Com a minha vida social convertida numa sombra patética do que ontem terá sido, dedico-me a organizar eventos “de dia”, onde o ponto álgido é o almoço e o toque de queda às sete, mais tardar, nao vá a minha fascinante saída interferir com o banho do criaturo. Podia ser pior e passar os dias às voltas nos centros comerciais da capital zapatera, a fazer loop sobre mim própria na secçao infantil da Zara. Depois da festa campestre de apresentaçao do novo ser aos amigos do coraçao, agora toca baptizar o Rititi-Boy. E que experiência, santodeus, que quantidade de pintelhices que eu nem sabia que eram imprescindíveis para que o puto entre pela porta grande nesse grande clube e tao pouco exclusivo que é o catolicismo. Sim, porque para baptizar um filho basta querer, falar com um padre, arranjar os padrinhos e apetrechados de uma concha, uma vela e um pano renegar do diabo. Assim. Bela merda de clube, desculpem lá, onde qualquer é aceite como sócio com só lavar o cabelo com agua benta. Mas claro, este é o meu clube. O que nao vou é armar-me em freak e fazer um baptizado civil, a fingir-me laica moral e de super esquerda total, como se tivesse vergonha de ser católica e ter sido educada nuns determinados valores que nao me traumatizaram nem fizeram de mim uma pior pessoa. Estudei com freiras, vesti-me de primeira comunhao, confirmei-me, casei-me pela igreja e amanha vou baptizar o Rititi-Boy. O baptizado serve para muita coisa (além de renegar do diabo, detalhe que confesso me tem com o coraçao encolhido, eu que achava que o diabo era um estado de espírito ou ideia ou como muito um mito erótico), mas sobretudo para almoçar com a família que anda dispersa por terras longínquas e só se encontra via e-mail. Ah, mas tu és a favor do aborto! Ah, mas tu tomas a pílula! Ah, mas tu só vais à missa quando se casa alguém. E? O padre sabe que eu sou boa gente, que estou doida pela médula de Mr. Pinheiro ou que sei que o amor é a base de qualquer educaçao, o que se calhar para Igreja é mais que suficiente para matricular o meu filho como católico. Depois, que faça o que o gajo quiser. Menos ser muçulmano, está à vontade para tocar de credo se é o que lhe faz feliz. Pronto, e hare krishnas também nao, grande mau aspecto.
Sete meses, dois dias e umas quantas horas. E não, não parece que foi ontem. Ontem foi quando o Rititi-Boy gargalhava ao som de All you need is love. Parece que foi há anos luz, que pari há tanto tempo que parece que passaram séculos desde que Espanha ganhou o Euro ou que morreu Yves Saint-Laurent. Durante sete meses passaram-me ao lado o mundo e as suas circunstâncias e as férias de verão, as 9 às 5, as historias de amor no cinema, as lutas desesperadas por manter o emprego, as candidaturas aos Oscar e os desaparecimento de blogues pareceram-me assuntos indiferentes, inúteis e patéticos. Pus a cabeça de molho durante sete meses para me concentrar nos movimentos, quereres e sorrisos desse ser adorável que me parou o relógio e as urgências. E neste tempo que passou tão devagar, que foi tão intenso e que me doeu tantas vezes, vi-me de repente com um tamanho de mamas que não me encaixam, preocupada com um futuro de crise e instabilidade onde não houvesse pão na mesa, a correr para o médico tantas vezes que já pertenço ao grupo das histéricas, a partilhar informação íntima e altamente escatológica com a fruteira, a concordar inesperadamente com a minha mãe e a ver a minha lista de amigos reduzida à ínfima expressão do que foi naquele tempo em que saía fim de semana sim e fim de semana também. Sete meses, dois dias e umas quantas horas em que o primeiro que esqueci foram as aulas de preparação para o parto e as verdades inabaláveis que me enchiam a boca quando ter um filho era uma hipótese longínqua e em que me encontrei em frente ao espelho a rir-me sozinha da minha nova capacidade de entrar em pânico ante a negativa dele de comer a fruta. Arrumados ficaram os livros e as revistas de pediatria que se demonstraram inúteis e o maior engano no século, esse engenho do diabo chamado saca-leite e todos os acessórios que aproveitando a minha ignorância e terror brutal a falhar no básico me impingiram as prenatatais e mothercares sem vergonha ou arrependimento. Sete meses, dois dias e umas quantas horas e já dormimos a noite toda e já pesa 10 quilos e já tivemos bronquiolite, gripe e caganeira e sim, parece que coisa vai bem, que o Rititi-Boy é um bem-disposto e divertido, que não estranha e dorme em todo o lado, que se porta bem na creche e que é um amor, e que segunda-feira que vem, quando eu voltar ao trabalho sei que não me tenho que preocupar, que está bem entregue, que nem vai dar por isso. Mas custa-me horrores voltar, ligar o relógio, enganchar-me de novo a essa vida onde ele não estará a olhar para mim desde a cadeirinha, a pedir-me colo, a querer agarrar o comando, a gargalhar quando o cú-cú-trás. Digam o quiserem, mas o que está lá fora não me compensa.
E aqui vai uma das minhas canções favoritas para o Paulo Pinto Mascarenhas, que voltou (se é que se foi embora alguma vez) à blogosfera, desta vez em solitário e ressuscitando o ABC do PPM. E é que o Paulo tem destas coisas, sem estrilhos, sem histerias, sem grande espaventos consegue que o povo se ponha a mudar os links, e o que é melhor, se alegre, sinceramente, de continuar a partilhar blogosfera com alguém genuinamente bom. Back toooo life….
En Vogue – My Lovin’ (You’re Never Gonna Get It) – 1992
Mas bem pensadas as coisas, eu para adolescente hormonal estava muito bem. Aliás, estava melhor que bem; tinha amigas (elemento fundamental para ser feliz), era magra (elemento fundamental para ter amigas), tinha aparelho (elemento fundamental para mais tarde ter gajos e ser invejada pelas que não eram minhas amigas) e tinha enchumaços (elemento fundamental para estar na moda e por tanto ter amigas). Que agora me horrorizem a franja, os sapatos de fivela (quando não eram de vela), as gangas deslavadas, as permanentes que queimavam o cabelo ou os elásticos de veludo é sinal que estava mais que enturmada nos felizes anos 90. É fodido, mas já na altura era popular. E gira. Não admira que não me convidem para escrever sobre grupos deprimentes de pop inglês na ipsilón.
Anda uma gaja a criar um nome na blogosfera, uma fama de mulher sofisticada, uma reputação de gente que sabe conjuntar cores, brincos, madeixas e sapatos; anda uma gaja toda vaidosa de cabelo e dentes perfeitos, mamas no sítio e cu rijo e honesto, para que assim, sem autorização ou aviso prévio, à má fila e pior fé, pimba, ex-amigas do colégio de freiras escarrapachem no facebook fotos minhas com 15 anos. Adeus glamour e referência blogosférica, olá aparelho dental de ferro, olá franja cardada, olá brincos de cigana, olá biquini XXL, olá minhas grandes cabras. Agora, a minha reputação virtual só vai ao sítio com fotos semi-nua retocadas com fotoxope. Pronto, pelo menos já é público: agora sou uma mulher bem mais bonita.
Compenso as secas brutais em repeat-mode que levo dos Baby Einstein dos cojones (e isto é só o princípio, bem sei), com sessões de violência, sangue e crianças agarradas ao cavalo em The Wire. A primeira temporada foi-se em dois dias. Não é The Sopranos, mas agradeço a inteligência dos argumentos, a crueldade da puta da vida e a visão de um mundo onde há maus querem ser bons e bons desejando que os convidem a ser maus. Muito bom. Já me podem ir oferecendo a segunda temporada.
Perdi o meu telemóvel dentro de casa. E nao, nao me posso telefonar porque está em silêncio. Continuo à procura dentro do caixote do lixo e do frigorífico.