Terça-feira, Junho 23, 2009

HOSPTITAL CURRY CABRAL, LISBOA, 17 DE JUNHO DE 2009

Coisas fascinantes tem Lisboa: para poder pagar o arranjo do meu carro na Peugout tive que levantar dinheiro num hospital. Assim que lá foi o fabuloso casal Pinheiro ao Curry Cabral, direitos ao multibanco para despejar a conta, quando nos encontrámos com esta fascinante cena: à porta desta reputada instituição hospitalar um fornido segurança vociferava ao telemóvel os seus assuntos também fascinantes e pelos vistos cruciais para os destinos da humanidade enquanto uma senhora velha, daquelas que de tão velhas já só podem ser tratadas por velhinhas, se mantinha imóvel na entrada rodeada de ambulâncias e gente que passava, dobrada sobre si mesma. E sozinha. A senhora está bem? Ó segurança, já viu se a senhora está bem? ah, ela (uuuuf), quer ir às urgências, e o segurança, não faz nada? eu? ela que dê a volta ao hospital que a porta das urgências é do outro lado, mas já reparou que a senhora não pode andar? Silêncio. Costas voltadas. Num hospital. E lá fui eu, armada em nada, só em pessoa, para dentro do hospital pedir que uma enfermeira pegasse numa cadeira de rodas para levar a senhora velhinha às putas das urgências. Quer o quê? alguém que trate da velhinha, a senhora funcionária não poderia pedir a esse outro segurança tão bem aposentado na sua cadeira de importante para dar um jeito? eu? era o que mais me faltava, não estou aqui para isso, então dê-me a cadeira a mim, ah mas senhora não faz parte do pessoal habilitado para retirar material hospitalar, aliás, quem é a senhora, um familiar? Eu? Eu só vim levantar dinheiro! A funcionária, ante tal absurdo, durante uma caganéssima de segundo viu a luz, vá-se embora descansada que eu peço a uma auxiliar para ir ver da senhora. E lá fomos nós pouquíssimos descansados à nossa vida, pagar o arranjo do carro à oficina que não aceita cartões estrangeiros. Mas voltámos, ai se voltámos ao hospital, de nome Curry Cabral, e lá estava a velha, à entrada do hospital, a entrar toda dobrada num táxi que caritativo se ofereceu para a levar grátis às urgências, enquanto sua excelência o besta do segurança, do alto da sua farda e dos vinte e inúteis anos, continuava ao telemóvel, grunhindo a estupidez da sua existência. Então, ó senhora funcionária mas que raio, aaah pois, então é assim, de facto foi lá fora a auxiliar e até lhe levou um copo de agua, está a ver, mas senhora (velha, velhinha), estava confusa, sabe como são os velhos, queria ir às urgências, enganou-se na porta, mas as urgências não são aqui, aqui é só para consultas externas e eu até a levava, mas estou aqui cheia de trabalho, e a auxiliar também tinha mais que fazer. E se fosse a sua mãe, a sua avó, também a deixava lá fora, às quatro da tarde, a trinta e muitos graus, sozinha? E para que servem vocês? Para que serve um hospital em Portugal? Grunhidos ante a desesperação de um casal indignado por culpa de uma velha anónima.
Isto é o Curry Cabral, um hospital português. De todos aqueles funcionários com quem tivemos contacto não houve uma alminha que tivesse o mínimo, já não digo de profissionalismo, mas pelo menos de decência, humanidade, compaixão, amor ao próximo, dignidade. Uma velha que mal podia andar, curvada, sozinha, desorientada, só lhes mereceu a estes seres apáticos atrás do seu guiché uma infinita indiferença, um encolher de ombros assombroso. E isto em Lisboa, nem quero imaginar o resto do país, onde a terceira idade é a única idade que habita as vilas, as ruas, os centros de saúde, os hospitais. Ser velho em Portugal é sinónimo de abandono, toda a gente sabe disto, mas que num hospital, de nome Curry Cabral, se profissionalize este desamparo, que se maltrate assim os velhos, já nem é mau: é pecado. É o resumo do país de merda onde envelhecer é o pior dos pesadelos se o dinheiro falta e os filhos acham que são órfãos.
Porque os velhos são uns chatos, estão sempre doentes, cheiram mal, repetem sempre os mesmos doeres, entopem as salas de espera com os mesmos queixumes de sempre, oxalá morressem todos e fôssemos todos saudáveis, e bonitos e altos e não chateássemos os funcionários de nenhum hospital, que tanto têm que fazer, atrás do seu guiché de gente ocupada e importante, em vez de tratar de doentes que é para isso que são pagos.

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24 Comentários:

Na 10:18 PM, Blogger Ck in UK disse...

Rititi, este post ficou-me entalado. Nao porque nao concorde, porque ate acho que foste branda demais. Mas porque eu, tal como tu semi-estrangeira, tenho passado muito tempo em hospitais publicos e privados no Porto desde que o meu ai teve um AVC. o que tu mencionas nao e NADA comparado com o que eu tenho presenciado ao longo dos ultimos cerca de 70 dias. E cada vez que me fazem ver isto masi enojada eu fico. E mais irritada. porque, tal como tu dizes, essas bestas sao pagas pra fazer isso, pra tratar de doentes. Enfim....

 
Na 10:36 PM, Blogger Manuela Cunha disse...

É irritante e muito triste ver relatos destes...
Ficarem alapados na secretária e ao telemóvel é de um profissionalimo sem par...
Que nervos...cambada de bacocos...

 
Na 10:45 PM, Blogger Rita Burnay disse...

A minha única passagem por umas urgências foi traumática. Em primeiro lugar, porque fui com uma crise renal e não há nada que me tenha doído, mais na vida, que as pedrinhas a passarem-me pelos riñones. E segundo, porque me senti como um incoveniente. Eu tive que entrar sózinha nas urgências quando mal podia andar e fiquei largada num canto a ganir de dores durante pelo menos 1h, até que, a minha mãezinha, que estava lá fora, foi mechendo cordelinhos e lá arranjou um amigo, de um amigo, de um conhecido, que era médico neste hospital e que veio dar ordens para tratarem de mim. Não me escapei de ouvir bocas dos médicos que me atenderam: ”as meninas são umas istéricas que a cada dôr vêm para as urgências".
Enfim, péssimo atendimento e nem quero imaginar uma velhinha sózinha indefesa e sem cordelinhos para mexer.
Mas lembro-me, que muitas das velhinhas que chegavam ás urgências vinham com os bombeiros que não as deixavam sózinhas e que eram muito atenciosos.

 
Na 11:10 AM, Blogger sem nome disse...

Se calhar no resto do país que tanto mete pena a Lisboa e ao Porto, as pessoas não são tratadas assim... Se calhar não, de certeza.

 
Na 11:32 AM, Blogger Textículos disse...

Isto é um país em estado selvagem!

 
Na 3:24 PM, Blogger I. disse...

Esta história deixou-me arrepiadinha de todo.
Não é negligência, é malvadez.

 
Na 3:48 PM, Blogger maria disse...

Rititi
A falta de humanidade e indiferença assusta-me... Parece que só se conseguem compadecer pelas notícias nos telejornais e nas novelas. Mas também há casos que mostram o contrário: uma vez presenciei um rapaz que em plena hora de ponta num cruzamento saiu do carro que aguardava a mudança dos semáforos e foi ajudar um cego que queria atravessar a estrada....comoveu-me tal atitude e senti que tinha levado uma bofetada de luva branca...

 
Na 7:28 PM, Blogger sandra disse...

Muito bem escrito!
O (bom) uso das palavras para a denúncia destas tristes cenas a que TODOS assistimos diariamente!

Com muita frontalidade, revolta inerente e claro sem pudor em repetir o nome do hospital com estes 2 péssimos "funcionários" em questão.
O primeiro tb conta como "funcionário"!
Presta serviço PARA esse hospital.
Infelizmente, a sensibilidade e a dedicação ao próximo não são requesitos pedidos em nenhum currículo quando há recrutamentos de pessoal nestes locais!

 
Na 12:50 AM, Blogger Este Blogue precisa de um nome disse...

Fiquei para morrer com a história! Desconfio que com este meu feitio tinha tirado o telemóvel ao segurança e lho atirado com ele às trombas, sim que um gajo desses não tem cabeça! Tem trombas...

 
Na 1:05 PM, Blogger Sandra disse...

Infelizmente tb já passei pelas urgEncias de um hospital aquando do acidente do meu pai.

No meu caso foi no Hospital dos Covões em Coimbra e quem se compadeceu de mim e da minha mãe foi precisamente o segurança. Ele ia-nos trazendo noticias de vez em quando pois não havia ninguem mais que o fizesse. Auxiliares?? Nem ve-las. Esse mesmo segurança foi repreendido pelos médicos por estar a fazer perguntas...
Acredito no Karma e espero que esse senhor seja recompensado pelo bem que fez.

 
Na 2:53 PM, Blogger xuxidiva disse...

e nao fizeste queixa do tal seguranca? deveria ser identificado e feita uma reclamacao a entidade patronal dessa besta.... no minimo!!!

 
Na 2:54 PM, Blogger Gabriela disse...

Rititi..é pena, muita pena mesmo, que este post fique só aqui e não seja enviado para o conselho directivo do dito hospital, com uma cópia ao director clínico e ao enfº supervisor... outra cópia para a Direcção Geral de Saúde e para a Inspecção.
o mal é que vemos, sentimos, revoltamo-nos, ajudamos, mas...não fazemos mais nada. se cada um de nós por cada situação revoltante e degradante que se nos depara, a denunciarmos, mesmo que pensemos que não resolve nada, a tendência seria, para que, aos poucos, talvez algo mudasse. Mesmo que não mudasse, chatear com reclamações é mesmo muito bom. É que qualquer reclamação dá muito que fazer a uma rede burocrática. Aparentemente, pensamos que não serve para nada. Mas não...chateia, porque há averiguações, os envolvidos têm q responder. e só isso, faz com que da próxima tenham um pouco mais de cuidado, e depois mais um pouco..
Já agora, porque não envia a história, em laia de "correio do leitor" para um jornal?
eu não deixo passar nenhuma cena destas ou, parecida, em branco. e sou a calma em pessoa...do mais pacífico que pode imaginar...mas chateio todos até à exaustão.
Façam o mesmo. Ajudem quem precisa mas não fiquem indiferentes a actos desta natureza. Reclamem, escrevam cartas, mails, chateiem!!!

 
Na 6:02 PM, Blogger Melancia disse...

S O B E R B O!

uma das ultimas que se passou comigo, (para um posto de saúde que tem sap até às 22horas):
Estou sim, gostaria de marcar uma consulta de urgência para uma criança de 3 anos, por favor.
Oh minha senhora, nós aqui fechanos os computadores às 4 da tarde.
ERAM 16.01!
Não disse mais nada e desligou.
Voltei a ligar e pedi para falar com o Director clinico do posto, disse-lhe quem era, o que se tinha passado e que iria apresentar reclamação.
Respondeu-me que não iria descobrir quem teria dado a resposta, esclareceu-me que o posto só fechava às 22horas e que poderia ir sem marcação. E ainda me questionou sobre a pretensão da minha reclamação.
Acho inacreditável que alguém obtenha por resposta o que eu ouvi, e que seja um director clinico a fazer de administrativo, nem sei que acho.
De facto o desamparo profissional, maltrata tudo e todo e é pecado. "É o resumo do país de merda".

 
Na 11:28 PM, Blogger Jay disse...

Asi es cariño!...
Y la " privada" peor aun!....Si no tienes el Gold Card...
Manjas?
Jay

 
Na 4:35 PM, Blogger Helena disse...

Obrigatório:
Publicar este texto em tudo o que é jornal, revista e folhetim deste mísero país.

 
Na 6:19 PM, Blogger Luís Ferreira disse...

Parabéns por ter ajudado ou tentado ajudar a senhora, parabéns por ter voltado atrás, parabéns por ter "postado" isto. Parabéns a sério.

 
Na 11:23 PM, Blogger Alzirinha disse...

O meu pai ia morrendo de uma septicemia no hospital Santa Maria, porque o médico de serviço achava que o problema não era dele.... se não fosse um conhecido nosso que lá trabalhava a esta hora já cá não tava. Devido à demora passou 4 dias em coma, com os médicos a dizerem ".... é melhor preparem-se para o pior...". O pior, o pior de tudo foi ter de cruzar-me com esse, dito, médico todos os dias como se nada tivesse acontecido....
O meu pai tá vivinho da silva, mas porque a sorte lhe bateu à porta!

As histórias nos hospitais portuguesas dava para igualar os volumes da história de Portugal do Mattoso!!!

 
Na 5:21 PM, Blogger Ana Ribeiro disse...

Percebo a tua indignação. Vivemos num país onde as pessoas só se preocupam com o próprio umbigo. São estórias como essa que revoltam, magoam e irritam mas que poucos fazem com que não se repita.

 
Na 6:28 PM, Blogger S disse...

É um embrutecimento geral... estas histórias q se sabem de amigos , familiares, imprensa, só me remetem para o q imagino q seja o nível de atendimento/consideração num hospital num país qlq em desenvolvimento. É a lei da selva, estamos mais brutos, é o salve-se quem puder que tb ando ando na merda.

 
Na 12:26 PM, Blogger Cor do Sol disse...

Eu acho que se substima muito o resto do País. Pois, os meus familiares sempre foram atendidos em Braga e Guimarães e eu não tenho nada que dizer em termos de humanidade e atendimento. É certo que há muita gente que não deveria sequer trabalhar num hospital, mas classificar Portugal como o pior...eu tenho amigas enfermeiras e um amigo médico em Espanha e olha que as histórias que vêm de lá também não são bonitas. Eu fazia queixa desses funcionários, não merecem trabalhar com pessoas.

 
Na 5:39 PM, Blogger Filipe disse...

É mau. É muito mau até. Mas garanto que não se trata de portugalidade. E desagrada-me que nos dirijamos ao país ou à sociedade portuguesa para "justificar" deficiencias morais.
Em Barcelona, há pouco mais de um ano, recebi a visita dos meus pais e irmãos. O rapaz, de 5 anitos, adoeceu-se-me. Andava a carregar uma febre chata e uns olhos esbugalhados já há 3 dias. Pego no criançó, vou até ao Hospital Del Mar e peço para que mo vejam e façam uma pequena análise aos sintomas (o que é aconselhado ao 3º dia de febre) para despistar algo de grave que pudesse, ou não, existir.
É-me dito que não me podem ver o rapaz na ausência de um cartão ou do pagamento de qualquer coisa como 170 €.
Insisto, replico, explico-lhe que sou estudante, tenho visto de residência e não sou turista, recebi a visita da minha família, etc.. Excusado.
Assim que, indisposto a pagar tal barbaridade, tive que me vir embora com a criança sem que ninguém se dignasse a passar-lhe a mão pela testa.
Conheço alguns enfermeiros e assistentes que, em Portugal, teriam, seguramente, dado outro fim à situação. Bem como não duvido que em qualquer outra parte de Espanha, com outros intervenientes, o desfecho poderia ter sido diferente.
O que quero sublinhar é que despejar as culpas no país, não me parece sensato nem inteligente, porque ainda que legítimo, não será nunca a melhor forma de dar, ou ajudar a dar a volta por cima.
Em suma, posso garantir que não se tratará de portugalidade, mas de Humanidade.

Parabéns pelo Blog.
Cumprimentos.

 
Na 4:48 AM, Blogger [gatozorbas] disse...

Subscrevo o post. Em todas as suas virgulas e pausas para respirar.

 
Na 1:22 PM, Blogger Serena disse...

Rititi, és grande! Valente post, como todos os que escreves. Essa é a trampa de hospital que serve a zona onde moro. Tem médicos bons e decentes e tem outros absolutamente estúpidos e que mereciam um tiro no meio da testa. O restante pessoal hospitalar... enfim, uns tristes sindicalistas que até podem ter razão nas suas reivindicações, mas mais valia serem bons profissionais. Também eles vão chegar a velhos e com a formação que têm, receberão das suas gerações futuras o mesmo tratamento... amor com amor...

 
Na 3:40 AM, Blogger lemon(ite) disse...

O post é dramático e real. E atrevo-me a adivinhar que nas urgencias a velhinha vai ser posta a um canto até que alguém tenha paciencia para tentar perceber o que ela tem. São casos assim todos os dias.

 

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