A advogada nacionalizada espanhola e de origem muçulmana Zoubida Barik Edidi foi expulsa de um julgamento na Audiência Nacional pelo juiz Gomez Bermudez por levar véu. A advogada, obviamente, fez queixa às autoridades competentes, às organizações de direitos e a todos os meios de comunicação por islamofobia, intolerância, abuso de poder e, como não podia deixar de ser, por discriminação. Coitada, pá. Imagino que, ela que se sentiu discriminada por não poder levar o véu, de vez em quando pensará nas miúdas que ao primeiro período lhe enfiam o véu na cabeça para todo o planeta conheça a sua condição reprodutora, nas mulheres que suam que nem porcas às três da tarde em Agosto baixo um sol madrileno de quarenta graus tapadas até às orelhas enquanto os machos que as acompanham se passeiam em shorts, camisolas de alças e chanatas, nas estudantes universitárias a quem interesses familiares e económicos as arrancam das aulas, dos livros e do conhecimento para serem casadas com completos desconhecidos, ou nas milhares de mulheres que se submetem a operações para reconstruir esse dogma de fé chamado hímem em nome de uma honra que a outros pertence. Imagino que esta advogada discriminada, enquanto relatava a sua indignação aos meios multiculturais e solidários, se tenha lembrado daquela mulher, como ela muçulmana e residente em Espanha, que foi espancada por dois compatriotas tão ciosos dos usos primitivos que a deixaram em coma e lhe provocaram a morte do filho que trazia no ventre precisamente por não levar esse véu fundamental. Porque isto é o véu: discriminação em estado puro. Esta advogada, aliás, já fez saber que sem véu não pode exercer a advocacia, reparem. Isto é o véu, condicionar a mulher a um pedaço de pano. Sem véu não podem sair à rua, nem trabalhar, ou apanhar um autocarro. Sem véu as mulheres para boa parte da Humanidade não são dignas nem respeitáveis, não importa se têm cursos universitários, se votam ou pagam impostos. E isto não é cultural, nem se insere como parte de usos milenários, não senhora, o véu é consequência de uma religião determinada que, bem ou mal entendida, obriga as mulheres, no mínimo, a taparem a cabeça, quando não a cara completa, os olhos, as mãos, os pés, o corpo inteiro para não ofender uns gajos que até podem ser uns pais e maridos amantíssimos, mas que não passam de uma cambada de machistas que não consideram as mães, as filhas, as mulheres ou colegas de trabalho, ou seja, a metade da população, como iguais. Isto é véu, não me venham com tretas. E se a advogada se sente discriminada, olha, paciência, lamento imenso, mas deste lado do mundo em que vivo as coisas não funcionam assim. O multiculturalismo não justifica tudo, aqui não se respeita o machismo como parte de uma cultura, aqui não há pão para malucos nem desculpas para o atraso cultural e humano. Aqui as mulheres valem o mesmo que os homens. Aqui sobre a minha cabeça e o meu cabelo e o meu corpo mando eu.

16 Comentários:
Naturalizada...não é Rita?
Nacionalizada foi a RUMASA, en su tiempo, mujer!!!!
Estou perplexa. O que mais gosto no teu blog (vulgo, tuas ideias) é ter outro ponto de vista para conhecer. Ainda não sei se concordo contigo, se discordo da senhora, se sou fiel ao meu instinto que me diz que o paninho é absurdo ou se há o direito de esfregar a tola com ele. Vou pensar..
Este tema merece comentário. De facto, é chocante a condição pública da mulher no mundo muçulmano e a incapacidade da cultura islâmica em se adaptar ao meio cultural "ocidental". Sei de muçulmanas (argelinas) que na sua terra natal usavam apenas o véu (mas contrariadas) e que quando foram viver para Paris passaram a usar o traje tradicional, deixando apenas os olhos à vista, e por opção própria... dá para entender? Não dá. Devemos ser tolerantes? Sim. Devemos ser coniventes? Não. Porque se eu consumir álcool ou fumar na Argélia arrisco-me a ser presa e apedrejada. Assim como os "ocidentais" se moldam aos costumes islâmicos quando visitam estes países, também os islamitas se devem adaptar aos costumes ocidentais.
Há uns tempos assisti à revolta de uma senhora muçulmana no aeroporto Sá Carneiro porque teve que mostrar a cara. Discriminação! - acusava ela! E o senhor que a estava a identificar perguntou - Discriminação? Porquê?? A senhora é a única a quem estamos a pedir para mostrar a cara?
Pois é... este assunto dá que pensar, é polémico...Todos temos direito a professar livremente a fé... o problema começa quando a fé que professamos atropela os direitos dos outros e os elementos mais básicos da dignidade humana...
Estou muito contigo. Mesmo.
Em quando os países árabes pouco a pouco as mulheres se libertam do véu, na Europa acontece em sentido inverso, todavia tenho que constatar que esta evolução, não tem nada a ver com a religião mas é mais um problema da identidade .
Cumprimentos
http://blog.seniorennet.be/lisboa
O melhor disto tudo é que o juiz explicou à dita senhora que em tribunal não pode levar véu por questões tão práticas como, se leva véu não podem identificá-la, não podem ver expressões faciais enfim, existem razões lógicas!
Epá, eu não me apressava a condenar a senhora!
Caça às bruxas foi hà muito tempo e por outra ordem igualmente "religiosa". Cada um devia andar como lhe apetece. É isso a democracia e a liberdade que com tanto entusiasmo defendemos deste lado do mundo. Com véu ou sem véu, com calças de ganga, de mini saia, de sobretudo, ou todo roto, cada um é como cada qual. Concordar com o véu ou não, é uma coisa pessoal.Mas não se deve impor uma opinião ao resto do mundo senão parecemos aquele senhor baixinho, germânico e de bigode rídiculo que um dia queria governar o mundo.
isto parece uma pescadinha de rabo na boca...
No final tem de se acabar com estes hábitos que não respeitam os direitos humanos, sejam eles dos homens ou mulheres. Falta saber quantas senhoras, advogadas ou não têm coragem para dar os primeiros passos nesse sentido
No mundo Ocidental sobre a tua cabeça, o teu cabelo e o teu corpo mandas tu desde que nao queiras por-lhe um véu porque isso é muito atrasado? Mandas tu, "mas"?
Acho importantíssimo garantir a educaçao para a emancipaçao e a independência de espírito nas sociedades ocidentais, acho importantíssimo que criemos todas as condiçoes e todos os apoios possíveis e imaginários para que ninguém seja obrigado a usar o que quer que seja, para que toda e qualquer decisar de uma mulher sobre o que veste, o que pensa e que profissao exerce seja uma decisao dela, em toda a consciência das suas opçoes e da sua liberdade. Mas acho que começar por proibir a utilizaçao do véu, limitando essa liberdade para a qual as queremos educar, nao é exactamente a medida mais inteligente no mesmo sentido. Tantos anos de luta para podermos usar o que nos apeteça...e pegar logo numa mulher que quer exercer uma profissao, para a qual ultrapassou já tantas barreiras?
A meu ver, tudo tiros no pé.
Pela minha parte, no dia em que tentarem proibir o véu sinto-me capaz de usar um e sair para a rua. Farei o mesmo se proibirem a mini-saia ou as leggings, aquele pesadelo estético. E nao, nao estou a po-las ao mesmo nível nem a ignorar toda uma questao cultural. Mas farei o mesmo no dia em que tentarem proibir o que quer que seja que eu considere ser de minha única e exclusiva determinaçao e um atentado à minha liberdade. E se tentarem limitar a minha liberdade em nome dessa mesma liberdade, hei-de mandá-los para o diabo mais o paternalismo.
Eu também moro em Espanha e acompanhei as notícias sobre o caso.
Concordo com boa parte do post, sabes. Principalmente com a última frase. Na minha cabeça, no meu corpo e no meu cabelo mando eu. E no dela, manda ela. E se quer levar um lenço na cabeça que leve, por mais que isso me pareça estúpido e símbolo de tudo o que acho que deve ser combatido. Por mais que me apeteça abanar com força as dúzias de miúdas muçulmanas tapadas até aos dentes, de luvas num verão de 45º, com que me cruzo todos os dias na universidade onde trabalho. Essa é a diferença entre uma sociedade livre, que respeita a liberdade individual, e a sociedade obscurantista que a mente daquela advogada não é capaz de abandonar.
Não acharia o mesmo se ela fosse juíz ou representasse o Estado, de alguma maneira. Não acharia o mesmo se o lenço lhe tapasse a cara e impedisse a sua identificação. Mas não o faz. É um pano estúpido e feio na cabeça. E no mundo em que eu quero viver, as pessoas devem, na maioria das situações, ser livres de usar coisas estúpidas e feias.
há o caso das saias, das trombas, das entranhas e sei lá que mais, como por aqui já se falou.
mas nada disso interessa para o caso mas simplesmente o da identificação e também não vou perder tempo com as honestidades, por não interessar.
cá pra mim bem podia ir de fussa tapada ou semi nudada que pouco importava... agora palrear sem lhe mirar o pepsodent é que não, tenham paciência!
Excelente texto.
Vivo num país árabe.
Quando o ocidente perceber realmente o preço que vai pagar por anos e anos de respeito e tolerância por diferentes culturas ; quando o ocidente perceber o que o mundo árabe realmente sente por nós, talvez seja demasiado tarde.
Esta mensagem foi removida pelo autor.
Muito bem dito, Alex. Muito bem dito.
É perfeitamente natural que não seja permitido o uso do véu num tribunal, precisamente por aquilo que representa (um elemento de distinção).
Em Portugal (como em muitos outros países da Europa e não só), é obrigatório o uso de uma toga, de acordo com as indicações publicadas no Estatuto. (Toga e cabeleira, apesar desta ter caído em desuso cá).
Estes elementos simbolizam perante a lei igualdade e indistinção de classe, estatuto, religião, sexo ou poder económico.
Texto muito bem conseguido, o qual subscrevo inteiramente.
Adorei o texto, vivo no Canada, aqui neste pais Multicultural, o uso do veu, da burka e permitido por toda a parte, mas chegas ao aeroporto e vao-te pedir pra ver a cara isso e certo. Ha uns meses atras o Muslim Counsil do Ontario pediu q o uso do veu fosse proibido, isto pq os muslims q aqui vivem sao um cadinho mais realistas e veem o uso do veu como uma maneira de os maridos e pais terem total control sobre as mulheres. isto sim pq o Canada ate e um pais multicultural e td mas se elas vao a procura de trabalho nao sao la mt bem recebidas, desse modo tem q continuar dependentes do marido e dos pais, essses sim uns brutos.sim pq canada ate pode ser multicultural mas os honour killings existem aqui mesmo no nosso backyard.
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